[...]
Jazia deitado à cama. A penumbra se fazia atada ao silêncio que pairava no ambiente, exceto pelo som do vento frio que varria as folhas lá fora Submerso no cobertor acolhedor, Jeremy revirava-se, fechava seus olhos castanhos, irritava-se como sono teimoso que demorava a chegar.
De olhos fechados escutava o pesado som de sua respiração. Sentia as mãos trêmulas, os espasmos dos músculos de sua perna, sentia os pensamentos irem e voltarem. Preocupações com o desconhecido.
Quanto mais cercava suas defesas contra as preocupações, mais escancarava as portas para a insônia.
Preocupava-se com o preocupar-se. Estranho pensar dessa maneira. Diante da agilidade sorrateira de seus pensamentos era a única explicação plausível para a insônia. Preocupava-se com contratos, estudos, trabalho, mulheres, tremores, saúde, dinheiro, etc, etc, etc.
Jeremy, o Preocupado se emaranhava em tantas questões. Sentia-se sufocado por ele próprio. Por vezes, queria modificar o jeito de ser. Queria ser normal, agir pelo impulso, não se importar com as pessoas, ignorar presságios, atropelar o som do próprio coração.
Mas não o era. Era ele, Jeremy, o Mentalista.
[...]
Jeremy temia novamente estar perdendo a sobriedade. Sabia que os tremores eram brandos, sabia que a ansiedade, outrora tempestades devastadoras, agora não mais que uma chuva serena que gotejava irritante. Indiferente das sensações, temia.
Era a abstinência de suas doses diárias de uma uma certa "Paz Química". Eram as preocupações com fantasmas desconhecidos. Era esse temor irreal de ser levado ao início de seus maiores anseios.
Apesar da penumbra, sentiu o mundo girar, veloz, sentiu o corpo sucumbir...
NÃO! - Vociferou mentalmente - NÃO MAIS!
Sentiu o corpo elevar-se. Sentiu a mente retesar numa forte dor de cabeça. Era essa sua guerra interna.
Jeremy versus Jeremy.
Um rei sóbrio contra um rei receoso. Eram partes de um só. Elos que se uniam na distinção dos pensamentos. Bem e mal. Preto e Branco. Manifestações de desejos e receios que piscavam em flashes na mente do jovem rei...
Horas depois, jazia um rei sereno. Aos poucos, era submetido aos primeiros vestígios de um sono que demorara a surgir. As preocupações permaneceriam adormecidas por algum tempo, mas Jeremy sabia, reais ou não, deveria confrontá-las. Não sabia ao certo se estava pronto para desfazer de suas defesas, mas talvez estivesse pronto para seguir e expurgar tais fantasmas.
[...]
domingo, 9 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Vinte e Quatro - Christie
[...]
Eram seres distintos. Incrível como a natureza os moldara opostos. Ele, com seus olhos castanhos, barba por fazer, trajava-se como um rei mundano. Brincos brilhavam às orelhas, e seu sorriso se distorcia na envolta e pesada música que soava distante. Assim o era à época, ele, Jeremy, o Perverso.
Ela, uma dama minuciosamente bela. Eram traços descritos naquela perfeição que Jeremy jamais presenciara. De curvas acentuadas, olhar sonhador, lábios delicados. Seus cabelos negros escorriam aos ombros, e sua pele clara lhe intensificavam a pureza de mulher feita, porém, seu sorriso lhe proporcionava a mais pura essência da inocência. Postava-se com soberba, com suas jóias brilhantes, sua voz melódica, sua maquiagem retocada em traços delicados. Parecia saborear dos costumes da alta nobreza. Assim o era, ela, Christie.
A noite gélida se propagava ao luar pálido refletido no lago à frente. Jeremy, parecia saborear de um sentimento mesclado no proibido, no há muito esperado. Não se importava. Fumava de seu cigarro, observando o luar, enquanto dedilhava seus mais serenos acordes no velho violão.Christie postava-se ao seu lado, sorria e cantava receosa. Fitava Jeremy com um olhar jamais desferido pela bela dama. A noite parecia caminhar para um breve ode à perfeição. Foram-se as horas. As músicas cessaram.
As vozes se tornaram amenas. E Jeremy apenas sentiu Christie recostar-se. Entregar-se gentilmente ao ombro de um homem que há muito desejava por isso. Jeremy sorriu. O dia parecia perfeito.
[...]
A natureza caminhava à velocidade do carro. Postados ao banco traseiro, Christie e Jeremy cantarolavam, enquanto seus olhos se encontravam serenos, prazerosos.
"Acordei com o seu gosto. E a lembrança de teu rosto. Porque você se fez tão linda? Mas agora você vai embora. Quanto tempo será que demora, um mês para passar?"
Instigado por seus desejos. Investiu, ele, Jeremy. Lentamente, levou a mão à altura da face de sua companheira, e deslizou suavemente, sentindo o calor, a sutileza de pele macia. Fechou os olhos e apenas deixou-se conduzir pela balada da canção. Lábios tocando-se suaves. O primeiro beijo. O mundo não girara. O tempo não movera-se.
Eram apenas os dois. Um beijo que selava uma longa jornada, o qual Jeremy submetera-se ao escolher caminhos árduos. O rei lutou ferozmente para conquistar o coração da bela Dama.
Agora, degustava o açucar que envolvia aqueles lábios tão suavez. Beijaram-se intensamente. Descobriam os verdadeiros sentimentos ocultos no que um dia fora incerto.
Mais tarde, Jeremy celebrara. Embrigado no vinho barato, cantara, rodopiara, sorrira aturdido no prazer. Um ode ao luar. Um ode à paixão.
[...]
A música soava calma preenchendo o silêncio do ambiente escuro, exceto pela luz fraca, de uma tonalidade azul que projetava-se contra as faces dos jovens ali presentes. Christie e Jeremy, de corpos expostos, entregavam-se no desejo. Beijavam-se, e emanavam o calor dos corpos que se enlaçavam no ritual desse tal amor que outrora se forticara.
- Eu te amo, meu bem! - Dizia ele.
- Também o amo, meu amor! - Respondia ela. Absortos nos próprios sentimentos. Amaram e deixaram-se amar.
[...]
Christie derramava-se em lágrimas. Aturdida, confusa. Sentia a dor de algo que caracterizava como um ato de traição. Gesticulava feroz e sucumbia à ira. Jeremy, no misto de culpa e sinceridade, desatara a falar.
Erros que cometera incumbido de tal fraqueza. Cartas, de palavras traiçoeiras, de sentimentos confusos. Apenas cartas. Apenas uma traição do qual fora sentenciado.
Jeremy, mergulhado na culpa, chorou. Temia perder Christie. Temia perder para si, a mulher que outrora conquistara.
Movido pelo caos que criara. Movido pela culpa que talvez não tivera, entregou-se ao medo...
... o medo o entregou ao seu maior erro.
Naquele momento, Jeremy, O Mundano não mais o era. Abrira mão de seu dom, de sua liberdade.
Sentenciou-se à viver intensamente regras o qual outrora rejeitava.
[...]
Eram tantos os momentos, que Jeremy perdia-se nas próprias lembranças. Fitava uma Christie impassível ao longe. O rei projetava-se contra o papel. O dobrava, sentindo os primeiros tremores se anunciarem.
Olhou para o infinito. Descansou à mesa um pequeno pássaro de papel e novamente mergulhara nas memórias...
... A discussão parecia tomar direções confusas. Jeremy, alterando o tom de voz, gritava, gesticulava. Parecia expurgar diabos que se valiam de sua alma.
Dizia ele, ter deixado um mundo inteiro para trás. Dizia ter se ramificado na mesma questão do mudar. Mudar valores, mudar palavras e sentimentos. Christie jamais mudara. Sua personalidade se intesificava na desconfiança, no ciúmes, na possessão.
Era certo que outrora, Jeremy errara. Porém, pagara por seu erro tolo. Agora, parecia não entender tais motivos. Há muito vivia submerso naquele universo o qual aceitara. Há muito abraçara regras.
Tudo parecia em vão. Christie jamais abriria mão de tais comportamentos. Sua desconfiança para com Jeremy aumentava frequente, e entregue à tais parâmetros, jazia um Jeremy confuso.
Sentia-se acorrentado.
A discussão ainda na alvorada deixara Jeremy irritado.
Olhou as paredes brancas manchadas num amarelado escasso. Pego de surpresa, sentiu o peito comprimir numa aguda dor; A respiração adquiriu maior intensidade e sufocado na própria dor; no próprio desespero, olhou confuso pela janela, deparando-se com um nublado céu cinzento.
Levantou a mão na altura do peito, numa tentativa tola de amenizar a dor. O coração pulsava feroz; a respiração se confundia e o olhar desfocava-se...
Era o delírio; Era a loucura. Era o desconhecido que penetrava à mente e o envolvia no terror.
Apenas uma mente confusa. Sua primeira, de muitas crises.
Síndrome do Pânico. Apenas um homem à mercê de escolhas irreais.
[...]
A noite cinzenta envolvia a cidade numa melancolia antes despercebida por ele. Seus olhos castanhos, marejados pelas lágrimas, brilhavam confusos. Sua voz parecia um bizarro sussuro de pânico; ia e voltava em palavras desencontradas.À sua frente postava-se Christie, Pássaro de Papel. Esta, outrora serena, afogava-se nas lágrimas; Olhos marejados, sem brilho. Agora não mais que reflexos da tristeza.
Era o fim de uma Era. O qual viveram do amor crescente. Dentre ilusões e desilusões criadas, viviam o diminuto universo o qual cercaram-se. Jeremy, outrora um vívido sonhador, jazia no desespero de seus próprios erros. Ainda a amava. Porém, sua decisão parecia ser sábia.
Entregava-se à essa loucura que se apossara de sua alma. Entregava-se aos demônios que agora saboreavam os últimos vestígios de um homem forte.
Mesmo os erros de Christie, o rei decidira não envolve-la no sofrimento. Queria o melhor para sua rainha. Queria preservar toda linha temporal que ambos trilharam. Por amor, deixou-a. Soava egoísta, mas era real. O amor que ainda existia lhe induziam, ele, Jeremy aos últimos vestígios de sua sobriedade.
Tomado por essa força maior, sacrificou sua ultima esperança. A última pessoa o qual deveria renegar. Renegou-a. Jamais seria compreendido. Jamais seria perdoado.
Mas o fez. Um último suspiro de um homem que agora mergulhava cambaleante na loucura.
Um Rei insano apenas.
[...]
Agora entendo o que o motivou. - dizia Christie ameaçadora. - Você não passa de um covarde, Jeremy. Um maldito covarde.
Jeremy escutara descrente. Parecia não compreender a dimensão de tais palavras.
- Fiz o que achei necessário. Não me culpe. Fiz por ti - exclamava Jeremy. - Preservei o que iria ruir se continuássemos.
- O fez por ser um tolo. Agora entendo. Ela é sua cura, sua doença.
- Não a envolva nisso - esbravejava Jeremy com as indagações de Christie - Elise jamais fora parte disso.
- Elise. Sua doença, sua cura, maldito rei bastardo!
Acusado, Jeremy calou-se. Era inapropriado manter aquela conversa. Não havia necessidades. Sabia que não havia fundamentos. Não havia lógica nas acusações. Era apenas o ciúmes de uma mulher perdida. Eram apenas presságios do que um futuro incerto iria criar. Mas àquele tempo, ainda não o era. Elizabeth, era tão e somente uma amiga...
Chegava ao fim um relacionamento que mesclava o amor, a obsessão, a liberdade renunciada. Jeremy, entregue ao caos de sua mente partira para uma viagem. Precisava descansar, precisava esquecer Christie. Eram ecos do vigésimo quinto dia...
Passaram-se dias, semanas, meses. Jeremy, o Sóbrio, aos poucos começava à adquirir meios de estirpar o caos. Porém, tais pensamentos o levaram à saborear outra dose de um pânico que há muito não o incomodara.
Respirou profundo. Mergulhou na auto-crítica. Fechou os olhos e por quase uma hora tentou abrandar o ritmo acelerado do coração, o corpo tenso, o olhar confuso.
Eram apenas sentimentos que se afogaram em erros que ambos criaram. Jeremy olhou para Christie, ela, por sua vez, ignorou-o.
[...]
O rei caminhou, sentindo o peito arfar. Sentiu os olhos marejarem. Com um nó preso à garganta, depositou no interior de um livro um pequeno origami. Lentamente fechou suas páginas e partiu.
Christie encontraria o arfetato. - pensou ele.
Era apenas um gesto de que apesar do tempo, Jeremy sempre a teria com carinho. Escolhera o fim do enlace, mas no fundo, preservara parte daquele sentimento inicial.
Preservara a maneira de protege-la do mundo. Naquele dia, comemorariam a data de seu enlace. Porém, o tempo sábio, não os permitira.
- Apenas lembranças! Apenas erros o qual sentenciamos ao caos, um sentimento puro - pensou ele, Jeremy, o Perverso.
Caminhou lentamente. Não olhou para trás. Mas sabia, de alguma maneira, ela guardaria o passaro de papel.
[...]
Eram seres distintos. Incrível como a natureza os moldara opostos. Ele, com seus olhos castanhos, barba por fazer, trajava-se como um rei mundano. Brincos brilhavam às orelhas, e seu sorriso se distorcia na envolta e pesada música que soava distante. Assim o era à época, ele, Jeremy, o Perverso.
Ela, uma dama minuciosamente bela. Eram traços descritos naquela perfeição que Jeremy jamais presenciara. De curvas acentuadas, olhar sonhador, lábios delicados. Seus cabelos negros escorriam aos ombros, e sua pele clara lhe intensificavam a pureza de mulher feita, porém, seu sorriso lhe proporcionava a mais pura essência da inocência. Postava-se com soberba, com suas jóias brilhantes, sua voz melódica, sua maquiagem retocada em traços delicados. Parecia saborear dos costumes da alta nobreza. Assim o era, ela, Christie.
A noite gélida se propagava ao luar pálido refletido no lago à frente. Jeremy, parecia saborear de um sentimento mesclado no proibido, no há muito esperado. Não se importava. Fumava de seu cigarro, observando o luar, enquanto dedilhava seus mais serenos acordes no velho violão.Christie postava-se ao seu lado, sorria e cantava receosa. Fitava Jeremy com um olhar jamais desferido pela bela dama. A noite parecia caminhar para um breve ode à perfeição. Foram-se as horas. As músicas cessaram.
As vozes se tornaram amenas. E Jeremy apenas sentiu Christie recostar-se. Entregar-se gentilmente ao ombro de um homem que há muito desejava por isso. Jeremy sorriu. O dia parecia perfeito.
[...]
A natureza caminhava à velocidade do carro. Postados ao banco traseiro, Christie e Jeremy cantarolavam, enquanto seus olhos se encontravam serenos, prazerosos.
"Acordei com o seu gosto. E a lembrança de teu rosto. Porque você se fez tão linda? Mas agora você vai embora. Quanto tempo será que demora, um mês para passar?"
Instigado por seus desejos. Investiu, ele, Jeremy. Lentamente, levou a mão à altura da face de sua companheira, e deslizou suavemente, sentindo o calor, a sutileza de pele macia. Fechou os olhos e apenas deixou-se conduzir pela balada da canção. Lábios tocando-se suaves. O primeiro beijo. O mundo não girara. O tempo não movera-se.
Eram apenas os dois. Um beijo que selava uma longa jornada, o qual Jeremy submetera-se ao escolher caminhos árduos. O rei lutou ferozmente para conquistar o coração da bela Dama.
Agora, degustava o açucar que envolvia aqueles lábios tão suavez. Beijaram-se intensamente. Descobriam os verdadeiros sentimentos ocultos no que um dia fora incerto.
Mais tarde, Jeremy celebrara. Embrigado no vinho barato, cantara, rodopiara, sorrira aturdido no prazer. Um ode ao luar. Um ode à paixão.
[...]
A música soava calma preenchendo o silêncio do ambiente escuro, exceto pela luz fraca, de uma tonalidade azul que projetava-se contra as faces dos jovens ali presentes. Christie e Jeremy, de corpos expostos, entregavam-se no desejo. Beijavam-se, e emanavam o calor dos corpos que se enlaçavam no ritual desse tal amor que outrora se forticara.
- Eu te amo, meu bem! - Dizia ele.
- Também o amo, meu amor! - Respondia ela. Absortos nos próprios sentimentos. Amaram e deixaram-se amar.
[...]
Christie derramava-se em lágrimas. Aturdida, confusa. Sentia a dor de algo que caracterizava como um ato de traição. Gesticulava feroz e sucumbia à ira. Jeremy, no misto de culpa e sinceridade, desatara a falar.
Erros que cometera incumbido de tal fraqueza. Cartas, de palavras traiçoeiras, de sentimentos confusos. Apenas cartas. Apenas uma traição do qual fora sentenciado.
Jeremy, mergulhado na culpa, chorou. Temia perder Christie. Temia perder para si, a mulher que outrora conquistara.
Movido pelo caos que criara. Movido pela culpa que talvez não tivera, entregou-se ao medo...
... o medo o entregou ao seu maior erro.
Naquele momento, Jeremy, O Mundano não mais o era. Abrira mão de seu dom, de sua liberdade.
Sentenciou-se à viver intensamente regras o qual outrora rejeitava.
[...]
Eram tantos os momentos, que Jeremy perdia-se nas próprias lembranças. Fitava uma Christie impassível ao longe. O rei projetava-se contra o papel. O dobrava, sentindo os primeiros tremores se anunciarem.
Olhou para o infinito. Descansou à mesa um pequeno pássaro de papel e novamente mergulhara nas memórias...
... A discussão parecia tomar direções confusas. Jeremy, alterando o tom de voz, gritava, gesticulava. Parecia expurgar diabos que se valiam de sua alma.
Dizia ele, ter deixado um mundo inteiro para trás. Dizia ter se ramificado na mesma questão do mudar. Mudar valores, mudar palavras e sentimentos. Christie jamais mudara. Sua personalidade se intesificava na desconfiança, no ciúmes, na possessão.
Era certo que outrora, Jeremy errara. Porém, pagara por seu erro tolo. Agora, parecia não entender tais motivos. Há muito vivia submerso naquele universo o qual aceitara. Há muito abraçara regras.
Tudo parecia em vão. Christie jamais abriria mão de tais comportamentos. Sua desconfiança para com Jeremy aumentava frequente, e entregue à tais parâmetros, jazia um Jeremy confuso.
Sentia-se acorrentado.
A discussão ainda na alvorada deixara Jeremy irritado.
Olhou as paredes brancas manchadas num amarelado escasso. Pego de surpresa, sentiu o peito comprimir numa aguda dor; A respiração adquiriu maior intensidade e sufocado na própria dor; no próprio desespero, olhou confuso pela janela, deparando-se com um nublado céu cinzento.
Levantou a mão na altura do peito, numa tentativa tola de amenizar a dor. O coração pulsava feroz; a respiração se confundia e o olhar desfocava-se...
Era o delírio; Era a loucura. Era o desconhecido que penetrava à mente e o envolvia no terror.
Apenas uma mente confusa. Sua primeira, de muitas crises.
Síndrome do Pânico. Apenas um homem à mercê de escolhas irreais.
[...]
A noite cinzenta envolvia a cidade numa melancolia antes despercebida por ele. Seus olhos castanhos, marejados pelas lágrimas, brilhavam confusos. Sua voz parecia um bizarro sussuro de pânico; ia e voltava em palavras desencontradas.À sua frente postava-se Christie, Pássaro de Papel. Esta, outrora serena, afogava-se nas lágrimas; Olhos marejados, sem brilho. Agora não mais que reflexos da tristeza.
Era o fim de uma Era. O qual viveram do amor crescente. Dentre ilusões e desilusões criadas, viviam o diminuto universo o qual cercaram-se. Jeremy, outrora um vívido sonhador, jazia no desespero de seus próprios erros. Ainda a amava. Porém, sua decisão parecia ser sábia.
Entregava-se à essa loucura que se apossara de sua alma. Entregava-se aos demônios que agora saboreavam os últimos vestígios de um homem forte.
Mesmo os erros de Christie, o rei decidira não envolve-la no sofrimento. Queria o melhor para sua rainha. Queria preservar toda linha temporal que ambos trilharam. Por amor, deixou-a. Soava egoísta, mas era real. O amor que ainda existia lhe induziam, ele, Jeremy aos últimos vestígios de sua sobriedade.
Tomado por essa força maior, sacrificou sua ultima esperança. A última pessoa o qual deveria renegar. Renegou-a. Jamais seria compreendido. Jamais seria perdoado.
Mas o fez. Um último suspiro de um homem que agora mergulhava cambaleante na loucura.
Um Rei insano apenas.
[...]
Agora entendo o que o motivou. - dizia Christie ameaçadora. - Você não passa de um covarde, Jeremy. Um maldito covarde.
Jeremy escutara descrente. Parecia não compreender a dimensão de tais palavras.
- Fiz o que achei necessário. Não me culpe. Fiz por ti - exclamava Jeremy. - Preservei o que iria ruir se continuássemos.
- O fez por ser um tolo. Agora entendo. Ela é sua cura, sua doença.
- Não a envolva nisso - esbravejava Jeremy com as indagações de Christie - Elise jamais fora parte disso.
- Elise. Sua doença, sua cura, maldito rei bastardo!
Acusado, Jeremy calou-se. Era inapropriado manter aquela conversa. Não havia necessidades. Sabia que não havia fundamentos. Não havia lógica nas acusações. Era apenas o ciúmes de uma mulher perdida. Eram apenas presságios do que um futuro incerto iria criar. Mas àquele tempo, ainda não o era. Elizabeth, era tão e somente uma amiga...
Chegava ao fim um relacionamento que mesclava o amor, a obsessão, a liberdade renunciada. Jeremy, entregue ao caos de sua mente partira para uma viagem. Precisava descansar, precisava esquecer Christie. Eram ecos do vigésimo quinto dia...
Passaram-se dias, semanas, meses. Jeremy, o Sóbrio, aos poucos começava à adquirir meios de estirpar o caos. Porém, tais pensamentos o levaram à saborear outra dose de um pânico que há muito não o incomodara.
Respirou profundo. Mergulhou na auto-crítica. Fechou os olhos e por quase uma hora tentou abrandar o ritmo acelerado do coração, o corpo tenso, o olhar confuso.
Eram apenas sentimentos que se afogaram em erros que ambos criaram. Jeremy olhou para Christie, ela, por sua vez, ignorou-o.
[...]
O rei caminhou, sentindo o peito arfar. Sentiu os olhos marejarem. Com um nó preso à garganta, depositou no interior de um livro um pequeno origami. Lentamente fechou suas páginas e partiu.
Christie encontraria o arfetato. - pensou ele.
Era apenas um gesto de que apesar do tempo, Jeremy sempre a teria com carinho. Escolhera o fim do enlace, mas no fundo, preservara parte daquele sentimento inicial.
Preservara a maneira de protege-la do mundo. Naquele dia, comemorariam a data de seu enlace. Porém, o tempo sábio, não os permitira.
- Apenas lembranças! Apenas erros o qual sentenciamos ao caos, um sentimento puro - pensou ele, Jeremy, o Perverso.
Caminhou lentamente. Não olhou para trás. Mas sabia, de alguma maneira, ela guardaria o passaro de papel.
[...]
domingo, 2 de maio de 2010
Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Vinte e Três - Lugar algum
[...]
Era lugar algum. Um carro estacionado nos canteiros da velha vasta estrada. O asfalto negro estendido, lá para aqueles lados de onde os carros rompiam da penumbra. De onde os faróis quebravam a escuridão e refletiam no retrovisor interno, cegando momentaneamente o jovem observador.
Lugar algum, de onde a lua rompia de um brilho amarelo fosco ainda no berço de sua jornada pela madrugada estrelada. O céu, vasto véu negro de milhões de outras galáxias. Estrelas brilhantes corrompidas pelas luzes da cidade. Brilho sujo, do envelhecido, do mercúrio das lâmpadas em fila.
Apenas lugar comum. De onde um homem, sentado ao banco do carro observava, varrendo com seu olhar castanho os ipês roxos, os postes, o céu, a lua, o nada. Braço direito recostado à porta, de cigarro em punho, queimando pesadamente, exalando o degustante odor da nicotina e do alcatrão. Um trago. Fumaça ao vento.
Dopamina liberada. Ao prazer de um bom cigarro.
[...]
Pela longa estrada dirigia. Olhava pelo retrovisor, olhava à frente, e por vezes desviava o olhar, olhos aos céus, nas estrelas difusas. Cantarolava como quem não se importava, berrava desafinado, voz rouca. Dueto com o rádio.
"Did I say that I need you? Did I say that I want you? Oh, if I didn't I'm a fool, you see. No one knows this more than me"
Em algum lugar. Uma mulher o esperava. Queria lhe dizer algo. Em outro lugar, uma outra mulher o procurava. Em lugar desconhecido, uma mulher, não atendia o telefone celular.
- Droga! - Esbravejava ele. Guardando o celular, enquanto girava o botão do rádio aumentando o volume da canção.
"Even flow, thoughts arrive like butterflies. Oh, he don't know, so he chases them away."
Ele acendia outro cigarro, saboreando o gosto. Aquele maldito soco do diabo nos pulmões. Aquele maldito gosto de seu vício comum.
Uma das mulheres iria ouvir o que ele tinha a dizer, daria de ombros, porém, sentiria o golpe. A segunda, desataria a falar, mas se magoaria com aquela frieza que ele iria lhe proporcionar. A outra, porém, não atenderia o celular e ele não saberia dizer.
[...]
Era lugar algum. O relógio marcava seis horas da manha. Mais alguns minutos e o sol romperia a fria noite. À cama, um homem se enrolaria nos cobertores, aquecendo-se. Rezava mentalmente. Após as orações, olhou cegamente pela penumbra do ambiente. Ao computador rompiam-se calmas canções. Livros se espalhavam na estante, na mesinha, no armário.
Apenas lugar algum. Um homem entregava-se ao sono. Sonhara com uma bela dama de cabelos dourados...
... Felizes, abraçavam-se. Beijavam-se. Sorriam. Eram belos, ele, ela, juntos. Caminhavam por um cenário o qual ele não se lembraria ao acordar, caminhavam de mãos dadas, dedos enlaçados.
Cenário em modificação.
Estavam à mesa, partilhando um momento único ao lado de familiares e amigos. Alguns dos quais, vivos não mais estavam. Todos tagarelavam sem parar. O homem fitava sua amada. Sentia aquele ternura lhe preencher. Não havia lacunas. Ela, por sua vez, o fitava com sorriso gentil, amável. Compartilhavam dessa felicidade tão plena...
[...]
Algum momento do tempo. Um homem acordava. Ainda sentia toda aquela felicidade irreal lhe preencher. Olhou o teto, as teias daquelas aranhas esquisitas, pernudas, magrelas. Respirou fundo. Continuou submerso na preguiça. Sorriu.
Acordado, continuava a ver e rever mentalmente aquele sonho bom. Aquele sonho o qual deveria ser real.
[...]
Um lugar qualquer, um homem continua a sonhar. Era ele, ninguém. Um tal Jeremy.
Sonhara com aqueles belos olhos, aquele sorriso. Uma tal Elise.
Continuou a sonhar acordado por longos momentos. De olhar distante, perdia-se nos próprios pensamentos, enquanto segurava em suas mãos a pequena flor de lótus que outrora fizera.
A perfeição que renasce do caos!
Um sonho. Um sentimento. Uma frágil dobradura de papel.
[...]
Era lugar algum. Um carro estacionado nos canteiros da velha vasta estrada. O asfalto negro estendido, lá para aqueles lados de onde os carros rompiam da penumbra. De onde os faróis quebravam a escuridão e refletiam no retrovisor interno, cegando momentaneamente o jovem observador.
Lugar algum, de onde a lua rompia de um brilho amarelo fosco ainda no berço de sua jornada pela madrugada estrelada. O céu, vasto véu negro de milhões de outras galáxias. Estrelas brilhantes corrompidas pelas luzes da cidade. Brilho sujo, do envelhecido, do mercúrio das lâmpadas em fila.
Apenas lugar comum. De onde um homem, sentado ao banco do carro observava, varrendo com seu olhar castanho os ipês roxos, os postes, o céu, a lua, o nada. Braço direito recostado à porta, de cigarro em punho, queimando pesadamente, exalando o degustante odor da nicotina e do alcatrão. Um trago. Fumaça ao vento.
Dopamina liberada. Ao prazer de um bom cigarro.
[...]
Pela longa estrada dirigia. Olhava pelo retrovisor, olhava à frente, e por vezes desviava o olhar, olhos aos céus, nas estrelas difusas. Cantarolava como quem não se importava, berrava desafinado, voz rouca. Dueto com o rádio.
"Did I say that I need you? Did I say that I want you? Oh, if I didn't I'm a fool, you see. No one knows this more than me"
Em algum lugar. Uma mulher o esperava. Queria lhe dizer algo. Em outro lugar, uma outra mulher o procurava. Em lugar desconhecido, uma mulher, não atendia o telefone celular.
- Droga! - Esbravejava ele. Guardando o celular, enquanto girava o botão do rádio aumentando o volume da canção.
"Even flow, thoughts arrive like butterflies. Oh, he don't know, so he chases them away."
Ele acendia outro cigarro, saboreando o gosto. Aquele maldito soco do diabo nos pulmões. Aquele maldito gosto de seu vício comum.
Uma das mulheres iria ouvir o que ele tinha a dizer, daria de ombros, porém, sentiria o golpe. A segunda, desataria a falar, mas se magoaria com aquela frieza que ele iria lhe proporcionar. A outra, porém, não atenderia o celular e ele não saberia dizer.
[...]
Era lugar algum. O relógio marcava seis horas da manha. Mais alguns minutos e o sol romperia a fria noite. À cama, um homem se enrolaria nos cobertores, aquecendo-se. Rezava mentalmente. Após as orações, olhou cegamente pela penumbra do ambiente. Ao computador rompiam-se calmas canções. Livros se espalhavam na estante, na mesinha, no armário.
Apenas lugar algum. Um homem entregava-se ao sono. Sonhara com uma bela dama de cabelos dourados...
... Felizes, abraçavam-se. Beijavam-se. Sorriam. Eram belos, ele, ela, juntos. Caminhavam por um cenário o qual ele não se lembraria ao acordar, caminhavam de mãos dadas, dedos enlaçados.
Cenário em modificação.
Estavam à mesa, partilhando um momento único ao lado de familiares e amigos. Alguns dos quais, vivos não mais estavam. Todos tagarelavam sem parar. O homem fitava sua amada. Sentia aquele ternura lhe preencher. Não havia lacunas. Ela, por sua vez, o fitava com sorriso gentil, amável. Compartilhavam dessa felicidade tão plena...
[...]
Algum momento do tempo. Um homem acordava. Ainda sentia toda aquela felicidade irreal lhe preencher. Olhou o teto, as teias daquelas aranhas esquisitas, pernudas, magrelas. Respirou fundo. Continuou submerso na preguiça. Sorriu.
Acordado, continuava a ver e rever mentalmente aquele sonho bom. Aquele sonho o qual deveria ser real.
[...]
Um lugar qualquer, um homem continua a sonhar. Era ele, ninguém. Um tal Jeremy.
Sonhara com aqueles belos olhos, aquele sorriso. Uma tal Elise.
Continuou a sonhar acordado por longos momentos. De olhar distante, perdia-se nos próprios pensamentos, enquanto segurava em suas mãos a pequena flor de lótus que outrora fizera.
A perfeição que renasce do caos!
Um sonho. Um sentimento. Uma frágil dobradura de papel.
[...]
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