terça-feira, 29 de junho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta - A Escolha de Elise

Os dilemas dos dias atuais, como sempre fora para ele, Rei Jeremy, contrastavam com acontecimentos passados. Uma manhã de sol, sempre seria precedida por uma noite sombria. Assim eram os pensamentos de Jeremy. Seus atos, seus pensamentos, eram baseados nas escolhas de outrora.


Uma história jamais deveria prosseguir, sem antes, fazer verdadeiras as frases não mencionadas.

[...]


O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise...


... "Ela caminha, dançante, orbitando o próprio corpo. De braços abertos, convidativos, abraçando o infinito. Sorri, incrivelmente feliz. O olhar se perde naquele cenário, e seus olhos brilham, como jamais brilhara outrora.

Esse é o seu paraíso. Esse é o seu universo.

Despencam do teto, como cascatas, cortinas vermelhas. Ao topo, balaústres púrpuras-azuis-dourados. Ecoam canções, e estas, falam do amor, dos bons tempos. Bailam perante seus olhos, poemas e atores. Um mundo mágico, um mundo do belo. Do triste, do vulgar, do mundano.

Ela sente um arrepio percorrer-lhe o corpo. Sorri, em êxtase.

É o palco de sua vida. Naquele o qual iria fazer sua própria história.

Essa é a escolha de uma rainha sonhadora. Uma tal Elise, uma tal Asas azuis".

[...]

Uma tarde qualquer se faz quente lá fora. Dentro de uma sala burocrática, Jeremy olha a pilha de papéis em sua mesa, faz careta. Elise, por sua vez, sentada à poucos metros, quebra o silêncio.

- Estou voltando para minha terra - diz ela, impassível.

Ela a fita. Não sorri. Parece não perturbar-se com as palavras proferidas.

- Está mesmo decidida? - Questiona ele, quebrando o silêncio que se estabelecera.

- Sim! Esse é o meu sonho.

- Se é o seu sonho, fico feliz por ti! - sorriu.

Chegara o momento o qual Jeremy temera por meses. O dia em que a realidade o colocaria cada vez mais distante de Elise.

O rei novamente olhou novamente para os papéis em sua mesa, balançou a cabeça em desaprovação.

Sentia-se sinceramente feliz por ela, porém, algo o incomodava.

- Malditos papéis - sussurrou.

Fez careta.

[...]

Os dias que antecediam e precediam a relevação de Elise, eram incógnitas. Rei e rainha já não mais sustentavam o hábito de seus encontros ao pôr-do-sol. Por alguma razão, afastavam-se cada vez mais. As obrigações consumiam a maior parte do rei, e este, desprovido de meios de desvencilhar-se de tais fardos, jogava-se no abismo do stress.

Jeremy lutara cegamente, e grandes foram os esforços para adquirir a sobriedade, porém, o destino parecia o punir. Novamente o medo o abraçava. Era o medo da morte. Era a solidão que o envolvia, e nas longas noites o qual ficara acordado, apenas os livros o faziam fugir desse universo ameaçador.

[...]

Sofria antecipadamente. Tão perto, tão distante. Os dias se passavam lentos, as vozes se encontravam por meros lapsos do acaso. Eram tempos onde todos aqueles momentos que outrora se findavam ao pôr-do-sol, não mais se faziam presentes.

Caminhos opostos no cotidiano. Caminhos opostos para um futuro não distante.

Saboreava aquele gosto amargo, aquela sensação de que em poucos dias, haveria um vazio imenso no banco de seu carro, no sofá, naquele cantinho costumeiro onde
costumavam fumar.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Evitava falar sobre a partida de Elise. Evitava, pois sentia-se perdido. Sentia uma parte de si estar cada vez mais distante.

Antecipou-se à dor, pois ela viria. E com ela, a falta de uma companheira que não se tornara apenas parte de sua vida, mas principalmente, parte de seu coração.

[...]

Ela baila, sorri. Ela se faz silenciosa, se faz soberana. Essa é a sua canção. É o seu ato. Ela se deita nas pétalas vermelhas, abre os braços, sente o piso gélido tocar-lhe os braços nus. Sente novamente o arrepio do desconhecido serpentar sua espinha.

Suspira de prazer.

O platéia aplaude em pé, extasiada. Urros de celebração. Vivas, glórias. Bravo! Bravíssimo! Em coro.

Fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes, cessam a canção.

Esse é o seu universo. O seu paraíso. O seu show.

[...]

domingo, 27 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Nove - Segredos e Revelações

Jeremy, o Rei novamente assumia a postura cautelosa. Seus olhos aflitos varriam o quarto. Era a insônia que o dominava. Deitado à cama, sentia o peso do corpo, os movimentos lentos, porém, o sono não o abraçara.

Sentou-se. Hábito costumeiro, acendeu mais um de seus cigarros. Uma tragada, coração pulsante, fumaça ao ar. Um piscar de olhos, pesado suspiro de reprova, à irritação. Assim o era, ele, Jeremy, o Perverso. Governara à sua maneira.

Era aquele o seu universo. Sua vida diante das frases não mencionadas.

Eram os seus segredos de um outono a mais.

As semanas se arrastavam na linha tênue de um tempo complexo. Jeremy, o Rei há muito via-se absorto pelas responsabilidades burocráticas. O corpo sustentava-se apenas pelo orgulho que o mantinha sóbrio, mesmo que saboreasse doses de delírios de desespero e ansiedade.

Era o caos que criara para si. Era a vida que escolhera.

Debruçado em páginas envelhecidas, seus olhos percorriam a sintonia das palavras que o remetiam à sabedoria.

Olhar fixo, pensamentos focados. Mais um dia que terminara. Mais uma noite jogado à insônia.

[...]

O relógio marcava cinco horas da madrugada. O rei jazia deitado à cama. As pálpebras pesadas travavam duelos intermináveis com o sono. A barba por fazer demonstrava a imagem de um rei em ruínas.

Poucos horas mais e um novo dia romperia a sombria noite de outono. Jeremy era um rapaz simples, gozava de seus vinte e poucos anos. Apesar da idade, fios branco-perolados já se anunciavam no emaranhado castanho escuro de seus cabelos. A própria barba por fazer já demonstravam sinais de uma pseudo-velhice-precoce, pigmentando o queixo redondo com fios brancos.

Jeremy, o Rei Perverso, novamente tentava através de suas memórias, encontrar razões para os imbróglios intermináveis que se estendiam no leque de questões à frente.

Apesar do cansaço, dava vida aos pensamentos.

[...]

Entregue ao cansaço, sentia faltar-lhe algo. Havia semanas, o Rei estava absorto nos afazeres costumeiros, tal fato o afastara dos momentos com Elise. Os tempos haviam mudado. Jeremy fizera escolhas o qual os caminhos o levavam para longe de sua companheira. Elise, por sua vez, também escolhera caminhos o qual contrastavam com a realidade de Jeremy. Poucos dias mais, e estariam distantes.

Eram segredos e revelações que mudariam para sempre a história do rei. Eram segredos jamais mencionados. Escondidos pelo tempo. Apenas vívidos nas lembranças do rei Perverso. Apenas uma lembrança o qual Jeremy vivenciava mentalmente.


"A distant time, a distant space, that's where we're living. A distant time, a distant place. So what you giving?"

"Ecos de um rádio tão distante. Cantarolando solitário, na noite fria de outono, num quarto submerso na escuridão, no brilho quase apagado de um luminária azul. Nos sonhos bons de um Rei. Um rei perverso, para si, para o mundo.

À cama, o Perverso dormia sereno. A brisa gélida adentrava pelas frestas da janela, preenchia o ambiente com o ar renovado da noite que acabara de nascer.

Em algum lugar distante, olhos da noite admiravam a paisagem da estrada. Elise, por alguma razão, se distanciara da cidade o qual se dirigia novamente. Talvez fosse a falta de um colo de mãe. Talvez fosse apenas a vontade de novamente estar distante, de viver a vida o qual sonhara. Passou a mão pelos cabelos dourados, mais alguns minutos e estaria em casa. Pegou o celular, colocou-o rente ao ouvido. Segundos depois, rompia uma voz masculina, sonolenta, ao telefone:

- Alô!
- Oi! Espero não estar atrapalhando. Estou voltando, pode me dar uma carona? - questionava Elise.

- Claro! Sem problemas. Vou me arrumar! - retrucou Jeremy.

Minutos depois, encontraram-se. Um abraço longo, quente, gentil. Entraram no carro. Jeremy olhou para o céu estrelado, admirou pela milésima vez a beleza inquietante de Elise, esta, por sua vez, sorriu sem jeito.

Assim o eram.

[...]

Jeremy sentia a sobriedade diminuir. Pela primeira vez em meses, era proposital. Erguia sorridente aquela taça de vinho. Um gole sedento, saboroso. Sorria prazeroso. Embriagado, fitou Elise, desejou-a como nunca a desejara antes. Após longos meses, era a primeira vez que não se importava com as consequências. Queria-a, e queria-a agora. Tão e somente sua cura.

Os olhares se encontraram. Olhos castanhos. Olhos da noite. Ela mordia delicadamente os lábios, e ele, sem hesitar, investiu sedento. Entrelaçaram-se num beijo caloroso. Era dócil. Como o vinho, como o prazer.

Ele a abraçava intensamente, percorria com seus dedos, a maciez da jovem mulher. Por entre as curvas, deslizava suave, instigando-a. Ela o abraçava, feroz, o trazia para junto de si, cravava suas unhas na carne, e o sufocava no êxtase.

Lá fora, o frio envolvia a cidade interiorana. A madrugada serena, silenciosa estava. Lá dentro, dois amantes se deixavam dominar pelo prazer. Envolviam-se no calor de seus corpos. Ele à envolvia em seus braços, enquanto seus lábios deslizavam pelo corpo de Elise.

Aos poucos, as roupas se esparramavam pelo chão, e revelavam a nudez de seus corpos. Jeremy, investia como um animal, não se importava, era a paixão que falava por ele, era o desejo, o prazer. Abraçava-a, tocava-a, como se naquele momento, apenas ela existisse em seu universo.

Elise revelava um corpo delicado, de um tom de pele claro, de curvas gentilmente convitativas, de seios fartos. Jeremy a beijava intensamente, enquanto percorria seus dedos pela nuca, descendo suavemente pelas costas. Ofegantes, deliravam, transavam como se há muito desejassem por isso.

Ela sorria loucamente, prazerosa. Ele, sorria discreto, no frenesí, sentindo o calor de sua companheira. Eram lobos famintos. Eram animais, que uivavam, que se seduziam e investiam ferozes, sedentos.

A madrugava se entregava ao ápice. Lá fora, a pálida lua, se fazia solitária. Naquela noite fria, naquela noite onde o destino unira seres que há muito se proibiam.

Em algum lugar, não se sabe onde. Ecoavam melodias de um velho rádio.

"Feel the air up above. Oh, pool of blue sky. Fill the air up with love, all black with starlight".

Em algum lugar, não tão distante. Um Rei e uma Rainha, entregavam-se à paixão. Entragavam-se aos mais ínfimos desejos. Naquela noite, não seriam apenas Rei e Rainha. Seriam Rei, Rainha, amigos, amantes.

A alvorada surgira envolvida na densa névoa que cobria a cidade. Aqueles olhos castanhos, ainda ofuscados pelo sono, fitavam o corpo de um jovem mulher. Jeremy acariciava a pele macia de Elise. Sorria, como um tolo. Acordara abraçado com sua Rainha, desejava permanecer o dia todo ali, mas a vida cotidiana o esperava. Tornou a colocar sua roupa.

Despediu-se de sua companheira com um beijo gentil e partiu..."

[...]

Jeremy novamente voltava á realidade. Jamais se esqueceria da noite que passara com Elise. Os tempos, como já fora mencionado, eram diferentes. O cenário permaneceria o mesmo. Os personagens, aos poucos iriam seguir vidas distintas.

Fechou os livros e olhou pela janela do quarto. A manhã nascera calorosa. Dia atípico. O primeiro dia do inverno. Jeremy, o Rei, abraçado à insônia, levantou-se.aposentos.

- Mais um dia se inicia - pensou.

O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise.

[...]

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Oito - Diálogo com os Mortos

[...]

A tarde chegava ao fim. O sol rubro aos poucos era engolido pela monótona cidade interiona. Ao horizonte, nuvens enegrecidas envolviam o pôr-do-sol eminente. A estrada se prolongava até a visão se perder nas casas e becos espalhados pela cidade. Da longa estrada, um carro rompia à toda velocidade. No seu interior, músicas ecoavam gritantes:

"Mudaram as estações, nada mudou. Mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Está tudo assim tão diferente..." Os olhos castanhos brilhavam. Relutavam as lágrimas para eclodirem. Ele, Jeremy, segurava-se. Prendia a respiração e cantava. Para os céus, para o nada...

"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre, sempre acaba."

O pra sempre, sempre acaba...

[...]

Jeremy adentrou aquelas muralhas. O vento frio soprou por entre seus cabelos. Com as mãos nos bolsos, caminhou lentamente, à passos firmes. Os passos rompiam o silêncio ao chocar-se com as folhas secas ao chão.

O mundo jazia emergido no silêncio da natureza. Tudo se calara diante do rei. O universo estava quieto. Apenas o som do coração emanava a vida. As nuvens agora abraçavam o sol poente. Na penumbra que se estabelecera, Jeremy cessou a caminhada. Diante da foto envelhecida pelo tempo, seus olhos lacrimejaram...


Do horizonte, o sol transcendera as nuvens, e o brilho sangrento pairou sobre a imagem. A brisa gélida varria as folhas ao chão, a natureza entoava novamente o tom da vida.

Jazia o rei sorrindo triste. Sentia o vazio. Era o vazio que o abraçara nesse longos sete anos. Era a saudade. Era a triste realidade de observar a lápide negra que se elevava à sua frente.

O berço final.


Onde jazia a última lembrança de sua mãe.

[...]

Jeremy olhou estático a foto. Permaneceu em silêncio por minutos intermináveis. O sol logo seria engolido pela noite que se anunciava fria. Sentou-se no mármore negro, gélido. Acendeu seu cigarro, olhou para o horizonte.

Era o silêncio que o envolvia. Prestou suas homenagens mentalmente. Falava, em seus pensamentos, como se ela, ali estivesse. Viva, cheia de energia, sorridente. Como outrora fora.

- Sete anos já se foram - dizia Jeremy, enquanto seus olhos castanhos fitavam distantes, o horizonte escarlate - Eu cresci, mãe. Não sou mais aquela criança que chorou aqui, nesse mesmo lugar, desamparado. Tenho lutado...

A brisa tocou suave o rosto do rei, e este, permanecera sério. Mais um trago. Deitou-se.


Diante de sua visão, um enorme ipê, desfolhado pelo outono, se erguia. Os galhos secos, se emaranhavam rente aos céus. Jeremy, o Rei, continuava sua conversa.

- Muitos já se foram - sorria triste, Jeremy, o Saudoso - A vida tem sido complicada. Os dias tem se tornado complicados. E a paz? Ah, a paz...

Fechou os olhos, lágrimas silenciosas rompiam e se debruçavam no mármore.

- Apenas busco paz, mãe. Não é pedir muito, creio eu. É terrível acordar, e sentir o medo consumir tudo. Tremer e temer, o desconhecido...

Respirou fundo. Parecia procurar o colo da mãe. Queria estar naqueles braços tão reconfortantes, ouvir aquelas palavras duras, por vezes, porém, tão materna.

- Queria apenas recuperar a parte de mim que deixou de existir. Não sei ao certo, mãe. Mas não sou mais o mesmo. Envelheci, eu sei. Me falta algo mais. Talvez a coragem de seguir adiante - Jeremy chorou pesadamente - Me falta forças, me faltam...


- Me faltam...

O silêncio reinou na mente de Jeremy. Este, fitava os últimos raios do sol, perdendo-se nas lembranças. Era homem feito, mas a criança dentro de si, novamente pedia os beijos de sua mãe.


Jeremy, o Rei levantou-se. Olhou novamente a foto. Colocou as mãos nos bolsos do casaco. Seus olhos cintilaram, seu sorriso amargo rompeu-se saudoso e disse baixinho:

- Amo você, mãe. Sinto sua falta.


Não olhou para trás. Caminhou silencioso. Não percebeu, mas a noite rompia na lua cheia pálida à leste.

[...]

Caminhou só. Caminhou novamente pela trilha de seus anseios. Havia um mundo o esperando. Um mundo o qual governara sozinho desde então.

A tristeza o consumia e o fazia caminhar. Caminhava para longe daqueles túmulos, para longe do reino dos mortos. Durante os meses descritos nessa história, Jeremy sempre temera a morte.

Talvez fosse apenas o reflexo de sua própria vida. Tantos se foram. E sempre restara as lembranças, a dor, a vida vazia que agora Jeremy tentava preencher com a saudade que lhe apunhalava o peito.


Caminhou só e não olhou para trás.

[...]

domingo, 6 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Chapter Vinte e Sete - Ego

[...]

O outono chegara ao seu ápice. O frio constante, o céu límpido marcavam a transição das estações. Poucos dias mais e o inverno rasgaria o véu do tempo, se fazendo intenso. Lá fora, os raios do sol cintilavam preguiçosos. A natureza em seu caráter mórbido, silenciosa estava. O gramado jazia pigmentado em mosaicos brancos, o qual notava-se claramente os vestígios da geada que recobria a cidade.

Deitado à cama, o Rei se irritava com a insônia que o envolvera na madrugada gélida. Os dias atuais se monstravam confusos. Rompiam-se pseudo-crises, o qual Jeremy preocupava-se. Sentia-se exausto. Os pensamentos amenos eram drasticamente substituídos por temores há muito conhecidos pelo jovem rei. O coração pulsava agressivo.

Era o medo.

[...]

A noite anterior...

O frio intenso se fazia cortante. Velado por um vasto céu negro, Jeremy fitava aqueles belos olhos esverdeados. Sorria. Dividia-se entre as mãos que o acariciavam e os pensamentos que o inquietavam. Sua voz soava insegura. Algo o perturbava. Sentia o gosto adocicado dos beijos de sua amada, e ela, sorria gentil. A bela mulher depositava sobre o Rei, olhos cintilantes, do desejo, da paixão. Se completavam. Sob a claridade suja das luzes da cidade, abraçavam-se, beijavam-se.

Eram parte um do outro.

Dentre palavras e risos, Jeremy novamente se via cercado pelas dúvidas que outrora extirpara de si.

Fizera a escolha certa? - Pela enésima vez usava tais palavras para questionar-se.


Era o medo.

[...]

Na madrugada...


Deitado à cama, olhou para os aposentos. Sentia o estômago revirar. O coração pulsava feroz, uma fera tentando libertar-se do peito. O Perverso olhou para o teto, como se quisesse encontrar os céus. Tornou a fechar os olhos e tentou novamente expurgar os presságios. Em vão.

O silêncio ecoava agressivo.


Perturbado, Jeremy tremia. Agarrava com firmeza os joelhos na altura do peito, e este pulsava forte. Era o medo que o controlava. Era essa maldita angústia que o seduzia. Sua sobriedade parecia diminuir à altura que seus pensamentos giravam em torno de questões sem respostas.

Onde errara?


Era o medo. Sentia o peito comprimir no agudo anseio. Se apegava aos últimos vestígios do auto-controle, quando este não mais existia, abraçou a sobriedade. E quando o pouco de racionalidade se extingiu, Jeremy jazia na insanidade.

Os minutos se faziam horas. As horas se perdiam no decorrer da noite fria que se prolongava. Jeremy agonizava. Era o medo que o confundia. Não respirava. Sentia o corpo tenso, pesado.

Quando nada mais poderia salvá-lo de sua eminente crise. Olhou aos céus, gritou desesperado:

- DEUS! SALVE-ME!

As lágrimas marejavam os olhos castanhos. O coração deixou de bater, cessou a respiração.

O silêncio pairou. O mundo deixou de girar.

[...]

O Presente...

Não fora o tempo, não fora o céu. Era o orgulho. O ego. Durante toda sua existência, Jeremy, o Rei Perverso fora ousado, destemido. Aprendera nas quedas, que a vida deve continuar. Mesmo que sangrasse até a beira da morte, deveria levantar-se. Deveria erguer-se soberano sobre o caos que o mundo espelhava diante de seus olhos castanhos.

Os dias poderiam se tornar eternos pesadelos, e mesmo que os céus se derramasem em lágrimas de sangue, sua alma lutaria para manter-se unida ao corpo. Mesmo que suas forças se extinguissem, se arrastaria, erguer-se-ia de joelhos, e com suas mãos trêmulas iria agarrar-se às ruínas. O medo seria parte de si, e este, derrotado seria.

Jeremy, o Rei, levado pelos temores, quase entregara-se. Porém, trilhara um caminho árduo. Desistir ali, seria renegar o que ele próprio construíra. A vida nunca fora fácil. Suas escolhas se tornavam tempestades no horizonte. Mas deveria seguir. Seu desejo de vencer, de viver era maior que o medo que o envolvia.

Pensou em todos os momentos o qual se vira caído. Relembrou as quedas. Relembrou as conquistas.

Era o orgulho que o reerguia. Era o esse tal amor pelo viver.

[...]

terça-feira, 1 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Seis - Dos Caminhos Opostos

[...]

O Sol nascera frio naquela manhã de outono. Os primeiros vestígios da alvorada eram de um branco-pérola frio, intenso. A cidade interiorana permanecia refém da neblina que teimava em não dissipar-se.

As semanas voavam. Passavam-se os dias e, para Jeremy, o Rei, restara os pensamentos confusos, meticulosos, que agora digeria sem açúcar, sem sal.

O voz do Rei silenciara perante um emaranhado de acontecimentos.

Vão-se os dias, ficam os teoremas sem solução

[...]

Jeremy, olhava para o presente deixado à mesa. De olhos marejados, respirava intenso, ignorando os pensamentos que surgiam complexos. Eram sentimentos de outrora, fixados à ferro e fogo na mente do jovem rei. Surgiam como tormentas que rompem do silêncio. Para o Rei, eram apenas lembranças que insistiam em permanecer intocadas.

Repousado à frente do Rei, um origami se fazia frágil.

- Christie! - murmurou ele, sorrindo gentil, triste.

O rei levantou os olhos, fitou sua antiga companheira. Sentiu a culpa corromper de seu coração. Sentiu o gosto de sangue lhe subir à boca e degustou amargo, aquela dúvida que sempre se fizera soberana.

Realmente fizera a escolha certa?

Ela ignorara o rei por todo esse tempo. Agora, jazia sobre o Rei, um olhar há muito conhecido. O olhar de uma esperança frágil.

[...]


Jeremy, o Rei, parecia se entregar ao súbito saudosismo. Fitava Christie como se naquele momento, nada mais importasse. Rompiam-se beijos que outrora foram silenciados por destinos desiguais. Entregavam-se ao desejo da mente confusa, ao delírio de corpos ardentes, às dúvidas que projetaram-se ao rompimento.

Ao fim daquela noite. Christie revelara o desejo de reatar. Ecoaram de seus lábios palavras de amor, palavras de perdão, palavras de um futuro promissor.

Aturdido, Jeremy se viu receoso. Novamente, rompiam os tremores. Os medos surgiam como fantasmas que bailavam ao luar. Pego de surpresa.

Vício da alma. Cicatrizes ainda sangrentas.

Em tantos anos, Jeremy se via sentenciado à viver sua dor, enquanto extirpava a dor alheia. Sempre guardara para si toda a angústia que jamais desejara proporcionar para outrem. Vivia submerso em seu próprio caos.

Sangraria sozinho.

De tanto sangrar, caiu em desgraça. Criou para si um monstro com sua face. Um monstro com a face de seus medos, de suas dores, de seus amores.

Naquela noite, não sangraria sozinho. Christie iria machucar-se. Iria chorar sozinha, corrompida pela realidade. Iria soluçar até dormir absorta pelo cansaço. Acordaria na manhã seguinte, e jamais olharia para Jeremy novamente.

O rei, por sua vez, enfrentaria a árdua tarefa de silenciar as vozes de sua mente. Enfrentaria novamente as dúvidas, o caos, os sentimentos adormecidos. Por fim, entregue ao delírio, seria atormentado pela única voz o qual deveria evitar.

A voz do próprio coração.

[...]

Uma nova alvorada surgia ao horizonte. Cambaleante, Rei Jeremy jazia sentado à cama. Acariciava o pequeno origami. Relembrava os bons momentos. Parecia sentir o gosto dócil daqueles beijos. Enxugou as lágrimas. Guardou a pequena moldura de papel, e por fim, andou solene pelo quarto.

Olhou a si no espelho. Os seus olhos emanavam um brilho diferente. Era a razão que o envolvia. Mesmo que Christie o odiasse a partir daquele momento, Jeremy precisava encontrar nos seus erros, um novo caminho. Soava egoísta. Porém, para si, fizera o correto.

Os erros do passado não poderiam ser reescritos. Deveriam permanecer intocados. As feridas iriam sumir. Ficariam as cicatrizes, e nem mesmo um recomeço iriam apagá-las.

Os caminhos seriam trilhados opostos. Como sempre foram, eles, Christie e Jeremy.

[...]