domingo, 12 de setembro de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Sete - A Tormenta

[...]
 E naquele momento, nada mais importava, pois diante de seu grande amor, todos os problemas se resumiam a pequenos detalhes que aos poucos seriam apenas vagas lembranças. Jeremy sorria. Sentia-se feliz. Sentia-se realizado. Nada mais importava.  

Era o suficiente.

[...] 

A manhã nasceu de um tom cinza, quase negro. Pouco se via do brilho dourado que surgia ao horizonte. Jeremy olhou por mais uns instantes as avenidas, e olhou o brilho escasso que não conseguia transcender os limites dos céus.Olhou profundamente nos olhos de Sophie. Beijou-a com ternura. Abraçados, sentiam o calor de corpos e mentes em profunda conexão.- Sentirei sua falta - disse o rei, com a voz embargada.

 Ela sorriu, triste. Não queria que partisse. Novamente o abraçou, o beijou.Era dado o momento de retornar ao lar. Fitou-a por uma eternidade, e sentindo a sensação de um adeus não tão breve, partiu.

Se lembraria daquele olhar esverdeado, e choraria só, momentos antes de ser engolido pela escuridão que o dominaria em poucas horas.Acima de sua cabeça, um tapete negro se forrava em nuvens negras. As árvores começavam a bailar, frenéticas, intensas. E as primeiras lágrimas derramadas pelos Deuses enfim, beijavam o asfalto.

Olhou os céus, e que os Deuses o guiassem no seu retorno, pensou.

 [...]

 Uma grande tempestade assolou toda a natureza à sua volta. Rei Jeremy guiava seu carro, e atento à estrada, mantinha o olhar fixo no asfalto. A chuva castigava a visão. As curvas traiçoeiras pareciam puxar-lhe para a catastrofe iminente. Havia horas dirigia sem descanso, mas mantivera o sorriso.Ele, o rei, estava bem. 

Os anos arduos pareciam um mosaico de eventos há muito deixados para trás. Irracional, imcompreendido, louco, alucinado. Jeremy no decorrer dos anos se tornara um ícone de adjetivos pesados, e ciente de sua imagem, jogara-se ao infortúnio de aceitar-se como o tal. 

Os momentos com Sophie chocavam-se com a realidade passada do rei. Muito se dizia de suas escolhas, pois, era impassível, cético, analítico. Não se entregava a sentimentos irracionais. Mas sua amada o fazia sentir a irracionalidade do amor, e viver sonhos futuros.Ao contrário de Elise, Sophie fazia Jeremy não se limitar ao racional. Ele vivia do hoje, do amanhã, do eterno.

E estava bem.

Fitou novamente o asfalto negro à sua frente, e cantarolou junto ao rádio:"Cyrus Jones, 1810 a 1913. Ele fez seus bisnetos acreditarem que se poderia viver até 103 anos. Cento e três é pra sempre quando você é somente uma criança. Então, Cyrus Jones viveu pra sempre." 
Cyrus Jones - pensou Jeremy - Um homem eterno. 
Cyrus Jones, um homem, que na utopia de seus bisnetos, morrera mesmo no ápice de sua eternidade. Talvez morrera após seus filhos, seus netos, seus bisnetos.

Um homem eterno. Tão eterno quanto a felicidade que emanava de Jeremy naqueles dias.

 [...]

O carro se movia a toda velocidade. Naquele momento, a chuva dera uma pequena trégua. Jeremy continuava absorto na canção, e pensava em Sophie. O tempo havia os unido, e naquele momento, era evidente que não seriam separados. 
Os olhos castanhos se faziam distantes. Olhavam para um futuro incerto, mas prazeroso. Desejava viver 103 anos. Queria ser Cyrus Jones, queria poder viver eternamente os sonhos que lhe foram roubados. E ao lado de Sophie, iria fazer eterno aquele sentimento, aquele sorriso destemido. 
Não mais temia a vida. Não mais temia a morte. Era um homem livre de seus próprios pesadelos.

Naquele momento então, igualmente repentina, a trégua dos céus dissipou-se, e rajadas de vento romperam o silêncio daquele universo. A chuva se intensificou, chocando-se violentamente contra o carro em movimento. 

Ao fundo o rádio, melodia soava triste,, pesarosa, contrastando com os pensamentos de Jeremy:
"Pequeno Mikey Carson, 67 a 75. Ele andou na sua bicicleta como um diabo até o dia em que morreu. Quando crescer ele quer ser Mister Vertigo no trapézio voador.Oh, 1940 a 1992".

Mykey Carson. Um menino endiabrado, em sua bicicleta, sonhava ser Mister Vertigo, nos trapézios voadores.

Um menino sonhador - pensou Jeremy - Mykey Carson, Mister Vertigo.

[...]

Lá fora, nuvens negras envolviam a atmosfera. Nas planíveis que envolviam o asfalto negro, a chuva insistia em perfurar a terra, e a lama escorria pela ingrime saliencia do terreno. Passaros fugiam, e voavam procurando abrigo, enquanto raios cortavam os céus, e seu estrondo se fazia ouvir à milhas e milhas.

Ao sul, num casebre de madeira, uma mãe abraçava seu filho. O envolvia em seus braços, o protegia dos trovões. Ao norte, um homem dormia despreocupado com o diluvio que tomava conta daquela região.

Um homem beijou sua esposa, um adolescente se concentrou na leitura, um ancião sucumbiu á velhice. Morreu só, em seu quarto de asilo, pensando nos filhos, pensando naqueles que há muito o abandonaram. Não os culpou. Apenas abençoou seus filhos, os perdoou, os amou até o último vestígio de vida fugir-lhe à visão.

[...]

Numa estrada distante, envolta na tempestade, abraçava a escuridão, um homem embriagado guiou seu carro, a toda velocidade. Não haveria consequencias, fazia disso uma arte, pensava. Era o melhor em tudo. Guiou até os olhos se fecharem, até perder a consciência, e atravessar a pista vizinha.

Na direção oposta, um homem, de olhos castanhos, apesar do cansaço, mantinha-se firme ao volante, envolto em sua paixão irracional por sua amada, realizado com os caminhos de sua vida.

Absorto nos pensamentos, sentiu a visão se perder na luz que se fez aparecer diante de seus olhos. Não haveria tempo, pensou. No entanto, por instinto,jogou o carro à direita...

... e então um relâmpago cruzou os céus, e seu estrondo se misturou ao som da colisão.
Tão distante, uma mulher de olhos verdes, no alto de seu apartamento, fumava, olhando para o céu negro, para os casebres, para os prédios, para as avenidas. Um mau presságio a assolou, e a dor aguda a fez chorar silenciosa. Traduzia em suas lágrimas silenciosas, partes de um destino desconhecido.

Fechou os olhous, suspirou e pensou novamente em Jeremy. Havia algo errado.

Os carros se chocaram, frontal, ainda que por reflexo, Jeremy desviara o suficiente para ainda acertar a esquerda do outro carro. Impulsionado, o carro subiu aos céus. Deslocou-se a esquerda, e capotou, uma, duas, quatro, não se sabe. O mundo girou cruelmente, enquanto o carro dançava numa aspiral bizarra.

Os vidros se estilhaçaram e cobriram o asfalto com seus minusculos cristais. O carro de Jeremy rolou pelo acostamento, arrastou-se por alguns metros, e na sargeta, deu sua ultma cambalhota mortal, até deslizar pela pequena encosta da rodovia.

As rodas voltadas para cima, de um objeto metálico, retorcido. Lá dentro, o radio ecoou sua pequena melodia triste:

"Coveiro, quando cavar minha cova, você poderia deixá-la rasa. Para que eu possa sentir a chuva?"

A chuva agora caía serena, e os céus novamente adotavam o tom branco, ao horizonte as nuvens começavam a dissipar-se.

Jeremy, o rei, ensanguentado, ferido. Por vários minutos liutou, até livrar-se do cinto de segurança, se arrastou para fora, com as mãos fracas, agarrando-se no gramado enlameado.

Sentia-se cansado. Ambas as pernas quebradas, um pedaço de metal retorcido atravessado no peito, e a cabeça envolta no sangue, envolta na dor, e o rosto desconfigurado. Um corte cruzava do topo de sua cabeça, até perto dos olhos.

Respirava ofegante, sentia sono.

Com seus últimos vestígios de força, rolou o corpo e voltou-se para cima, olhou para os céus. A chuva fina lavava seu corpo ensanguentado, mesclado na lama.

Piscou, e novamente sentiu o sono o abraçar. Relutou, e por fim, como um relâmpago que corta os céus, e se desfaz na escuridão... veio a dor.

Não se sabe quantos minutos, horas, ou dias Jeremy esteve jogado ao chão. Seu corpo agonizava na dor. Respirava com dificuldades, e seus olhos fechavam-se, mas orgulhoso, mantinha-os abertos.

O silencio tomou conta da natureza. Jeremy nada mais ouvia. Nem sua respiração, nem a chuva, ou o vento. Não havia nada, exceto silêncio.

Tornou a fechar os olhos, e viu uma mão se estender diante de seus olhos. Com dificuldades, levantou a sua própria, e então fitou aquela bela mulher, de olhos esverdeados, e ela sorriu para ele, que retribuiu um sorriso mais contido.

- Te amo mais que tudo - disse ele, com a voz fraca, quase um sussurro - Me desculpe...

E então, ela desapareceu.

O rei olhou novamente aos céus, e chorando, entregou-se ao seu destino. Sem forças, e assolado por uma dor indescritível, apenas entregou-se à escuridão.

Nada mais se ouvia lá fora, nada mais se via, sentiu as últimas batidas fracas de seu coração, e por instantes pôde ouvi-las.

- Ninguém pode ser Cyrus Jones - pensou. - Ninguém pode ser eterno.

Fechou os olhos lentamente e os abriu novamente. Tudo acontecia rápido demais. Primeiro, um grupo o cercava, e suas vozes não se faziam ouvir. Os olhos tornaram-se a fechar.

Sentiu o corpo ser impulsionado. Tornou a abrir os olhos; teto branco. Fechou-os. E por fim, sentiu uma dor terrível tomar conta de seu ser, um desfibrilador lhe fazia contorcer, e pessoas parecia gritar, e conversar com ele, mas nada se ouvia, exceto o som fraco de seu coração, ouviu a melodia triste por alguns segundos, e então veio a escuridão.

Era esse o seu fim? - pensou.

Não sabia dizer. Apenas sucumbiu a escuridão e a dor sumiu.

[...]

domingo, 29 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Seis - Redenção

Eram olhos esverdeados que se perdiam à mercê de uma cidade quase gigantesca. Cercada pelos arranha-céus e casebres, seu olhar se perdia ao horizonte. Do alto de seu apartamento, recostada à sacada, fumava despretensiosa, respirando lentamente, exalando lentamente a cortina de fumaça.

De pele clara, e olhos incrivelmente belos, sentia a brisa noturna penetrar pelos seus cabelos de um tom castanho claro, mesclado em mechas douradas, estes, que serpenteavam até pouco além dos ombros, escondendo a pequena tatuagem marcada à pele.

Permaneceu ali, submersa à penumbra do aposento, olhando as grandes avenidas, e o movimento quase mórbido de carros que iam e vinham, pelo asfalto negro de uma rotina comum.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha, enquanto um breve sorriso de uma felicidade sóbria, rompia de sua face delicada. Suspirou e gentilmente, entregou-se para os braços que a envolviam calorosamente.

Rodou nos calcanhares e fitou aqueles olhos castanhos, tão intensamente vivos, e incrivelmente apaixonados. Eram olhos de teor sóbrio, que dentre os mais ínfimos pensamentos, naquele instante, transcendia os presságios de uma vida árdua, e após anos, se faziam belos.

Beijaram-se, soberanos à cidade que se erguia à frente. Ela, aconchegada pelos braços do amor de sua vida, ele, absorto nos olhos verdes de seu grande amor, porém, acima disso, distante de seu reino, de sua vida caótica.


Por muitos anos Jeremy fora privado de tal sentimento. Era a paz e a sobriedade. Era o prazer pela vida

[...]

Um sol rubro penetrou timidamente o vitral do quarto. Iluminado pelos vestígios da nova alvorada, Jeremy abriu os olhos, e sorridente, suspirou aliviado. Ao seu lado jazia uma rainha soberana, Sophie, velada por sonhos bons, ainda abraçada ao corpo de seu homem.

A expressão calma de Jeremy tingida em cores de um tom jovem, o rosto envelhecido pelas preocupações cotidianas. Era visível a transformação na expressão do rei. Pelos dias que se seguiram, tais mudanças se faziam ainda mais visíveis. Estar distante de seu reino, era como selar a união da paz em sua vida.

Queria que fosse para sempre. Queria estar ali, vivendo ao lado de sua amada, a vida que nunca tivera. Uma vida simples, longe das barreiras intransponíveis de seus problemas. Desejava ao peso da alma, que aqueles dias se fizessem eternos. Pois assim, seria apenas ele, Jeremy, o homem comum.

Naqueles dias, seu temores, e os princípios de crises, eram apenas meros lembranças vagas, que ainda residiam em sua mente. No entanto, a realidade se mostrava contrária ao abismo de seu reino cotidiano.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Era movido por julgamentos. Nos últimos sete anos, fora apenas instrumento de uma revelação da mente perturbada.

Sóbrio, impassível, racional.

Nos últimos, no entanto,  vivia numa espécie de repetibilidade mórbida. Movia-se quase imperceptível, agindo de acordo com o ritual sagrado das escolhas. A cada ação, múltiplas reações. Para cada reação, uma escolha. Assim o era, assim o fazia.

Uma escolha dependia exclusivamente de seu julgamento antecipado. E dentre o leque de opções disponíveis, sentenciava-se a escolher o que lhe mandava a razão. Em raras ocasiões julgara pelo coração.

No entanto, o momento atual o propiciava a harmonia de alma, mente e coração. Chances reais de se viver intensamente o simples. 

Estava decidido.

[...]

Nos mais severos anos procurara sua metade, o complemente ideal de sua própria alma. Em meio à inocência de uma paixão arrebatadora, encontrara em certo momento, Christie. Dócil, tímida, exigente e passional. O tempo sábio mostrou-se adverso. Os pilares que mostraram-se sólidos, ruíram à medida que as diferenças contrastavam com a realidade apresentada. A cada dia, o que parecia ser um sentimento bom, apenas destoou de todos os outros, e Jeremy viu-se perdendo sua própria identidade. Não mais era Jeremy. Era apenas um homem vivenciando os sonhos de um outro alguém. Preso, acuado,  a iminente queda revelou-se crucial.

Diante de tais circunstâncias, perdeu-se nas linhas temporais do agora, do ontem, do amanhã. Assim viveu intensamente sob o medo que o dominava e o caráter do erro que jamais aceitara. Christie jamais fora sua amiga, e não se dignava a ser seu grande amor. Pois a vida os separava por pensamentos e ações tão distintas, que Jeremy agora entendia a razão de que o futuro, era apenas fruto de uma utopia criada para preencher um vazio deixado pelo tempo.

Uma lacuna a ser preenchida.

Passado o tempo, encontrara numa tal Elise, parte de dilemas indecifráveis. Movido pelo desejo do "desconhecido", viveu por meses, o que chamara de "aprendizado".

Elise lhe mostrara, não intencionalmente, que a vida deveria ser vivida entre o abismo do caos e o céu da redenção. Novamente, Jeremy entregou-se ao desejo irracional. Era o amor pelo impossível. Era o desvendar dos mistérios ocultos em seu próprio ser. 

Dignamente, eram movidos pelo anseio, e entregavam-se às dúvidas, que cruelmente, fiéis aos pensamentos recíprocos, alternavam a distância e o calor dos abraços.

Elise mostrara-se uma mulher liberdade, e Jeremy, acintosamente, tentava derrubar tais paradigmas, mas esbarrava-se sempre no mesmo dilema. O dilema crucial que o fizera escolher à amizade de Elise ao acaso de asas azuis presas por teias egoístas e passionais. 

Fora sua maior lição. Elise nunca fora sua por completo, nem ele à pertencia. Partilhavam de um sentimento que nem mesmo o tempo pôde explicar. Reinavam absolutos, mas a amizade sempre fora predominante, ainda que o desejo recíproco confundisse ambos. Completavam-se nos seus próprios erros, mas eram caminhos opostos. 

Escolhas passadas. O tempo falaria por si. Nos enigmas apresentados, a redenção.

Naquela noite que encontrara Sophie pela primeira vez, em anos, Jeremy tinha a convicção de que o presente se interligava ao passado. Ali, naquele lapso de tempo, de idas e vindas, deveria encontrar uma razão para seguir. No mais remoto e profundo espaço de seu coração, deveria encontrar os vestígios de sentimentos adormecidos. Um complemente para sua alma, na amizade, no amor. 

E assim o fez.

Completavam-se por realeza. Eram sentimentos puros, guardados por anos. Da amizade à paixão. Nos olhos esmeralda que o fitavam com ternura, Jeremy parecia ter encontrado a verdadeira natureza de ser aceito e amado pelo o que era, pelo o que fora. Do primeiro olhar, ainda adolescente, ao primeiro beijo, Sophie guardara para si, a velha foto que Jeremy lhe dera ainda nos primórdios, e por tantos anos, acariciou o presente, como se pudesse tocar a face do jovem rei. 

Estranho, pois, estavam ligados por uma eternidade de anos que moldaram Jeremy. Do menino brincalhão, engraçado, ao homem comedido, impassível e inquieto. Os anos foram apenas um obstáculo para que seus caminhos se cruzassem. Moveram-se por infinitas terras, tão distantes na presença um do outro, e sempre, nas encruzilhadas da vida encontravam-se, e separavam-se instantaneamente.

Dessa vez poderiam viver o que o tempo havia lhes roubado.  E viveriam.

Entrelaçavam as mãos nas noites frias, e o castanho olhar inquieto, com o cintilante olhar esmeralda se beijavam na parcial escuridão. Abraçados, aqueciam-se, deixando os corpos expostos ao calor daquele tempo roubado. Nem mesmo as discussões sem fundamento pareciam querer separar aquelas almas. Destinados à viver intensamente, viveram. 

Se existisse uma explicação racional para o amor, Jeremy finalmente a havia encontrado. 

[...]

O  vento ressoava. Um silvo na noite fria de inverno. O negrume dos céus coroavam o incandescente mercúrio-neon da cidade. Os prédios perdiam aos olhos, a cidade em seu habitual movimento. O ir e vir dos carros, o ir e vir das pessoas. Uma noite comum. 

Jeremy fitou profundamente Sophie. Aqueles olhos esmeralda nunca foram tão belos quanto aquele momento. Iluminados pelo fantasmagórico brilho das velas espalhadas pelo aposento. O dócil amora do incenso, misturado com o perfume de Sophie, fazia Jeremy transcender os limites do próprio universo. 

O Rei sorria.Um sorriso fulminante para si próprio. Ajoelhou-se, e o brilho de seu olhar mesclou-se ao das chamas tímidas, ao próprio brilho de seu interior. Tomou a mão de Sophie para si, e a ofereceu, embrulhado por seu próprio coração, o símbolo de seus sentimentos.

- Aceite-o - disse calmamente, inaudível, porém, forme na voz, e na paz que se instaura em sua mente - Seja minha mulher! 

Sophie sorriu. Seus olhos esverdeados brilhavam mais intensos, e as primeiras lágrimas serpentearam sem pudores por seu rosto delicado, belo.

Apenas um símbolo, simples, sem ornamentos. Mas ali, naquele anel, Jeremy depositara todo o seu sentimento por Sophie. Depositara toda a esperança, toda a paz, e tudo o que o movera até aquele instante. Entregava para ela, não apenas votos para o futuro, não apenas uma aliança, mas seu próprio coração.

- Não poderia desejar o contrário, querido - disse Sophie por fim, com a voz embargada.

Destinos selados. Após o breve ritual, beijaram-se calorosamente, e abraçados permaneceram até que o tempo se perdesse na junção da última peça de uma quebra-cabeças iniciado há tantos anos. 

Seriam parte um do outro, na saúde; na doença; na paz; na guerra, no amor; na amizade.

[...]

Lá fora, um novo dia transcendia ao horizonte. Na sacada, olhos castanhos varriam a vastidão das avenidas, de um brilho intenso há muito oculto. Era o olhar de um homem que há muito buscava a paz.

Naquele momento, nada mais importava, pois diante de suas escolhas, os problemas resumiam-se a meros detalhes informais, que aos poucos, se tornariam apenas vagas lembranças a serem apagadas pelo tempo.

Sentia-se realizado. Sentia-se feliz.

Nada mais importava. Era o suficiente.

[...]

domingo, 15 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Cinco - Aqueles Olhos Esmeralda

[...]

Sob um nublado céu de agosto, ainda no auge do negrume da madrugada, e a ameaça iminente de uma tempestade, aqueles olhos castanhos olhavam confusos o horizonte. De cenho franzido, pelo mau humor que se instaurara naquela mente, o jovem Rei, inspirando e respirando com tamanha intensidade, que por instantes, sentia o peito arfar, dolorido, doentio, mesclados na irritação, na saudade, no cansaço que aquela discussão árdua provocara.

Momentos antes, desencadeara uma série de perguntas e respostas ao telefone, e gesticulando fervorosamente, a discussão assumira um tom ameaçador. E ele, Jeremy, parecia se abraçar ao orgulho, à mania de governar à sua maneira.

No outro lado da linha, Sophie, incrédula pelas perguntas perturbadoras, tentava arduamente fazer valer o próprio orgulho, e com repostas secas, tentava virar o jogo, elevando o tom da discussão, quebrando o silêncio sereno que em algum momento, ali existira.

Lá fora, o vento uivava como uma fera faminta, e se jogava em fúria contra as árvores. Dentro do quarto, a milhas de distancia de sua amada, Jeremy andava pelos quatro cantos do aposente, e de cigarro em punho, gesticulava ainda feroz, até se jogar exausto em sua poltrona, de olhar atônito, inspirando profundamente, e tentando reorganizar as ideias, conforme Sophie contestava os argumentos do Rei.

Por fim, ambos exaustos pelas investidas de seus próprios egos, encerraram a ligação. E novamente se instaurou o silêncio no quarto, exceto pela natureza em constante caos que se formara lá fora.

Ainda sentado à poltrona, Jeremy olhou para teto, buscou no desconhecidos, um abrigo, um sinal de que a paz o abraçaria. Mas nada encontrou, exceto mais uma frustração crescente. Pôs-se em pé, e a passos largos, determinados, abriu a porta do aposento, e enfrentando a ira da madrugada, recostou-se à porta, apagou as luzes, e ainda de cenho franzido, de mau humor instaurado, de olhos marejados, beirando o caos de sua própria mente, sentindo metálico, o gosto de seu próprio ego.

Um ego ferido. Um ego que não se deixava iludir. Era o orgulho, a saudade, a irritação.

Olhou novamente para o horizonte, e não tão distante, o relâmpago  cortou os céus, revelando não somente a ira da natureza em constante modificação, mas também um rei pensativo, de olhos castanhos vagos, apegado ao passado, abraçando os primórdios de sua relação com Sophie.

[...]

Era um época conturbada. Já não bastasse a adolescência um tanto conturbada, Jeremy se via cercado ainda pelas consequências da morte de sua mãe. À época, o então Príncipe Jeremy, em seus habituais vestimentas negras, do qual, não se sabe ao certo se era pelo luto, ou pela rebeldia crescente que o dominava.

Ser diferente era o modo de expressar para com o mundo. Era um jovem de cabelos compridos, trajado por suas roupas surradas, negras. Ainda criança já tivera o prazer e a sorte de interessar pelo Rock n' roll, mas a adolescência se mostrava à imagem de sua preferência musical. Era na música que se fazia valer seus mais ínfimos sentimentos. Da inconsequência, da rebeldia, do amor, do ódio, da arte de se viver intensamente. Assim o era, à época, ele, Príncipe Jeremy, o Inconsequente.

[...]

Dedilhava severamente ao contrabaixo, seu instrumento preferido, e em acordes gritantes, urrava raivoso, sua música, com sua voz grave e cheia de melancolia. "Come as you are" - cantava descontrolado, seduzido pela melodia estridente, pela raiva que emanava.

Naquela pequena garagem fétida de cigarros e vinho barato, reuniam-se seus companheiros. Fora quando, no fim da tarde, jogado à poltrona, ele, Príncipe Jeremy, de cigarro em punhos, e olhar severo, elevou seus olhos castanhos para o brilho esmeralda daqueles olhos tão infinitamente apaixonantes.

Sentiu o coração acelerar, e não soubera, mas de pupilas dilatadas, encarou severamente aquela menina. Encarou-a com seu próprio coração, e o que se seguiu, mudaria para sempre a sua própria história.

Uma bela menina, de olhos verde esmeralda, de sorriso encantador, encarava-o, fitando aqueles olhos castanhos cheios de raiva, mas não mais o era, eram olhos castanhos que brilhavam, embriagados na beleza, e era de um olhar curioso, cheio de energia. Ela sorriu tímida, encarando-o com admiração, e ele por sua vez, de canto de boca, sorriu prazeroso.

Pela primeira vez, Jeremy sentiu o peito pulsar descontrolado, e seus olhos não conseguiam fixar-se em mais nada. Era apenas a bela figura feminina que ali estava.
Era o sabor dócil e perigoso da paixão que o dominava. Paixão à primeira vista. Uma menina que chamada Sophie.

Uma menina que deveria ser sua, e tempo assim o faria.
[...]

Lá fora, o vento cessara. E agora, os céus se derramavam na tempestade que se abatera pela cidade interiorana. Raios rasgavam o véu da noite, e ecoavam por todos os cantos trovões enfurecidos. Era a ira de uma natureza em modificação.

Jeremy novamente se via calado. A ira inicial deixara de existir, e aquela face mais severa, agora era apenas um reflexo de pensamentos que viajavam pelas esquinas do tempo. Seus olhos castanhos, distintos da rebeldia adolescente, cintilavam à imagem de sua responsabilidade. Eram olhos experientes, carregados de marcas, vívidos.

Respirou fundo, e de olhos fechados, deslizou a mão pelos cabelos já pigmentados em branco pelo tempo. Tornou a olhar o horizonte e frustrado, fechou a porta de seu aposento. Mergulhou na cama, e fitando o teto, pôs-se a viajar pelas dimensões de suas memórias.

[...]
Haviam se passado pouco mais de dois anos desde o primeiro encontro. A tentativa frustrada de uma relação, ainda no início, agora se fazia esquecida. Jeremy, ascendera ao trono, e agora intitulado "Rei", encarava novamente aqueles belos olhos esverdeados.

Havia algum tempo que não se encontravam, e naquela noite, obra do destino, obra do acaso, não se sabe, se encaravam.
O coração do jovem rei novamente titubeava acelerado, e seus passos que ecoavam silenciosos, eram os mesmos que um dia lhe fariam correr tantas e tantas vezes para os braços de sua amada. Sophie sorria.

O tempo havia lhe acentuado às curvas, e sua beleza juvenil, agora se espelhava nos primeiros vestígios de mulher.
Face à face, encararam-se. Conversaram por horas. Relembraram o primeiro beijo nunca dado, relembraram a primeira discussão e a separação precoce.

Jamais tiveram a oportunidade de viver naquele mundo, o que escondiam em seus pensamentos.
Ambos se apaixonaram à primeira vista, porém, por pensamentos distintos, jamais fizeram de tais sentimentos, o que a realidade lhes proporcionaria naquela noite. Caminharam velados pelo luar, e frente àquela velha escola, que muitas vezes se encontraram, beijaram-se pela primeira vez. Era o gosto sutil de uma paixão adormecida. Era o sabor indecifrável de um beijo há muito esperado, e os lábios delicados de Sophie se faziam viciantes naquela noite, e assim se fariam por todos os anos seguintes.

Encontraram-se nas noites seguintes, e Jeremy se via fascinado pela beleza de Sophie, enquanto esta, se fazia apaixonar ainda mais pelo jovem Rei. Porém, o destino, mero instrumento brincalhão, separaram os amantes que se fizeram apaixonar naquele fim de tarde, naquela garagem velha, naquele lugar onde olhos esmeralda fitaram os olhos castanhos.
Sophie partiu, para um lugar distante, iniciando a vida acadêmica, o qual, o próprio Rei, consumido pela ascensão recente, pelos estudos, nada pudera fazer, a não ser aceitar o destino.

Aquela menina ainda seria sua, não por alguns dias, mas pela eternidade. O tempo se encarregaria de assim o fazer.

[...]

Jeremy fitou o teto por alguns minutos, e tomado pelo cansaço, respirou pesadamente. Pegou o porta-retratos da mesinha de cabeceira, e olhou fixamente para aqueles belos olhos esverdeados. Era de um brilho diferente de tantos outros que encontrara em sua vida. Era um brilho intenso, sonhador, apaixonado.

Suspirou. Depositou o objeto novamente em seu devido lugar, e tomado pelo saudosismo, mergulhou novamente em sua própria mente.

[...]

Anos haviam se passado desde o último encontro. Havia pouco tempo, Jeremy, o Rei degustara meses e meses de crises intermináveis. Sua sanidade se fazia precária, e durante tantas semanas que se seguiram desde seu rompimento com Christie, e sua primeira crise, sua mente margeava a loucura, quando na verdade, buscava novamente encontrar a sobriedade.

Naqueles dias, o Rei se via perdido nos imbróglios de sua vida cotidiana. Semanas atrás, sua então parceira e amiga, Elise, decidira deixar a cidade. E naquelas circunstâncias, Jeremy se via absorto na perda iminente de sua cura.

Elise havia se tornado mais que uma amiga, era seu porto-seguro, era sua salvação. Mas sua decisão final se tornara a própria decisão de Jeremy.

A vida deveria seguir.

Naquela noite, Jeremy caminhou pela velha praça. Sozinho, observava o grande número de indivíduos desconhecidos. Uma grande multidão se fazia barulhenta. Aproveitavam a final de semana que havia chegado, e longe da rotina cotidiana, conversavam a todo vapor, riam e faziam algazarra.

- Malditos bêbados - pensou o rei.

O cansaço, os problemas e os pensamentos ágeis sufocavam o Rei. Sentia-se exausto pela constante turbulência de sua vida. O relacionamento frustrado com Elise, as crises, as intermináveis papeladas burocráticas, o faziam um homem solitário, frustrado, submerso no mau humor, no desgosto pela vida.

O tempo havia mudado o jovem Jeremy. De menino sonhador, tornara-se um rebelde, e agora, jazia um homem feito, porém, refém de sua própria amargura. Parecia destinado à romper-se em crises intermináveis. Passara os últimos anos envolvido em quedas e ascensões. E não eram poucas as cicatrizes.

Apenas sentia falta dos tempos pacíficos. Sentia falta dos tempos onde eram os problemas apenas vagões de um trem que não tardaria em partir.

A noite se fazia aconchegante. O outono, pouco se fizera frio, exceto por alguns dias onde as noites gélidas se abateram pela cidade interiorana. A brisa fresca da noite, mesclada nas luzes mercúrio e no luar pálido, davam à cidade, um aspecto tranquilo. Mas a mente do jovem Rei assim não se fazia. Tomado pela súbita irritação, decidira retornar para seu lar. Lançou um último olhar para a multidão, e tomado pela surpresa, se conteve, incrédulo.

Os anos haviam lhe acentuado ainda mais a beleza. Deslizava com elegância, à passos firmes, e sorria, como se a vida lhe fosse um sonho bom. Fitava Jeremy com aquele belo olhar esverdeado, sonhador, tão cheios de ternura e paixão.

Durante todos aqueles anos, Jeremy sempre soubera que aqueles olhos lhe observavam de uma forma diferente, nunca presenciada pelo jovem rei, e naquele momento, se via embriagado no sentimento há muito adormecido. Era ela, tão e somente, Sophie, a antiga paixão de rei Jeremy, a menina de olhos esverdeados, a mulher que o tempo se encarregara de trazer para o jovem Rei.

O silencio reinou absoluto. Não se fizeram palavras dispersas, não se fizeram questionamentos, apenas um abraço apertado, absoluto, cheio de vigor, emanando sonhos, desejos. Os olhos se encontraram gentis, e cintilantes à luz de um luar pálido, fecharam-se lentamente, dando lugar aos lábios que se encontraram apaixonados.

- Fique comigo - disse ele, com voz rouca, embargada na emoção, sentindo os olhos lacrimejarem

- Nunca te abandonei - responde Sophie, serena, em tom apaixonado, abraçando-o calorosamente.

Um abraço que se fizera eterno. Seria este o abraço mais reconfortante de suas vidas.

[...]

A chuva cessara havia poucos minutos. Jeremy novamente se via deitado à cama, pensativo. Da irritação, fizera a melancolia, e agora, jazia um rei absorto na saudade. Sophie, distante estava, e a discussão que a pouco se estabelecera, apenas mostrava o quanto Jeremy sentia a falta de sua amada.

De celular em punho, Jeremy ouviu aquela voz dócil, porém, triste.

- Apenas me desculpe, meu anjo - dizia o rei, em tom arrependido - Entenda - continuou o rei, tomado pelo sentimento crescente - existem momentos, onde iremos nos fazer tão próximos, tão distantes...

Fez-se um breve silêncio, como se ele procurasse palavras.

- Estar contigo, não é apenas estar ao lado de uma mulher qualquer. É estar diante de minha melhor amiga, minha companheira, a mulher de meus sonhos - fez se outra pausa, e então Jeremy concluiu - É estar ao lado do meu grande amor.

Milhas dali, Sophie chorou silenciosa, e se fez aparecer um sorriso em sua face. Apenas uma discussão, pensou.

- Sinto sua falta, meu bem - disse ela, quebrando silencio que ecoava por milhas e milhas.

- Sinto o mesmo - concluiu Jeremy.

Lá fora, a lua transcendia as nuvens negras. E as primeiras estrelas emergiam sob um céu carregado. Um novo universo se revelava sobre a cidade. Mais algumas horas, e um novo dia romperia ao horizonte.

O silencio novamente se estabelecera no telefone. Com olhos marejados, e coração apertado, Jeremy sentiu uma enorme onda de tristeza e alegria se abater sobre o seu ser. Era a tristeza de estar tão distante daquela jovem mulher, e a alegria de poder dizer o que há muito gostaria.

- Sophie, meu amor... - hesitou por segundos, mas na verdade, não mais queria hesitar, queria gritar ao mundo, queria sentir esse sentimento pela eternidade.

E então concluiu.

- Eu te amo!

Em um reino distante, uma mulher de olhos verdes, sorriu, como nunca sorrira antes. Sentiu-se reconfortada por palavras tão distantes, sentiu um abraço apertado a envolver, invisível, a milhas dali, tão incrivelmente cheio de amor, tão incrivelmente protetor.

- Também, amo você, Jeremy!

Era apenas o início de uma história que se fizera adormecida por tantos anos. Era apenas o desejo de seres que há muito se faziam amar, e serem amados.

[...]

sábado, 7 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Quatro - Deus Abençoe o Rei

[...]
Diziam as histórias, distorcidas ou nem tanto. Eram um casal ainda no berço do enlace, à espera do primeiro filho. Ela, uma bela dama de olhar cintilante, olhos da cor do mel, cabelos encaracolados, baixa estatúra. Ele, um rapaz com pouco mais de vinte e cinco anos, de olhar severo, sombrancelhas espessas, cabelo escuro e barba grossa. Governavam e se deixavam governar.

A vida árdua, e os dias difíceis os envolvia à mercê daquele universo pequeno.
Naquela manhã, uma manhã fria talvez, não se sabe. Ela urrava envolvida nas primeiras contrações, ele, agitado, andava de um lado para o outro, preocupado com o futuro de sua esposa, preocupado com a chegada de seu herdeiro. Horas e horas intermináveis, se passavam, se faziam infinitas. Um dia inteiro, um dia diferente, o sexto dia do mês, o oitavo mês daquele ano.

Um parto que deveria se fazer simples, aos poucos se complicava. A mãe, envolvida em dores, sentia o peso de carregar a dom da vida dentro de si, e sua própria jazia em risco. O pai, recostado ao carro, fumava seu cigarro, com mãos trêmulas, olhando o relógio, o horizonte, queria estar lá, ao lado de sua amada, porém, impedido pelos médicos, agitava-se ao som da cidade grande.
Um mundo inteiro o esperava, um universo para se governar.

Naquela noite, pouco minutos antes das vinte horas, um choro agudo quebrara o silêncio. Uma voz forte, para uma criança tão frágil. Obscuros os fatos, eram gêmeos, mas apenas um deles com vida.
Jazia ali, nas mãos do médico, frágil, longe de seu reino, longe dos anos o qual estaria diante do próprio trono, ele, à época, Príncipe Jeremy.

Apenas uma criança, no berço de sua jornada. No berço de sua ascenção.


[...]

Jeremy, o Rei, olhava para o asfalto que se projetava à frente. Ao volante de seu carro, guiava, absorto pela música alta, e com seus óculos escuros, protegia-se do sol cintilante que ascendia ao horizonte. E nos labirintos que se formavam às ruas, se via forçado à encarar outro dia de sua rotina burocrática. Mas por lapsos, via-se submerso nas lembranças de sua própria existência...

"... era aquele o seu pequeno universo. Lugar o qual crescera, e distinto de tantos outros seres que ali residiam, governava à sua maneira. Nunca fora uma criança comum. Ainda aos oito anos de idade, Príncipe Jeremy se jogava à calçada de sua antiga casa, olhava as estrelas no céu, e fascinado pela vida daquele universo intocável, questionava a existência de vidas além daquele pequeno mundo o qual vivia.

Sua inteligencia, e sua curiosidade o faziam ser um menino sonhador, ousado. E diferente das crianças de sua idade, misturava-se com crianças mais velhas. Sua opinião, por mais árdua que se apresentava, era como um tapa na cara das crianças mais velhas, o que para Jeremy, o Príncipe, era motivo, por vezes, de voltar para casa com o nariz sangrando.

De gênio forte, opinião formada, não abaixava a cabeça em discussões, porém, para uma criança da sua idade, eram temas que lhe fugiam à realidade.

Dentro de seu lar, alternava entre bons e péssimos momentos. Havia um pai ausente, e uma mãe dócil. Seu pai, um alcoolatra, porém, atencioso, quando assim queria, vivera uma vida inteira dedicada ao trabalho, o que fizera dele um homem ausente.

Era um homem silencioso. Com traços fortes, porém, em seus lapsos de figura paterna, era dócil, carinhoso. Um homem cujo objetivo de vida fora dar as melhores condições de vida para a família, mesmo que isso significasse morrer trabalhando.

A mãe, por outro lado, figura dócil, afetiva. Alternava entre a vida doméstica e os cuidados para com os filhos. Era exemplo como mãe e esposa. Vivera sua vida para satisfazer a felicidade de seus filhos, do marido. Disposta, alegre, por vezes, esbravejava com Jeremy e sua irmã, Kathy.

Era uma família comum, dentre bons e péssimos momentos, viviam unidos, viviam suas próprias utopias."

[...]

Era aquele o seu dia. Completava-se mais um ciclo em sua jornada. Do nascimento aos dias atuais, passaram-se pouco menos de vinte e cinco anos. E agora, Rei Jeremy, o Perverso, entre o estado caótico de sua mente e a as realizações pessoas, a vida girava em torno de recuperar nos pilares do tempo, a paz, a sobriedade, a cura para suas cicatrizes. Mais um aniversário, e eles, pai, mãe, e tantos outro entes queridos ali não estariam presentes.

De seus vinte e poucos anos, agora restavam lacunas em todos os cantos. Aquela cidade, aquele reino, vazio se tornara. Desde a morte da mãe, em todos aniversários, chorava sozinho, sentindo o peso em seus ombros. Com a morte do pai, a dor se intensificara, e naquele dia não seria diferente.

Sentou-se à cama, calado, e sozinho, e chorou. Era o vazio que há muito se estabelecera na vida cotidiana. Sentia falta de todos os momentos, bons, péssimos. Mas sentia a falta daquele colo de mãe, e daquele abraço paterno.

Aquela criança ousada, sonhadora, com sua incrível mania de defender sua própria ideologia ainda residia naquela mente sufocada. Mas o tempo roubara sua inocência. Era um homem feito, com fios brancos de cabelo espalhados pelo topo da cabeça, e que nos ultimos tempos, se faziam presentes à barba também.

Sua expressão se tornara mais dura, impassível. Mas ainda existia ali, um coração puro.

[...]

Aquela oitava noite de agosto se fazia congelante. E dentre risos, dentre conversas altas, Jeremy se via cercado pelos famíliares, pelos amigos, por sua amada.

Todos reunidos, sentados em vários pontos da casa. Brindavam mais um ciclo do jovem Rei. E ele, sorridente, agradecia aos céus por mais um ano. Agradecia por estar novamente ao lado de tantas pessoas queridas. Por vezes, olhava para alguns assentos vazios. E se consumia em tristeza. Eram as lacunas herdadas de sua própria existencia. Mas, recuperando as energias, se via sorridente novamente.

Aquela cidade, aquele reino, aquele pequeno universo nunca fora tão vazio, mas de todos que ali se ausentavam, Jeremy sentia-se honrado por estar ao lado daqueles que ali permaneceram.

Ali estavam aqueles cujas histórias se reuniam à de Jeremy, e naquela noite fria, celebraram. Gargalhavam com as lembranças, e se aqueciam conforme a temperatura da noite caía bruscamente.

Existiam lacunas deixadas, e essas não se fariam preenchidas. Mas sempre existiriam amigos ao lado do jovem rei. E para Jeremy, isso era necessário.

[...]

As festividades haviam terminado fazia pouco mais de uma hora. Jeremy, olhava o ambiente vazio. Ao seu lado, restava recostada ao seu ombro, sua amada, Sophie. O Rei ainda mantinha o sorriso. Beijo-a com ternura. Sentia-se feliz por não estar só naquela noite. Sentia-se feliz, por não estar sozinho naquele universo o qual governava à sua maneira.

Deitaram-se, e abraçados, dormiram pacificamente. Sonhara com seus pais, com seus amigos, com sua amada. Se a vida lhe mostrava lacunas, em seus sonhos, em seus pensamentos, a vida se completava.

Acordou na manha seguinte, beijou Sophie, e sorriu.

- O que tiver que ser, será - falou baixinho para si.

Olhou pela janela do quarto, e um novo dia se fazia belo lá fora. Era o início de um novo ciclo. Era o início de mais um ano em sua jornada.

Ao lado de seus amigos, seus familiares, sua amada, Rei Jeremy iria caminhar, mesmo que caísse pelo caminho, mesmo que se fizessem lacunas, iria continuar, até que ele próprio se tornasse uma lacuna naquele universo

Mas no fundo, desejava viver por mais cem anos. Pois dentre bons e péssimos momentos, sentia-se feliz por ter conquistado um mundo para si.

[...]

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo - Trinta e Três - Novos dias de tempos passados


Pilares sólidos, que se fazem caídos nas ruínas do tempo. Ele fixa o olhar no horizonte. Suspira e seus olhos se tornam cristais cintilantes, de um brilho escarlate. De sobrancelhas arqueadas e testa franzida, ele novamente suspira. Sente o ar preencher os pulmões, sente as mãos estremecerem e, em sua concha solitária, com seus braços erguidos em V, ele olha fixo aos céus. As lágrimas que se formam, não cascateiam pela sua face rígida.

Ele cobra de si mesmo uma razão para continuar. E ele sente a própria ira corromper seus pensamentos. Os braços pesam toneladas, e a mente viaja através de pensamentos, memórias, desejos e ilusões.

- O que quer de mim? - Ele grita, aos céus, de voz trovejante, sentindo a ira crescente, sentindo o peso da própria alma.


Sua voz soa como um desabafo, e ele se vê solitário naquele mundo cinzento.

- Quer que eu me ajoelhe? - novamente ecoa sua voz em fúria

Ele sorri com malícia. Seu olhar agora não mais se faz inocente. São olhos demoníacos mostrando ao mundo que ali habita um ser racional, marcado por cicatrizes sangrentas.

Ele se joga ao chão. Ele se curva diante dos céus, e suas sobrancelhas arqueadas, seu olhar malicioso, desafiam divinas profecias.

- Até quando, meu caro? - ele urra, sentindo à boca o gosto de sangue.

O silêncio pairava. No horizonte, não mais se fazia presente a figura daquela bela figura de asas azuis. Apenas o vazio.

Elise não mais fazia parte daquele universo.

Jazia ali, um homem, curvado diante do próprio destino. Diferente do rei de outrora, ele se faz soberbo, e soberano, governa à sua maneira.

Assim o é, ele, Rei Jeremy, o Perverso.

[...]

Dias vem, dias vão. Noites em claro, e o cansaço que o consome. Mesclado na incerteza e nas crises que insistem em despertar do sono profundo, Rei Jeremy novamente se vê diante dos tremores e temores. Uma noite qualquer, ele se joga à cama. Deitado, saboreia os prazeres indescritíveis do último cigarro da noite.

Olhando fixo o teto do aposento, fecha os olhos e desvencilhando dos pensamentos, se joga ao sono iminente, mas este parece relutar. Inexplicavelmente, sente o coração romper abraçado à ansiedade. E lapsos de uma crise de pânico se revelam. Ele se irrita com o acontecimento, e diferente das crises anteriores, apenas preenche a mente com seus pensamentos positivos, e em poucos minutos novamente se vê um homem jogado à cama, com sua irritação habitual, com seu interminável questionário.

- Até quando? - resmunga, em tom de desaprovação.

Derrotado pelo cansaço, ele dorme impaciente. O ritual se consagraria nos dias intermináveis futuros. Noite pós noite, ele estaria jogado à mercê de sua irritação, de seu cansaço costumeiro, de seu desejo que um novo dia quebre a maldição que a noite lhe proporciona.

Assim o é, Jeremy, o Impaciente.

[...]

Outro pôr-do-sol finda o dia. Jeremy se joga exausto à cama. Semana pós semana ele se vê acuado pela rotina surreal. Seu olhar cintilante de outrora não mais se faz presente, dando lugar à um olhar cético, em tom de desaprovação.

Ele não sorri. Ele não chora. Corrompido pelos pensamentos, Jeremy se mostra um homem frio, impassível, triste. Ele sente falta dos velhos tempos, e se vê saudoso pelos crepúsculos que nos meses de outono foram como um refúgio para seus pensamentos.

Seu corpo castigado pelas semanas que sucederam a partida de Elise se mostrava exausto, porém, seus pensamentos voavam, e dentre pensamentos e memórias, ele se via acuado. Tomado pelo cansaço, ele adormecera, mas em questão de poucos minutos, sua mente o despertara.

Apenas um corpo exausto, apenas uma mente que insiste em equalizar experiências fortes.

Assim o é, Ele, Jeremy, O rei exausto.

[...]

Diante do espelho, Jeremy fita sua própria imagem. Um homem envelhecido nas semanas que se passaram. Suas olheiras tatuam a imagem de um rei derrotado, ele suspira descrente. Induzido pelo orgulho, não admite estar em iminente queda. Não aceita estar se entregando à insanidade. Ele reluta, e quando o ódio parece consumir suas energias, desfere um golpe certeiro ao espelho. Estilhaços se projetam ao ar e se chocam com aquela figura decadente.

O sangue rompe de seu punho, e por incrível que pareça, seu rosto se faz ileso. Ciente da realidade que o cerca, ele sente a visão escurecer, e os joelhos se curvam, pesados.

Jeremy se vê caído. Sem forças para se reerguer, sem sua soberania suprema para o proteger.

Pela primeira vez em dias, ele chora, aos soluços, ao desespero. E, tomado pelo irracional, sua mente se projeta nos anos que antecederam tal situação.

As quedas, as feridas, Christie, Elise, crises... pânico.


Apenas um homem caído ele o é.

[...]

Os meses vão se lentamente, e Jeremy se vê solitário, sentado na velha praça, onde outrora costumava jogar conversas foram com seus velhos companheiros. Consumido pelo desespero, pela tristeza, ele apenas fita a velha avenida que corta a pequena cidade interiorana.

Desviando o olhar, ele projeta o olhar ao solo, e ali permanece. Silencioso, temeroso, descrente.

- Dê-me uma razão para seguir - divaga, com voz rouca - Dê-me um motivo para encontrar minha própria felicidade!

E quando o silêncio parecia ensurdecedor demais, uma mão postou-se ao seu ombro. Uma delicada mão feminina, há muito conhecido pelo jovem rei.

Ele fita a figura feminina, e sorri tristemente.

Olá, querido - diz ela, com voz suave, com um tom apaixonante.

Jeremy se levanta, e sem perceber, joga-se aos braços da bela jovem.

- Diga-me que tudo ficará bem- diz ele, com lágrimas nos olhos.

- Cuidarei de ti - respondeu ela, com sinceridade no olhar, com ternura emanando de sua essência.

Ele novamente sorri, dessa vez, tomado por uma forte sensação de paz. Beijou-a apaixonadamente, e pela primeira vez em semanas, sentiu que ainda existia naquele universo cinzento, uma razão para prosseguir.

Estavam juntos havia algum tempo, mas somente naquele momento percebera que aqueles belos olhos esverdeados lhe traziam a paz que tanto buscava.

De mãos dadas, partiram. Ela recostada ao ombro de Jeremy, e ele, ciente de que fizera a escolha certa. Mesmo que suas crises o fizessem duvidar de suas próprias escolhas, o rei estaria ao lado de uma mulher que o amava pelo o que ele era, e ele, pelo o que ela representava em sua vida.

Uma paixão antiga, uma amizade suprema, uma relação que se estabelecera havia anos.

Assim o era, ele, Rei Jeremy.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Dois - Au revoir, Elise

[...]

O fim da história anunciou-se ao pôr-do-sol. 

Jeremy olhou profundamente o vazio que se formara a sua frente. Ensaiou uma cara de dor, franziu a testa e se conteve. Respirou fundo e olhou novamente para o vazio.

O vazio da alma. Estabelecido naquela casa vazia, nos cantos empoeirados, na velha cidade. 

Jamais  fora tarefa simples. Da revelação à aceitação, Jeremy relutou até que sua razão prevaleceu. Aquela angustia crescente era apenas momentânea. No fundo, ria e desesperava-se, ainda brigava com o próprio coração. Ansiava por aquelas reviravoltas onde o dia não passasse de um pesadelo, e que no abrir de seus olhos, tudo voltaria ao normal. 

Os dias passaram-se como se um segundo equivalesse a uma década. Consolidava-se o momento de fitar aqueles belos olhos noturnos. Estranho, pois a distância que os envolvera naqueles dias fazia-se pequena comparada à distância que os envolvia no presente. 

Era dado o momento. Jamais tocaram no assunto desde então. A despedida era o ato final para aquela história. Raramente foram vistos juntos naqueles dias. Mas ali, no aposento vazio, juntos estavam. Olhares cintilantes, silenciosos, sentindo o calor dissipar.

Governariam aquele universo pela última vez.

[...]

O tempo moldara Jeremy. De medroso, tornara-se um lunático que entre a tristeza e a loucura, se tornara um perigo para si. No início, apenas estranhos um para o outro. Jeremy em seu cotidiano burocrático fixava o olhar na jovem mulher de olhos noturnos, cabelos dourados. Tão bela, tão diferente. De fala soberba, delicada. 

À época, o declínio de seu relacionamento com Christie era irreversível. Dia pós dia, o futuro deixava-se morrer sufocado pela perda da identidade do jovem rei. As intermináveis discussões, a obsessão de Christie, à ruína de uma mente promissora. Deveria ele encontrar uma nova razão para manter-se vivo. 

Assim o fez.

 Na sua agonia por tempos melhores, se via cercado pelos demônios de sua mente, a paz só se fazia presente na imagem sólida de Elise à sua mente. Era Elise que o pacificava. Encontrara na figura de Elise, não somente uma menina intrigante, mas uma amiga, uma conselheira, uma companheira que o seduzia com seus desejos de liberdade.  

Jeremy, o Perverso jazia na eterna busca pela felicidade que tardava em se tornar real. Com o passar do tempo, Christie saía da vida de Jeremy, pela porta dos fundos, guardando para si o rancor, o ódio. O rei começava a busca por sua identidade perdida, e por diversas vezes, via-se à encarar Elise.

[...]

Numa tarde de segunda-feira, olhara fixamente para os olhos de sua cura, sua doença. Era ela, Elise, Asas azuis.

- Arrisque-se, Jeremy! dizia ela.

Jeremy sorria. Havia algo muito forte que os unia. Era um sentimento que se misturava na amizade, na paixão irracional que agora abraçava o rei.

O silêncio feria Jeremy, o fazia sangrar.

Numa noite de quarta-feira, tentara traduzir em palavras o que sentia, sua voz soou rouca, trêmula, assim como suas mãos que tremiam recostadas às pernas. Respirou fundo, desviou o olhar ao horizonte rubro, e deixou o silêncio ecoar.

A noite chegara e com ela, o desejo de Jeremy o corrompia. Passadas largas pelo quarto, cigarro em punhos, olhava estupefato para as paredes, precisava expurgar de si aquele sentimento, precisava encontrar um modo de traduzir em palavras, o que sentia por Elise.

Sentou-se ao computador, abriu o editor de textos. E naquele momento encontrara no seu dom principal, uma maneira de expressar-se:

 "Ela, e tão somente ela, de essência rara; e por rara, diz-se comum nas Flores dos jardins dos Deuses. Vêm diante à minha presença, ora mórbida, ora relutante; dosando paz e risos que ela, e tão somente ela poderia proporcionar-me. Diante de tal figura, sinto-me reconfortado. E mesmo que Deus, o Onipresente Role os Dados, e Einstein, o Sábio não se importe com as chances, aclamarei por ela, meu profundo desejo de Navegar pelos Mares do Sol. Elizabeth, flor-de-lís; 'Elise', flor-de-lís dos Jardins de meu Éden. Tão somente minha, e inegavelmente de si própria. De plena juventude eterna; Eis que lhe ofereço palavras, e por palavras, digo presságios de destino incerto; Caminhos no qual, trilharemos sob a luz dourada e céu vasto; Diante de ti,Oh, 'Elise', ofereço minha essência ferida, mas de alma purificada".

Essência ferida, mas de alma purificada. Assim o era, ele Jeremy, o Excêntrico. Governara a sua maneira. Era apenas o eco de um coração que pulsava vibrante aclamando um ode à Deusa que revelara-se na figura de Elise.

[...]

"Governariam aquele universo pela última vez".

A real história de Jeremy e Elise começara numa segunda-feira, e quisera o destino findá-la  de igual forma. Sentados à poltrona, Elise mostrava-se inquieta, receosa pela concretização de suas escolhas. A voz agonizava em palavras desencontradas, e medo brilhava expressivamente nos olhos âmbar.

- Afastei-me de ti para não sofrer.  disse ela, por fim. 

Jeremy acenou em concordância.

- Eu sei - respondeu pacientemente, com o olhar fixo nas próprias mãos - descobri dias atrás, mas evitei mudar as coisas. Sacrifícios são necessários. Sua felicidade é a minha própria. Não poderia  tirá-la de ti por egoísmo. Era mais simples que meu silêncio falasse por si.  

As mãos do Rei tremiam, e o nó em sua garganta começava a sufoca-lo. Queria gritar; chorar; romper a razão imposta e alimentar novamente esperanças incertas para tê-la em seus braços.

Apenas queria dizer: Não vá. Há um mundo inteiro de possibilidades. Viva ao meu lado os seus próprios sonhos. 

O desespero internamente falava por si, mas de sua boca, nenhuma palavra fora proferida. Havia decidido que o futuro não mais lhe pertencia.

Palavras sufocadas no berço da fala. Respirou fundo, e sentiu a dor de mil agulhas perfurarem seu coração. Abraçou-a. Um abraço terno, sincero, arrebatador. Sentiu o perfume lhe nocautear. Ela, ao seu turno, recostou-se reconfortada nos ombros do Rei. 

Novamente, o silenciou falou pelos dois.

Os últimos minutos de uma história bela.

Os olhares se cruzaram confusos, marejados, místicos.

[...]

Aqueles olhos castanhos, ora vívidos, ora amedrontados, estaria diante de infinitos pores-do-sol, o qual a cada dia proporcionaria ao jovem rei sabores e dissabores distintos. Os meses se arrastariam sublimes, e à medida que o tempo se fazia longo, Jeremy criaria uma fantasia de si próprio, vivendo ao lado de sua amada, Elise, um futuro incerto.

Sonhos não concretizados.

Diferente de todas paixões irracionais, Elise tinha uma essência incomum. Era mulher livre, era menina delicada, era uma exposição de ideias e idolatrias o qual dominavam Jeremy, e ele se veria frustrado por noites e noites. Pelo silêncio que o envolvia, pelo medo irracional de perder Elise. Romperia em crises intermináveis, olhando pela janela, saboreando cigarros e mais cigarros, fitando mentalmente aqueles olhos noturnos, aquela liberdade o qual ele jamais tivera.

Jeremy nunca fora homem livre. Sua ascensão precoce ainda nos anos anteriores lhe fariam ser um homem forte, que governaria à sua maneira. O mundo se fazia um mero espelho de sua própria ignorância. Estaria ele, por vezes à mercê da própria força. Frio, impassível, racional. Assim fora, ele, rei Jeremy. Um reflexo de suas próprias cicatrizes. Apenas a imagem de um mundo corrompido pelas dores e pela injustiça.

Forte para o mundo, fraco para si. 

Ao lado de Elise, entretanto, se fazia forte para si próprio. Buscava nas próprias dores, uma razão para a própria existência. O sentimento por Elise corrompia a escuridão que o envolvia. Aos poucos, dissipava-se a névoa densa e cintilava ao horizonte, um sol rubro, vívido, acima de um campo verde esmeralda, onde bailavam borboletas azuis, onde o belo era possível.

[...]

Para trás ficara a casa vazia. Naquele momento Jeremy sentiu o peito comprimir numa dor aguda. O que parecia ser apenas um pequeno lapso de insanidade, agora se fazia real. Elise realmente partiria. Para não mais voltar, para longe daquele cantinho, daqueles pores-do-sol, daquela casa, daquela cidade.

Rainha Elizabeth enfim iria viver sua própria liberdade, seus próprios sonhos.

Olhos castanhos e olhos noturnos se fitavam pela última vez. E os braços que envolvera Jeremy por tantas vezes, agora o agarravam forte. O Rei retribuíra o gesto, e envolvendo Elise em seus braços, apertou-os, para nunca tornar a abri-los.

- Sentirei tanto a sua falta - dizia ela, com voz suave, saudosa.

Jeremy sorriu triste. Os olhos marejaram. Formou-se um nó na garganta.

- Também sentirei a sua falta, meu anjo - dizia ele, sem saber exatamente o que dizer - Você não sabe o quanto!

Um sorriso gentil se fez aparecer naquele belo rosto de menina. Um sorriso para jamais se esquecer. Um sorriso que por tantas vezes encantara rei Jeremy.

- Nunca deixe de escrever - disse ela.

Ele assentiu.

Elise se aproximou e os olhos se encontraram, beijou-o docilmente à face, e ele novamente se viu fazendo cara de dor.

- Arrisque-se, Jeremy - ecoava a voz de Elise em sua mente. 

Jeremy, tomado pelo impulso, pelo desejo, abraçou-a ainda mais forte. Convicto, beijo-a calorosamente. Os lábios tocaram-se pela última vez. Agridoce. Tão incrivelmente dócil, e maldosamente amargo. Elise chorou silenciosa. 

Separaram-se, e seus olhos se encontraram pela última vez. O mundo deixara de girar, e a noite mostrou-se ainda mais escura. Caminhando lentamente, jamais olhou para trás, jamais volto para os braços de Jeremy. Para seu universo paralelo, Elise partiu.   

Era o fim.

[...]

As mãos já não mais se faziam trêmulas naquele instante. O brilho de seu olhar confuso se misturava ao luar tímido que rompia severo ao horizonte. Apenas se ouvia o som de seu coração. Era de uma melodia triste. Era um pulsar lento, como se partido em mil pedaços, relutava em sobreviver à realidade que se fazia presente.

No momento em que Elise partira, Jeremy se viu cambaleante, sufocando pensamentos que se misturavam às sensações distintas. A mente sucumbiu à loucura, ao tempo em que a sobriedade o envolvia. As palavras ecoavam gritantes em sua mente, e sua boca não se movia. Os pés caminhavam bêbados, enquanto o corpo se fazia petrificado.

Não dissera uma única palavra. Não fizera nada para mudar o destino. Temia misturar paixão e razão, e por aceitação, preferiu acreditar que nada que pudesse fazer, iria corromper o presente que se apresentava.

Caminhou silencioso. Em sua mente, pensamentos e lembranças vagavam, tão cheias de vida, tão cheias daquele amor que sentia por Elise. Ecoavam palavras o qual não pudera mencionar...


"... Governamos à nossa maneira. Do açúcar ao sal, fizemos os sabores que nem mesmo os beijos puderam decifrar. Era um gosto diferente, de paladar sutil, de aroma forte, que nos embriagava, que nos fazia bailar, ao som que ecoava nas noites frias.
Assim reinamos. Como pessoas tão distintas, no irracional, onde propusemos a viver intensamente algo que nem mesmo as palavras mais belas poderiam descrever. Eram palavras que se perdiam no medo, mas se encontravam na arte de viver. Era dócil, era supremo.
Fomos soberanos. Na dor, no paixão. Sentimento, este, que me fazia acordar sufocado, pensando numa bela mulher de asas azuis, voando livre pelas ruas, sorrindo, e encarando a vida com toda essa essência de eterna jovem.

Não somente admirei essa mulher. Mas a desejei com todas as forças reunidas em meu coração. A vida me fizera abraçar mentiras que me machucaram, e as cicatrizes não foram poucas. Mas Elise me fizera abraçar a realidade, e aceitá-la como tal, fosse amarga ou dócil.

São esses encontros e desencontros que me movem. Uma vida inteira em poucos meses. Palavras não traduzidas. Apenas o silêncio. Deixei de abrir fielmente meu coração, pois desnecessário seria. De alguma forma ela saberia. Palavras poderiam me trair, as nunca um olhar. Um olhar não mente.

Devidamente mencionado, o último olhar dissera o que as palavras não conseguiriam, e naquele ultimo segundo, quando os olhares se cruzaram pela última vez, o olhar castanho de Jeremy apenas dizia: 

- Você é parte de mim, e sempre será.

Era o necessário.

[...]

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Um - Yin & Yang

Arranha-céus que se erguem sob a tediosa paisagem de pedra. Sentado às escadas, um homem, cujo queixo se apoia às mãos, observa a sintonia da natureza mórbida.

Reino sólido, governado à sua maneira. Sob princípios, valores, muralhas e sorrisos. Vozes que ecoam nos becos, e cores que ilustram um cenário diversificado.

Sorri distraidamente, mas rapidamente, vê-se novamente em seu mundo real. Aquele mundo que está sentenciado à governar.


[...]

Os meses seguiram inalterados. Jeremy relutava em preservar o silêncio que se estabelecera. Por vezes, temia quebrá-lo, e punia-se mentalmente por tal conduta. Não queria colocar tudo à perder. Conquistara muito até aquele momento. Um palavra mal colocada, e as edificações de seu universo poderiam ruir.

Assim o era e sempre o fora. Com seus dilemas imponderáveis, que na construção da narrativa de sua própria história, mostrava-se que o bem e o mal eram apenas linhas tênues que dividiam a mesma esfera. Yin & Yang.

Jeremy moldara-se no receio, e repetidamente, o receio estaria estampado na sua jornada. Como um vício de linguagem, as palavras não se alternavam, nem os sentimentos. Inicialmente, apenas um homem só, receoso quanto a própria existência. Viera Christie, e seu mundo já fadado à tragédia, tornou-se puro caos na essência. 

Correto afirmar, Christie fora o apenas último golpe, o nocaute. Jeremy apanhara muito na vida. Ascensão e queda. Um trono para governar; o peso de um mundo sobre suas costas.

Conquistara a força, e traído por ela, caíra em desgraça.

[...]

Doente, insano, perverso. Assim o era, Rei Jeremy. Dono de si, e senhor de ninguém. Um desequilíbrio na ordem do universo. Diante do espelho enfrentava seu próprio inimigo. Sua própria doença.  Dissipavam-se as noites de sono, erguiam-se as madrugadas de terror.

A maldição recaída sobre seus ombros começara a se transformar com a introdução de Elise em sua vida. Era estranho como uma mulher podia equilibrar e desequilibrar a fiel da balança, e por motivos certos ou errados, Jeremy gravitou pela força arrebatadora de Elise. Como se puxado pela correnteza, Jeremy afogando-se nos desejos e no brilho daqueles olhos noturnos.  

Era ela, e tão somente ela, o motivo para que o jovem rei prolongasse seus dilemas. Razão e coração em conflito. 
 
"Arrisque-se, Jeremy!" - Dizia ela em diversos momentos - "Arrisque-se!".

Jeremy assim o faria. Arriscar-se-ia, sem temores, sem discernir o sensato, o perigoso, o correto.

[...]

O silêncio o afastara. Jeremy se arriscara quando deveria pregar a cautela. As feridas expostas de sua vida sangravam demasiado recentes, e para o rei, apenas Elise o motivava a seguir adiante. Ela o fazia ver o mundo sob um olhar diferente. Como um homem que busca na fé o entendimento da vida, o rei buscava em Elise, algo que trouxesse razão para sua própria existência.

Os diálogos ao pôr-do-sol das inúmeras tardes sempre o remetiam para a  próxima batalha, mas diversas vezes hesitara por não estar preparado. Nada podia fazer quando seu próprio coração o encorajava a arriscar, mas sua razão o envolvia no escudo invisível do ponderável. 

Tardiamente, descobriu-se movido por uma força maior. Um tal irracionalidade e impulso. Eram os desejos que falavam por si. Assim o fez. Arriscou-se. Enfrentou o próprio desejo de conquistá-la, e viu-se por diversas vezes ao chão. Era um bravo guerreiro. Egocêntrico; do não desistir sob hipótese alguma. Levantava a cada queda, e via-se novamente brandindo uma espada invisível, contra um inimigo que tinha sua própria face.

Recuava ante a amizade adquirida. Tão iguais, tão distintos. Mas a desejava.

Aventurava-se no contexto das palavras, e sempre fora claro quanto aos seus sentimentos para com Elise. Não sabia o que esperar. Porém, sempre encontrava o silêncio diante de si.

O medo o faziam se afastar. Mesmo quando os sentimentos pareciam corromper os limites do receio, ambos temiam perder um ao outro. No entanto, Jeremy arriscava-se. Se jogava de peito aberto ao sentimento, e enfrentaria o que  diabos se apresentasse à sua frente para tê-la em seus braços. 

Desejos e temores recíprocos.  

[...]

Aos poucos, desenhava-se o último ato daquela bela história. Jeremy deixou o silêncio preencher o vazio que aos poucos começava a tomar conta de seu íntimo pela escolha de Elise. O tempo falaria por ambos. A paixão avassaladora fora lentamente substituída pelo carinho, pelo respeito, pela amizade. 

Nas memórias do contador de realidades, seriam eternamente Rei Jeremy e Rainha Elise.

O sentimento por Elise estaria preservado no fundo de seu coração. Mas no fundo tinha a certeza, de que poderiam ter se arriscado mais, desejado mais, e o mundo estariam aos seus pés. 

Durante meses, a bela mulher fora seu motivo de risos, seu porto-seguro, sua salvação. Nela encontrara sua sanidade, nela perdera-se no receio. 

Não iria perdê-la, de igual forma, ela não o perderia. Seriam parte um do outro na incógnita de um conto. Estariam lado à lado, amigos; amantes. Destino revelado. Inimigos ao chão. As linhas do tempo seguiriam os caminhos opostos.

Aos poucos, deixava-se guiar pela razão. Aceitara de bom grado a escolha imposta. Afinal, eram desejos há muito conhecidos por Jeremy. Cedo ou tarde, Elise o deixaria, e sua vida novamente seria a liberdade que tanto abraçava. 

A felicidade de Elise era a sua própria. 

O rei não mais amava a figura feminina de Elise. Mas amava a figura de companheira, e principalmente, a figura de amiga.


[...]

Novamente um futuro incerto se projetava à sua frente. Olhos dilatados na escuridão. Deixou para trás os pensamentos, e velado pelo mercúrio das luminárias, guiou seu carro pela noite. 

Sorriu satisfeito. 

O coração pulsava vívido, e o frio na barriga crescia e o preenchia.

Não haviam mais dilemas. Pela primeira vez em anos, acreditava ter feito a escolha certa.

Era dado o momento de viver novamente sob o aspecto do incerto, e dessa vez, Jeremy seguiria os conselhos de Elise. O medo não falaria por si, sequer o silêncio. 


Arrisque-se, Jeremy! - dissera certa vez Elise.


Arriscar-se-ia, ele, rei Jeremy.

[...]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta - A Escolha de Elise

Os dilemas dos dias atuais, como sempre fora para ele, Rei Jeremy, contrastavam com acontecimentos passados. Uma manhã de sol, sempre seria precedida por uma noite sombria. Assim eram os pensamentos de Jeremy. Seus atos, seus pensamentos, eram baseados nas escolhas de outrora.


Uma história jamais deveria prosseguir, sem antes, fazer verdadeiras as frases não mencionadas.

[...]


O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise...


... "Ela caminha, dançante, orbitando o próprio corpo. De braços abertos, convidativos, abraçando o infinito. Sorri, incrivelmente feliz. O olhar se perde naquele cenário, e seus olhos brilham, como jamais brilhara outrora.

Esse é o seu paraíso. Esse é o seu universo.

Despencam do teto, como cascatas, cortinas vermelhas. Ao topo, balaústres púrpuras-azuis-dourados. Ecoam canções, e estas, falam do amor, dos bons tempos. Bailam perante seus olhos, poemas e atores. Um mundo mágico, um mundo do belo. Do triste, do vulgar, do mundano.

Ela sente um arrepio percorrer-lhe o corpo. Sorri, em êxtase.

É o palco de sua vida. Naquele o qual iria fazer sua própria história.

Essa é a escolha de uma rainha sonhadora. Uma tal Elise, uma tal Asas azuis".

[...]

Uma tarde qualquer se faz quente lá fora. Dentro de uma sala burocrática, Jeremy olha a pilha de papéis em sua mesa, faz careta. Elise, por sua vez, sentada à poucos metros, quebra o silêncio.

- Estou voltando para minha terra - diz ela, impassível.

Ela a fita. Não sorri. Parece não perturbar-se com as palavras proferidas.

- Está mesmo decidida? - Questiona ele, quebrando o silêncio que se estabelecera.

- Sim! Esse é o meu sonho.

- Se é o seu sonho, fico feliz por ti! - sorriu.

Chegara o momento o qual Jeremy temera por meses. O dia em que a realidade o colocaria cada vez mais distante de Elise.

O rei novamente olhou novamente para os papéis em sua mesa, balançou a cabeça em desaprovação.

Sentia-se sinceramente feliz por ela, porém, algo o incomodava.

- Malditos papéis - sussurrou.

Fez careta.

[...]

Os dias que antecediam e precediam a relevação de Elise, eram incógnitas. Rei e rainha já não mais sustentavam o hábito de seus encontros ao pôr-do-sol. Por alguma razão, afastavam-se cada vez mais. As obrigações consumiam a maior parte do rei, e este, desprovido de meios de desvencilhar-se de tais fardos, jogava-se no abismo do stress.

Jeremy lutara cegamente, e grandes foram os esforços para adquirir a sobriedade, porém, o destino parecia o punir. Novamente o medo o abraçava. Era o medo da morte. Era a solidão que o envolvia, e nas longas noites o qual ficara acordado, apenas os livros o faziam fugir desse universo ameaçador.

[...]

Sofria antecipadamente. Tão perto, tão distante. Os dias se passavam lentos, as vozes se encontravam por meros lapsos do acaso. Eram tempos onde todos aqueles momentos que outrora se findavam ao pôr-do-sol, não mais se faziam presentes.

Caminhos opostos no cotidiano. Caminhos opostos para um futuro não distante.

Saboreava aquele gosto amargo, aquela sensação de que em poucos dias, haveria um vazio imenso no banco de seu carro, no sofá, naquele cantinho costumeiro onde
costumavam fumar.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Evitava falar sobre a partida de Elise. Evitava, pois sentia-se perdido. Sentia uma parte de si estar cada vez mais distante.

Antecipou-se à dor, pois ela viria. E com ela, a falta de uma companheira que não se tornara apenas parte de sua vida, mas principalmente, parte de seu coração.

[...]

Ela baila, sorri. Ela se faz silenciosa, se faz soberana. Essa é a sua canção. É o seu ato. Ela se deita nas pétalas vermelhas, abre os braços, sente o piso gélido tocar-lhe os braços nus. Sente novamente o arrepio do desconhecido serpentar sua espinha.

Suspira de prazer.

O platéia aplaude em pé, extasiada. Urros de celebração. Vivas, glórias. Bravo! Bravíssimo! Em coro.

Fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes, cessam a canção.

Esse é o seu universo. O seu paraíso. O seu show.

[...]