quinta-feira, 22 de abril de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Dezenove - A Sobriedade

[...]

Repousava o queixo sobre as mãos entrelaçadas; cotovelos apoiados na pequena escrivaninha; Mantinha o olhar fixo, expressão severa; analítica; contundente. As palavras proferidas adotavam tons mais sinceros; Sua voz grave, era serena; paciente.

À sua frente postava-se uma jovem mulher; cabelos negros até os ombros; olhos verdes; De voz dócil, analisava Jeremy de modo maternal; Era ela, Bellatrice, a Conselheira Real.

Havia tempos, compartilhava o dom das indagações com o jovem Rei. Sábia, porém severa, decifrava calada os mistérios envoltos na mente perturbada de Jeremy. Este por sua vez, adentrava seus mais íntimos pensamentos, e com seu tom severo de voz, falava do amaldiçoado; falava do abençoado.

No presente momento, Bellatrice traçava em frases curtas, o caminho percorrido pelo rei nos últimos tempos;

Jeremy olhava-a admirado, suas expressões severas adotavam uma enigmática característica do monarca; O dom de questionar-se;

- Acredita mesmo que o momento é propício? - Questinou o Rei.
- Por um momento, olhe no espelho. Trilhe o passado até o presente momento. Encontrará suas respostas, Alteza. Sinta a sobriedade!

- Sobriedade! Uma palavra comum; uma indagação de quem fui; de quem sou! - Falou Jeremy para si próprio. Envolto na névoa de seus próprios pensamentos, franzia a testa e seus olhos adotavam uma figura ameaçadora. Parecia sentir dor; parecia ser uma raiva crescente.

Mera ilusão!

Respirou fundo, ele, Jeremy, o Sóbrio. Amenizou as expressões e sorriu tímido.

[...]

Olhou, de modo perverso para Bellatrice; Olhos nos olhos; sentia a sinceridade romper-lhe à boca:

- Um caminho incerto, confesso. - calou-se, Jeremy. Escolheu suas próximas palavras e continou

- Entenda o que está em jogo! Acredita mesmo que seria prudente?

- Não apenas prudente, como necessário. Instigue-se! É dado o momento de caminhar para sua
própria alto-realização. Há quanto tempo busca isso, meu caro amigo?

- Tempo suficiente para saber as consequências. Tempo necessário para saber o que trilhei e o que senti até o presente momento.

Jeremy, desviou o olhar, pela janela da pequena sala, notou o pacífico jardim lá fora.

Respirou fundo. Fechou os olhos por segundos e tornou abri-los.


Repousou o queixo novamente às mãos trançadas; Fixou o olhar em Bellatrice e com paciência inumana, questionou:

- Acredito que não a verei por algum tempo, estou certo?
- Correto.
- É estranho! - Jeremy parecia adotar um tom saudosista, ao mesmo tempo que parecia temer por algo desconhecido.
- Não vejo a necessidade, mas caso apareça alguma emergência, sabes onde me encontrar.

Cumprimentaram-se. Jeremy lançou um ultimo olhar misterioso para sua Conselheira, girou nos calcanhares e deixou o casebre.

Olhou o horizonte vasto se romper sob seu olhar, movido por essa tal sobriedade, partiu em busca de seu maior desejo. Tal pensamento há muito o confundia, e lhe fazia percorrer sua costumeira esperança.

- Esperança! Palavra simples. Ela está certa. E dado o momento de transcender os limites de meus temores. - Disse Jeremy para si.

[...]

O olhar amedrontado de outrora não mais jazia naqueles olhos castanhos. Mantivera-se cauteloso por tempos, e por razões tão reais, se entregara por vezes à temores que o assombravam nas noites tempestuosas. O presente momento, se fazia necessário. Havia um caminho inseguro à frente. Mas deveria trilha-lo.

Jeremy, O rei Perverso agora entendia a dimensão de seus atos. Entendia a natureza de seus temores, haviam dúvidas, mas estas, meras caricaturas de monstros que enfrentara nas linhas do tempo.

De severas, suas crises internas passavam à espelhar-se em pequenos presságios de agouro. Jeremy, dotado de uma maturidade jamais presenciada, olhava determinado por um vasto horizonte de escolhas. Dentre risos; dentre lágrimas, aprendera à valorizar seu próprio interior. E mesmo que sua mente se perdesse nas intermináveis trilhas obscuras; seria guiado pelo som de seu coração.

As cartas se abriam em um leque infinito. Provido de tal maturidade, o rei sorriu confuso; Não era o medo; não era o desconhecido.

Era saber que naquele exato momento deveria ele, Rei Jeremy, de tantas expressões governar à si próprio; à sua maneira.

Mesmo que houvesse falhas; mesmo que eminentes quedas se anunciassem; deveria ele, Jeremy, abraçar tal sobriedade.

Somente assim, seria apenas ele. Rei Jeremy, governante de seu próprio mundo.


[...]

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