[...]
Ela se move sorrateira; caminha à passos lentos; espreitando seu alvo. Furtiva como o vento; Seus olhos vêem além da noite, varrem o ambiente e localizam a presa; Esta, frágil, pequeno animal receoso perante sua predadora; Ela avança sem hesitar, com um golpe fulminante derruba a presa; Apenas uma mordida para dete-lo; apenas um movimento sagaz para envolve-lo em seus braços de caçadora noturna;
Predadora ela é. Ela pode rastejar silenciosa pelos becos; ela pode voar pelos céus. Movimentos delicados; imprevisíveis;
De olhos noturnos; de asas azuis; Caçadora da noite; Uma fera liberta; Uma fera sedenta;
Uma mordida, um abraço. Sua presa não reluta; não se desvencilha da armadilha; entregue ao destino, apenas se deixa envolver;
Uma valsa envolvente; uma valsa mortal.
[...]
Ele se move com cautela, de ágeis pensamentos; de lentos movimentos. Previsível se faz, pois necessário é induzir ao erro; hesitante, ele espreita sua presa; circundando à passos lentos; um passo em falso e ela lhe foge ao olhar; Sua caçada continua; Observa o ambiente; vasculha pela floresta de pedras; ao longe vê sua presa; Ele age com sabedoria; adentra o covil inimigo e determinado se faz ágil; Não se faz furtivo, nem ataca. Apenas espreita; apenas revela suas intenções. Pois é hábito seu; Ele quer ver a cor dos olhos; ele quer ver a essência; sentir o perfume;
Um ser racional ele é. Calcula seus próximos movimentos; cauteloso espera; ansioso; de batidas fortes do coração; de respiração ofegante; a pressa é inimiga da perfeição; Mas a pressa se faz necessária;
De olhos castanhos; de ser pensante; Ele se revela; Ele despe a máscara de predador, ele se mostra frágil; de sentimentos; de sentidos;
Guiado pelo instinto avança, não é hábito seu; Prefere pensar; prefere agir à sua maneira; Mas não o faz;
O golpe certeiro parece se pronunciar;
Lento demais, caçador! Lento demais.
Se vê acuado; envenenado; Uma valsa envolvente; uma valsa mortal. Uma mordida; um abraço. Ele está no chão. Caído; na armadilha; Envolto no próprio erro;
Abatido por sua presa; Abatido por sua predadora.[...]
Ela se faz triunfante; Sorri; Uma fera liberta; de b; de próprio instinto. Ele se faz prisioneiro; Odeia seu erro; Caído, ferido, imóvel; Um predador abatido; de próprios pensamentos; de próprias intenções.
Lento demais, caçador! Lento demais!
[...]
Jeremy, o Rei se vê envolvido em assuntos que não lhe são pertinentes; mas o é necessário. É sua obrigação; é seu destino. Se perde nos pensamentos; mais alguns minutos e poderia apreciar o pôr-do-sol costumeiro. Mais alguns minutos e poderia despir a máscara da hesitação para Elise; Não hesitava mais; nada mais importava; Era seu destino; era sua obrigação para com ele mesmo.
Os minutos se tornavam horas, as horas, dias.
Tarde demais, caçador! Tarde demais!
O tempo se esgotara; e continuava envolto no que não o era importante. Mas o era necessário. Era sua obrigação.
Quando se libertou de sua burocrática escrivaninha, a noite já mostrava-se intensa lá fora;
- Maldição! Mais um dia perdido! - vociferou Jeremy, o Mau humorado.
Desejou que as horas se tornassem segundos, que os dias se tornassem minutos;
Deveria esperar; Vociferou:
Ah, esperar! - caminhou lentamente; rumou ao lar.
[...]
Adentrou o recinto. Observou calado o ambiente; Lá fora o frio cortante se fazia intenso. Deixou-se envolver pelo calor acolhedor do ambiente. Lançou o olhar à frente, boquiaberto, sentiu uma adaga perfurar-lhe o peito; Rodopiou à mente; fatigado, respirou fundo; o coração pulsante intenso; golpes do destino; golpes do Diabo.
O olhar do rei recaía sobre uma figura há muito conhecida; Uma figura feminina, longos cabelos dourados que cascateavam até as costas; Ela elevou a face na direção de Jeremy, e sorriu.
Um sorriso venenoso; Um sorriso mortal.
Jeremy não ouvira o que lhe era falado; naquele instante, ele próprio pôs-se falar, porém até mesmo suas palavras lhe eram inaudíveis. Petrificado permaneceu. Caminhou até a figura; entregou-lhe uma pequena chave;
Era ela; Elise. Caçadora noturna; Não estava só. Ao seu lado postava-se um triunfante rapaz até então sem face. Era, ele, Silas, O Intruso-sem-face . Silas fitava Jeremy por breves segundos, o rei, por sua vez, fizera o mesmo.
Olhares que se cruzavam; olhares sedentos; analíticos; cheios de dúvidas; cheios de um algo a mais; E era ele; Silas; o homem do momento; Vencera no covil inimigo;
Jeremy desviou o olhar para Elise, entregou-lhe uma chave; O objeto não representava nada; Era apenas o motivo de mais um dia perdido; Era apenas a chave para sua prisão do dia; a mesma que o fizera vociferar tão intensamente horas antes;
Poderia ter sido a chave para a libertação. Poderia ter sido a chave para revelar os segredos de Jeremy. E era ela, Elise quem deveria ser possuidora de tal artefato.
Mas não o era; apenas uma chave comum;
O Rei olhou os presentes à mesa; Fitou novamente Elise. Olhos nos olhos; Brilhos que agora se tornavam confusos para Jeremy; Uma sensação há muito conhecida;
Demônios revelados; Face aos seus rivais; Derrotado em seu próprio território;
Tarde demais, caçador! Tarde demais!
Perturbado, Jeremy partiu. Deixando ser engolido pelo frio cortante, agora não mais que uma brisa sutil, pois nada mais importava.
Deixou para trás à todos que lhe dirigiam as palavras; Deixou para trás Elise;
Jeremy virou-se, voltou as costas para os olhares que lhe eram desferidos e caminhou soberbo; frio; impassível; Sem expressões; sem risos; sem falas;
Agiu pelo instinto, não era habito seu; Apenas partiu;
Engolido por seu ego, este não mais que um breve lapso de irracionalidade.
Ela não se deixava ser encurralada; Ela era a predadora; uma fera liberta; Uma fera da noite;
Elise nunca pertencera à Jeremy; nunca fora inteiramente sua; E ele apenas agia como um tolo que se prende à ilusão de que o mundo pode ser governado à sua maneira; Em algum lugar do tempo, Elise pertencera a Jeremy, porém não este o caso;
- Malditos sejam! - vociferou Jeremy para a noite - Maldito seja você, Rei Jeremy. Tão hesitante. Vendedor de sonhos! Tolo! Presa de si. Animal sentimental caído no próprio erro!
Praguejava para com si mesmo. Travava uma luta interna, no subconsciente; Contra seus próprios propósitos; contra suas próprias emoções.
- Maldito seja Jeremy, Ó desgraçado. Tão passível de erros, tão repleto de sonhos que esquecera de viver a realidade!
Diante do espelho, Jeremy notou a transformação; no pensar, no agir.
Olhos Noturnos; de Caçador; de Animal acuado lutando pela própria existência; revelava uma ameaça tão contundente que não lhe era comum.
Uma mistura surreal de sonhos e instintos; Era sábio, pensante, ágil.
Cai o Rei receoso, eleva-se o Rei perverso.
Assim o era, Rei Jeremy, inteiramente Perverso; Disposto à conquistar seus sonhos, derrotar seus inimigos;
Um leão orgulhoso; Um predador que surge e ataca no covil inimigo; Apenas uma imagem perfeita do próprio ego; soberbo; surreal; vociferante;
[...]
Ele se move furtivo; espreita sua presa; delicia-se com o aroma; um movimento apenas, ataca; ágil, sem hesitar; à sua frente se revela asas azuis; Sua presa; Certeiro ele morde; e ela se deixa envolver; pois assim deve ser; Ele vocifera triunfante, dentes à mostra; um sorriso honesto; um sorriso da conquista;
Assim deve ser, caçador! Uma mordida mais e a alma será sua![...]
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