quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Quinze - Abstinência

[...]

Sentia a onda de tremores romperem a tranquilidade de sua carne; de sua mente. Respirava fundo; inundava os pulmões com baforadas de ar quente da tarde. Esta de um azul etéreo cintilante, decoradas com nuvens densas enegrecidas ao horizonte e um sol escaltante ao topo; Fechou os olhos; Tornou a abri-los; visão embaçada que lhe fazia doer a mente; franzia a testa; falava mentalmente; gesticulava;

- Acalme-se, Jeremy! Acalme-se!

Sentiu o corpo relaxar por segundos; uma breve calmaria no vasto oceano até uma nova onda se romper revigorada; corpulenta; um monstro que se chocava contra as pedras; músculos rígidos, uma careta de descontentamento;

Um dia comum. Mais um dia longe das doses de paz química; mais um dia de abstinência.

- Tudo irá ficar bem, meu caro! Tudo ficará bem!


[...]

Fitava-a com desabor, ele, Jeremy, o Desgostoso. Exausto; novamente se via rodeado por seu ciclo eterno de questões não feitas e respostas evasivas; A alternância das datas não implicavam na monótona rotina que ambos criaram; as mesmas questões; os mesmos risos; o mesmo silêncio estabelecido por minutos; enquanto bailava a fumaça tóxica de seus cigarros;

A queria e queria agora; Mas o tempo, inimigo talvez; se fazia menino travesso; brincava com a paciência do jovem rei, que de esperar, ficara ainda mais velho. Os dias se anunciavam ao horizonte tão sarcasticamente eternos, e se aprofundavam no negrume da noite tão sorrateiros, que para ele, Jeremy, poderia ser apenas piada de mau gosto.

[...]

Fitava-a de soslaio; sentia os ombros enrijecerem; mãos trêmulas; visão deturpada; Necessitava de mais uma dose; Uma dose de seu antítodo raro; proibido; tão graciosamente envenenador. Mas apenas desejou;

Não fosse o tempo/espaço, este, brincalhão; travesso; do elemento supresa; do revelar o impróprio; do dramaticamente petrificante.

Talvez investiria; talvez ignorasse a negativa certeira. Mas não o fez. Inapropriado o era fazer;
[...]

Assim o era, ele Jeremy, o Perverso. Insistia no erro de desejar; insistia no erro do não fazer; e por não fazer , envelhecera.

De face coberta por uma barba castanho escura; olheiras e sua costumeira testa franzida; Apenas uma caricatura imperfeita de um rei; este entregue á mercê de uma rotina tão impostora, que aos poucos se deixava levar pelo cansaço;

Males pelo bem, talvez!

Se fosse devidamente tomado pelo cansaço, talvez não insistira em suas impossibilidades; não criaria expectativas tão avassaladoras; não sonharia tão abertamente com essa mania tão errônea de julgar estar tão próximo de uma solução, quando na verdade sua matemática se mostrava tão contrária.

[...]

Era apenas a abstinência; Era a falta de suas doses diárias de paz química; Era a falta do sabor; do calor de uma Elise tão impossível, que Jeremy já questionava ser fruto de sua imaginação.

Desde então nada mais fora dito.

Seriam imaginários aqueles Olhos Noturnos? Seriam dias que Jeremy não vivenciara?


Seriam? - Questionou-se! Calou-se! E nada mais foi dito.


Apenas um dia comum! Apenas um ciclo que o levara ao início. E assim havia de ser.

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