terça-feira, 11 de junho de 2013

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Trinta e Oito - Branco, vermelho, preto.

"Não sabia dizer. Apenas sucumbiu a escuridão e a dor sumiu".


[...]




 De início, havia apenas a escuridão. A dor que outrora extirpara seus últimos vestígios de forças, não mais existia. Não havia mais o medo que o dominara, não havia a alegria que outrora o fizera sorrir. 

Nada mais existia. Apenas a escuridão, o silêncio e a paz.  

Era estranho. Deveria sentir algo? Sentir o medo do desconhecido? Gritar à todo pulmão até perder o fôlego?  

Não sabia dizer. Era apenas parte da escuridão, e a mesma parte de si. Sua mente estava vazia, e talvez, isso o inquietasse. Era a paz que o fazia perder a serenidade. 

Jamais a tivera por completo. Certo afirmar que nunca estivera seguro do que era ou fora. Apenas um homem constantemente perseguido por seus fantasmas. 

Louco, perverso para si, para o mundo.

Não mais. Agora, era apenas a escuridão.

[...]

Aqueles olhos esmeralda fitavam a sombria noite que caía sobre a cidade. O silêncio fizera-se presente durante todo o dia, e naquele momento, o desespero começava a abraçar a mente de Sophie. 

Jeremy partira logo pela manhã, e desde então, seu destino era incerto. Jamais fora incomunicável, e naquele momento, tantas horas depois, já deveria estar em casa. Mas porque não atendia as ligações?

Nunca fora do seu feitio causar preocupações desnecessárias em Sophie. Complexo, imperfeito, cumpria seus rituais com devoção, como se suas regras absolutas, se quebradas, criassem o caos na ordem geral do universo. Assim o era.

Mas Sophie sabia. Havia algo de errado. Franziu novamente a testa, observou a noite cair, e para si mesma, disse baixinho:

 - Onde está você?


O som de sua voz morreu na garganta, e dominada por uma dor intensa, sentiu o gosto de sangue, vermelho, metálico, a dor da perda...


[...] 

De início, apenas a escuridão. E como um relâmpago que cruza os céus em noites de tempestades, foi bombardeado por lembranças, e naquele momento, o silêncio que o atormentava se extinguiu. 

Uma torrente de vozes e imagens preencheram a lacuna negra e vazia que era a sua existência na escuridão. 

Fora um Rei Perverso, distante, e quebrado. Vivera à luz de caos, e de seu íntimo desejo de viver, lutou pela vida, e por todos aqueles a quem amou... 

Mas aos poucos, suas lembranças tomaram vida. Imagens dançavam ao seu toque. Sons, luzes e odores romperam a penumbra, e ele sentiu... 


[...]


Olhou mais uma vez pela janela. O pôr-do-sol não surgiu naquele dia. Uma tempestade devastadora abraçava a atmosfera da cidade. Relâmpagos cortavam o céu negro, os trovões ecoavam melancólicos, e água parecia querer varrer a existência de vida daquele deserto de pedras.


Exausta, sentindo calafrios, deitou-se no sofá. Chorou copiosamente. Adormeceu velada por seus maus presságios, e sonhou com Jeremy....

"Uma luz rompeu a trajetória do rei. Ele tentou desviar o olhar, ao tempo que se surpreendia com o acaso. O desespero gritava em seus olhos, e sua face se contorceu. Era o presságio de dor, sangue e morte.

Ele lutou, com todas as forças reunidas... Tentou... tentou se desvencilhar, mas o tempo lhe faltou. 

 A sorte de Jeremy o entregara ao seu próprio destino.

Um baque seco, e uma explosão branca que o cegou... Seu rosto se desfigurou no semblante da dor, e aqueles olhos castanhos se marejaram de lágrimas dolorosas e vazias...

Como que presa ao solo, Sophie nada pode fazer exceto observar. Tentou se desvencilhar do que quer que a prendesse, mas em vão.



Branco. Vermelho. Preto.


Jeremy estava caído.


[...]

Branco; vermelho; preto.

Luzes cintilantes que à sua frente bailavam. Flashes de uma vida há muito vivida. Pequenas peças de um quebra cabeça que se encaixavam; peças de uma vida inteira. Quem fora; quem amara; Apenas luzes que na escuridão julgavam a vida e a morte de um rei.

Apenas revelações de um homem caído. Imagens que piscavam à sua frente, e se consumiam no ar, como nuvens que se dissipam diante de um sol escaldante...

O Branco. Da vida; Da paz; Da ternura. 


Contava a história de um tal Rei Jeremy, o Perverso, pois assim o era, para si e pra outrem. Governara o mundo à sua maneira.

Um menino nos braços da mãe. De sorriso contagiante, olhos sonhadores. Ela, acometida por grave doença, e ele, o menino órfão, desaparecido, transformado no adolescente rebelde, dono de si, arrogante. Tão excêntrico, distante de uma pessoa comum o qual deveria ser,  que nas madrugadas de tempos remotos, se embriagava na própria desolação.

Buscava nos becos, e no silêncio da madrugada a mãe falecida. O colo, o conforto, o carinho materno que deixara para trás.

Imagem corrompida...

Jeremy via sua vida perante os Juízes invisíveis.

Branco; O Pai. O Velho rei. Incrivelmente rude, impassível; De sorriso contagiante e histórias de uma vida severa. Dizia que um dia, todo aquele reino, todos aqueles deveriam se curvar diante de um novo rei. Mas o destino, este, corrompido, deixou-se levar pelo caos, e diante de um jovem e recém anunciado rei, apenas reservou o caos para o rebelde adolescente.

Branco. À Paz daqueles que há muito tempo deixaram de existir, e assim, o adolescente vívido, transformou-se no homem inquieto, solitário, e tão absorto nos medos.

Imagem corrompida.

Vermelho. Do amor, do sangue, do fogo. 


Dor intensa. Jeremy, se exaltou, e compelido pela força maior, caiu.

Flashes lampejavam diante de seus olhos. Olhos de um Rei que não mais o era. Paredes brancas distorcidas, que corriam, em frenesi, adiante, turvando os olhos marejados de dor. Apenas paredes e luzes brancas, apenas um corredor sem fim.



Sentiu-se tateado por mãos de pessoas que não tinham face. Seu corpo apenas agonizava, e caído em sua própria angústia, apenas respirava pesada e lentamente. 

Impulsionado, sentiu o peito arder, e seu coração queimar... 
 

Por milênios, não se sabe. Sentiu calado seu corpo ser impulsionado para cima. Vezes e vezes. 

Preto. Da dor; da morte, da escuridão.

Derrotado, entregou-se à dor, e por fim, sucumbiu, mas não antes de gritar à todo pulmão: -Sophie!!!!!

Deixou-se levar e novamente, viu-se submerso na escuridão.


[...]

Sophie acordou sobressaltada. Suas lágrimas percorriam a gentil face, que agora, envolta na dor, se contorcia.

Lá fora, a tempestade se transformara em sonoras gotículas que se desprendiam das folhas das árvores. O céu negro ainda envolvia a cidade, e as luzes já se faziam anunciar no asfalto encharcado.

Perdida em terríveis pensamentos. Decidiu banhar-se. No quarto pouco iluminado despiu-se, e deixou sua nudez sentir a brisa gélida que abrigava o aposento.

Não era o frio que a fazia tremer. Era o medo; a dor. O temor de que algo tivesse por fim rompido o elo que existia entre a vida real e o desconhecido.

Para ela, pior ainda, era a ideia de que Jeremy precisava dela. Que em algum lugar desconhecido, o jovem Rei estivesse em busca de seus braços.

Deixou-se banhar, e a água quente percorreu seu corpo, enquanto orava por seus Deuses, para que ele, não importa onde, estivesse bem.

Após, deixou-se adormecer e sonhou com Jeremy. 

[...]

Vermelho.

Jeremy se ajoelhava perante uma torrente vermelha.
Era seu próprio sangue. Eram lágrimas escarlates que se esgueiravam, e à sua frente, moviam-se, transformando o borrão, no vermelho do sol poente, no vermelho do sangue real, no vermelho e vibrante som de um coração partido...

"O cigarro queimava, enquanto seus olhos vislumbravam Christie. Fora uma mulher bela, apaixonante. Mas esta, deixou-se levar pela loucura, e no fim, restou apenas as feridas no coração do jovem rei. Feridas profundas, que entregaram o jovem rei à depressão.

Ele transformou o amor em dor, e a dor em improvável companheira.

Ao observar Christie, pensava em como fora um tolo; acreditava no impossível, mas na verdade, amara intensamente a própria impossibilidade".


Assim o era. Amante do improvável; seguidor assíduo da loucura e paixão pela impossibilidade. 

No fim, sofreu sozinho, perdendo a cada dia sua sanidade, perdendo sua vitalidade e identidade. 

Olhou-se no espelho, e apenas encarou os olhos frios do fracasso.. 

Imagem corrompida... 

[...] 

Preto. 

Cambaleou por um tempo indeterminado, e no ápice, exausto, ajoelhou-se. Orou por Deuses que renegara por tantos anos.
Na escuridão, sentiu a presença do Pai, da mãe e tantos outros que deste mundo partiram para lugar algum. As vozes cantavam em uníssono, e ele, parecia saber que bailavam, destemidos, triunfantes diante de sua loucura: 
"Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo. Tende piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, dai-nos a paz". 
Entoavam, diabolicamente a prece da misericórdia. 
Aflito, apenas chorou, e novamente com os braços levantados em V, implorou sua misericórdia, implorou pelo perdão que jamais tivera a chance de pedir.
Cessaram-se as canções. Restaram as lágrimas que inundavam o rosto desfigurado daquele ser. 
 Apenas o silêncio abraçou o homem, e este, deixou-se abraçar pela dor, pela angústia, pelo medo. 

Mas havia dor? 

Não se sabe, nada mais existia... Existia apenas a crescente aflição e o medo.. 

Ah, o medo... 

Algo comum, era o medo da morte.  
[...] 

Tempo ao tempo, dizia sua própria mente, ela, Sophie.

Havia importância o tempo? Não mais. Para cada ato, para cada respiração, sua mente se voltava para Jeremy.

A manhã se tingia pela febril amarelada luz do sol. Aos poucos a cidade acordava de sua dormência, e se alimentava do corriqueiro vai-e-vem de carros e pessoas.

O ciclo de cada manhã.

Sophie envelhecera. Não mais fitava com seus olhos esmeralda de menina, mas o olhar experiente de mulher feita. Debruçou-se novamente na sacada, e ainda preguiçosa e sonolenta, deixou-se abraçar pela brisa da alvorada, enquanto degustava, se é que se podia dizer tais coisas, sua xícara de café.

Ao fundo, o telefone tocou, frenético, ensurdecedor, chamando Sophie de volta à realidade que há muito havia se fixado naquele ambiente.

À passos largos, caminhou, correu, e deixou-se perder o folego, enquanto atendia ao chamado.

-Alô?  - atendeu, ainda segurando a xícara de café.

- Sophie? - dizia a outra voz - Trata-se de Jeremy...

- O que houve? - Sophie prendia a respiração, e um arrepio percorreu sua espinha, enquanto sentiu suas forças se dissiparem, deixando cair a xícara, e esta, desfez-se em estilhaços por todo o chão. 

Ansiava por aquela ligação não se sabe por quanto tempo, mas de alguma forma, em sua mente, ela jamais aconteceria através de outra pessoa. Ansiava ouvir a voz do Rei Jeremy, mas quis o destino que outra pessoa tomasse a iniciativa.

- Estou à caminho - disse Sophie, encerrando a conversa. 

A ligação durou apenas alguns instantes, e já finalizada, Sophie olhava fixamente o chão, enquanto lágrimas percorriam pelo seu rosto.

Jeremy encontrara finalmente o seu caminho.

[...]
Abraçado à morte, reuniu seus últimos lapsos de energia, e gritou, como um trovão que ecoa na tempestade, gritou forte, até perder a fala. 


Sua voz ecoou pela escuridão que o dominava. Pensamentos, lembranças, vozes, cheiros e sentimentos eclodiram em sua mente, e tudo se tornou claro como o dia. 
Seus olhos se turvaram, e uma explosão de cores o cegaram... deixou-se cair de joelhos, e aos seus pés, via o sangue lhe brotar das feridas expostas, enquanto sentia seu coração calmamente deixar-se levar para o último vestígio de vida...Com sua mente rodopiando, no último momento, lembrou-se de toda sua vida, e tudo o que ele, Rei Jeremy representava. 

Um Rei perverso, para si, que um dia governara o mundo à sua maneira... 

Um homem que buscou na dor, forças para se levantar, e diante de tantas quedas, ergueu-se soberano para o mundo. Imperfeito, instável... 

Louco, excêntrico, lunático por natureza, mas bom. Não para si, mas para ela... 

A menina dos olhos esmeralda; a mulher que um dia soubera lhe dar vida onde a morte fora semeada.

Lembrou-se, e deixou-se morrer para a escuridão. 

[...]

 Sophie adentrou o quarto, e perplexa, fitou a figura jogada à cama. Era um homem esquelético, retornando ao ventre da vida, em posição fetal, abraçava-se, enquanto as cicatrizes perdiam-se por todo seu corpo. Os longos cabelos, agora não mais eram que fios quebradiços e esbranquiçados pelo tempo.

Ainda ligado por alguns aparelhos, parecia imóvel, mas seu rosto, aquele rosto marcado pelo infortúnio, lembrado por tantos anos pela testa franzida, ainda pertencia ao Rei Jeremy. 

Jeremy fora submetido a todos procedimentos necessários para que conseguisse vive. Intervenções cirúrgicas, terapias, e todas coisas necessárias para que pudesse viver. Morrera por diversas vezes, e ressuscitado por outras dezenas...

Não mais. Naquela manhã, para o mundo e para Sophie, fora a última. 


 Sophie sentou-se ao seu lado, e após alguns instantes, debruçou-se sobre o peito de Jeremy, e chorou...

Aqueles olhos castanhos insistiam em permanecer fechados. Olhos de um Rei caído. Fechados para um mundo que governara à sua maneira... 


Branco; preto; vermelho.

O branco da paz, o negro da morte e o vermelho do amor.


Quebrado, inválido e adormecido.

Era dado o momento de despedir-se de Rei Jeremy.

Mas deveria ela sentencia-lo à morte? - Não sabia dizer. Apenas fechou seus olhos e deixou-se calar.

Do fundo de seu coração sabia, Jeremy ainda estava ali, em algum lugar daquele homem quebrado, havia a essência do homem que amara.

Apenas esperando ser resgatado de sua escuridão.

[...]

As vozes cessaram. O silêncio novamente reinou absoluto na escuridão. Mas por instantes, não se viu apenas o preto, o branco e o vermelho.

Ainda que distante, Jeremy pode observar um brilho cintilante, um brilho cheio de ternura, de afeto.

Era diferente. Um tom esmeralda, que o envolvia na paz...

Sua visão rasgou o véu da noite eterna, e fitou aqueles os olhos esverdeados

Fora apenas uma lampejo. Apenas uma piscar de olhos. Mas seu coração pulsou firme, e após tanto tempo, sentiu-se abraçado e reconfortado. Sentiu a vida, e o amor que sempre tivera por Sophie. 

Os olhares se cruzaram por segundos. Ele sorriu brevemente... e novamente tornou-se parte da escuridão.


[...] 

Por segundos, Sophie permaneceu paralisada. Fosse o cansaço, o tempo, mas queria acreditar que não fora apenas uma ilusão. Que pudera ver  realmente aqueles olhos castanhos a fitá-la.

Queria acreditar....

Mas deveria?

Três anos haviam se passado...

e Jeremy ainda encontrava-se em estado de coma.


[...]