[...]
Adentrou a catedral. Cabeça voltada para o chão; passos lentos; coração lhe saltando à boca; respiração ofegante. Temia... Temia olhar à frente; não queria fixar o olhar sob a cerimônia que ali era celebrada; Temia encarar o maior de seus anseios... Temia, Ele Jeremy, o Temeroso.
Sentidos aguçados; Respirou o mais fundo que pôde e reunindo o pouco de coragem que lhe era pertinente, ergueu o olhar, fixou o olhar; Os cânticos cessaram; As vozes calaram-se; O mundo parou diante de seus olhos castanhos.
Havia anos, sentira a mesma sensação lhe envadir a mente. E petrificado outrora; petrificado estava. O sol penetrava pelos vitrais da catedral com cores vivas que pintavam o teto abobadado; a multidão chorava silenciosa; Jeremy, o Rei, estático, observara calado; Faltou-lhe as pernas, e atento; firmou pesadamente os pés ao chão. Manteve-se ereto; pálido, com olheiras que lhe desfiguravam o rosto jovem; Envelhecera novamente.
- Sangue do meu sangue; Apenas um desconhecido - pensou.
A multidão separava-se apenas por um corredor decorado com um tapete vermelho, na extremidada, o leito final se exibia; A arca da morte envoldida por castiçais ao seu redor; chamas trêmulas que dançavam vivas sob o aspecto da morte.
Corrompido pelas lembranças, ele, Jeremy, não hesitou; não recuou, apenas imóvel, levou as mãos à face, tentando conter-se, tentando controlar o instinto de homem ferido; Movimentos em vão.
Chorou. Silenciado pelos murmúrios da multidão que novamente entoavam tristes canções, ele, Jeremy, O rei chorou.
Manchavam-lhe à face lágrimas pesadas; Salgadas; metálicas;
"O que está acontecendo?" - questionou-se - "O que te aflinge, Alteza?
[...]
Desatava a correr; edificações desfocavam-se diante de seu olhar. Olhar que varria o vasto horizonte; procurando abrigo; procurando proteção. E não soubera quanto tempo havia se passado. ; não soubera dizer ao certo como fugira; Apenas o fez. Ele, Jeremy, o Medroso.
Alucinava; corria... deixando tudo para trás; submerso nos pensamentos; Cabelos bagunçados; olhar aflito; Apenas uma face envelhecida; uma mente perturbada; Um homem teremoso.
O sol do meio-dia o cegara momentaneamente; mas nada o impedia de fugir; Procurava por mais uma dose de seu mais puro antídoto; procurava embriargar-se no desconhecido; Procurava por algo além da visão; invisível; seguro; acolhedor.
[...]
Rei Jeremy, desorientado nas ruas e becos; Cambaleante Rei Jeremy, diante de Elise; procurava por algo que não compreendia. Ela, o fitava com olhar determinado. Fria, impassível, real.
Suas palavras faziam sangrar o jovem rei. Faziam-no hesitar, questionar-se; Ainda cambaleante, Jeremy chocava-se contra uma barreira invisível; Travava ali, diante de Elise, uma árdua batalha contra si próprio. Confuso, olhava-a com olhar de criança que perde-se diante da multidão; desprotegido, frágil; mantinha um olhar sincero, inocente.
Diante de Jeremy, não estava Elise; Estava Elizabeth, o Antídoto Proibido; De sabor dócil; de dosagens de realidade nua e crua; Uma mulher capaz de o imobilizar, de feri-lo ao mesmo tempo que o curava de seu febril desespero. Mulher feita, de palavras árduas. Era ela, Elizabeth, governava o mundo à sua maneira; Olhar frio; palavras fortes; Rainha Elizabeth, soberana, impassível, realista.
Uma mulher e tanto.
Jeremy, O Perturbado, lentamente voltava a si. Cambaleante, desvencilhou-se do véu confuso, deparou-se com a realidade; com Elise; Olhou-a. Chocou-se ao descobrir que fora um tolo. Um rei tolo, que sabia governar o mundo à sua maneira; mas não aprendera a governar-se.
Buscava respostas onde estas não lhe eram dadas. Prendia-se ao delírio de proteger-se da vida, envolto em sua fantasia perfeita. Em seu sonho real; Assim o era, Rei Jeremy, O tolo.
Diante daquela mulher, ele procurava uma maneira de proteger-se; mas ela soubera dosar sabedoria e frieza e mostrou-o o mais árduo dos caminhos. Estaria ao seu lado se necessário, mas não carregaria seus fardos.
[...]
"Não fraqueje; Não caia. Não seja repudiado por seus demônios, Jeremy. Lute! Encare-os. Pois somente assim será digno de governar o mundo à sua maneira, e mais além, governar a si próprio. Você é um tolo. Um tolo que espera as coisas se ajustarem à sua maneira. Faça acontecer. Pois o que aconteceu, aconteceu!" - Dizia Elise.
Por algum tempo, estariam distantes. Por algum tempo, seria apenas ele, Jeremy, o Rei. Longe de sua consciencia, esta chamada Elise.
Abracaram-se ao pôr-do-sol. Seguiram caminhos distintos. Ela para sua vida tão cruelmente simplista; Ele para seu labirinto emocional. Para a guerra que se anunciava ao horizonte. Desviaram o olhar, rumando por entre seus caminhos; Ele a olhou pensativo, distante. Ele, Jeremy, o Saudosista. Ela, não olhara para trás, mas de alguma maneira, O Rei soubera que ela o fitava intensamente, nos pensamentos, no coração.
Partiram.
Era dado o momento. Chegada a hora de batalhar uma guerra invisível; desprovida de armas; Um exército de um homem só, sozinho, diante do espelho.
- Será um longo tempo longe - pensou Jeremy insatisfeito - É necessário!
Não podia render-se a sentimentos tão fantasiosos. Não podia render-se. Assim o via, Ele, Jeremy, Provido de sentimentos.
Apenas um sentimento tolo de um escritor. Apenas um monstro a mais para combater. Mas este, era o pior de seus monstros. Era o monstro que lhe consumiria as energias. Era o embriagante e tão sutil gosto de ilusão. Tão dócil; tão prazeroso; tão mortal.
O mais mortal de todos os venenos;u m vitral prestes a se romper;
O maldito vício da alma.
[...]
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