[...]
O ápice da noite se relevou aconchegante, apesar do atípico calor do outono; O céu de um negrume singelo, demonstrava em sua vastidão a calma da noite.
Submersos nas palavras, iam e voltavam por entre labirintos de lembranças;
O bom humor pairava sobre Jeremy, o Perverso. Estava sereno, de sorriso atípico, se fazia feliz por razões desconhecidas; Não notara, mas mantinha uma tranquilidade surreal; De alguma forma o dia fora prazeroso; e a noite se revelava supreendente. Talvez o encontro sem o teor cauteloso o fazia bem; Era lugar comum; mas o ambiente se mostrava favorável enquanto envolto no véu da noite.
[...]
Noite atípica. Dos segredos; dos risos; dos sentimentos; dos sonhos.
Jeremy percorria linhas temporais das quais sua mente o privara e agora, suas palavras se pronunciavam tão amenas, que parecia não se importar com seus mais obscuros segredos. Eram lembranças das quais, não se sabe, possam ter moldado o caráter do jovem rei.
Falava abertamente, como se o limite fosse a escassez de suas próprias lembranças. Expôs a conto do Menino aterrorizado pelo Leviathan, que não percebera uma Elise perplexa postada ao seu lado...
Jeremy riu. Não se importava; pela primeira vez, parecia apreciar sua própria coragem em admitir; sentia a segurança por anunciar um horizonte negro de um passado remoto;
Elise por sua vez, expôs suas mais intensas lembranças; A conversa encorpava-se nas mais remotas situações, e se envolvia em consequencias, que para Jeremy, moldaram ambos.
[...]
A horas se prolongavam; Rei e Rainha perdidos no tempo; nos sentimentos; nas hipóteses. Ecoavam vozes reais, e contos que mais pareciam ficção. Estavam tão perfeitamente conectados um ao outro, que suas relevações pareciam os absorver por sentimentos puros;
Falaram do Amor livre; Falaram dos sentimentos; falaram dos desencontros casuais que o destino os apresentara;
Por minutos, reviveram o primeiro encontro; Das sensações.
[...]
Eram distintos em suas experiências; Eram tão próximos nos pensamentos; Governavam à suas maneiras; Ela, Elise do agir; Ele, Jeremy, do pensar;
Pareciam planejados um ao outro; pois se completavam. De certo modo, o destino brincalhão, parecia ter unido peças tão essencias um ao outro, que o equilíbrio que se firmava, era como se cataclismáticas realidades paralelas se chocassem e formassem um emaranhado de sonhos e questões que pareciam conotar uma proibição severa.
Dançavam ao mesmo ritmo, e entoavam as mesmas canções;
[...]
Pela primeira vez, questionaram-se; "Poderiam vivenciar um relacionamento?"
Ela, enfática, parecia aceitar tal premissa; Ele, tomado por um repentino ataque de timidez, enrolou-se nas palavras; dissera não ter pensado no assunto; mas encorajado; bem humorado; aceitava essa realidade; Aceitava essa visão tão prazerosamente incerta.
Ambos se envolviam no temor de perder tal ligação, caso o acaso lhes apresentasse um rompimento nessa essência, que faziam deles, Jeremy e Elise.
Para Jeremy, o Rei, era uma realidade tão concreta, e pensamentos tão perfeitamente interligados que não sabia ao certo o motivo pelo qual vivenciavam separadamente sonhos comuns.
Fosse apenas uma hipótese; não importava. Eram pensamentos comuns; Partilhavam dessa lealdade e fidelidade para um futuro hipotético. Seriam felizes; seriam eles próprios; Ele do pensar; ela do agir; mas ainda sim seriam completos. Seria ele o par de Elise e vice-versa; Seriam apenas um; de sentimento e planos individuais para um par que já existia havia tempos, porém, separados por temores;
Temiam perder um ao outro sob esse caráter tão comum à casais; Temiam uma separação precoce, comum nos dias atuais;
[...]
Um Rei deve governar soberano ao lado de sua Rainha. Assim deveria ser; Não havia dúvidas.
Separados por temores; unidos por sonhos; por "um algo a mais" já dito por Jeremy.
O rei não escondia seus sentimentos por Elise; Arriscava-se à cada dia; entregava-se à essa sensação; do sentir; do querer. A rainha, parecia cautelosa quanto à isso; mas mesmo que envolta em seus temores, parecia partilhar do mesmo pensamento do rei.
Poderiam! Deveriam estar juntos. Partilhavam da mesma alma; porém, eram separados por temores já mencionados;
[...]
Abraçaram-se velados pelo brilho sereno das estrelas; Jeremy partiu sorridente;
Envolto na canção, caminhou para seus aposentos; Acendeu outro cigarro; Segredos revelados; sentimentos expostos. Um dia atípico.
- Porque não? - Questionou-se Jeremy - Os ventos sopram e elevam nossos sonhos ao alto. Porque não deixar os ventos guiarem nossos destinos? Somos dois; somos um.
Sorriu espantado com tal pensamento. Parecia encorporar uma certeza tão feroz que temia ser apenas sonhos de um Rei Perverso.
Unam-se! Sejam apenas um. Amigos; companheiros; amantes reais.
Desde então não notaram, mas já o eram. Eram enamorados de almas separadas por temores, mas que no fundo sabiam, pertenciam um ao outro, bastava aceitarem a realidade.
Jeremy jogou-se à cama; Ele, o Rei sonhador; Envolvido pela penúmbra do quarto, brilhavam seus olhos; sorria sereno;
- Podemos! Devemos vivenciar esse sonho comum! - pensou - O que diria, Elise?
Não se sabe. Apenas o tempo o faria.
Envolto no sorriso sincero, de jovem sonhador, adormeceu feliz, Ele, Jeremy, o Encorajado.
[...]
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