domingo, 12 de setembro de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Sete - A Tormenta

[...]
 E naquele momento, nada mais importava, pois diante de seu grande amor, todos os problemas se resumiam a pequenos detalhes que aos poucos seriam apenas vagas lembranças. Jeremy sorria. Sentia-se feliz. Sentia-se realizado. Nada mais importava.  

Era o suficiente.

[...] 

A manhã nasceu de um tom cinza, quase negro. Pouco se via do brilho dourado que surgia ao horizonte. Jeremy olhou por mais uns instantes as avenidas, e olhou o brilho escasso que não conseguia transcender os limites dos céus.Olhou profundamente nos olhos de Sophie. Beijou-a com ternura. Abraçados, sentiam o calor de corpos e mentes em profunda conexão.- Sentirei sua falta - disse o rei, com a voz embargada.

 Ela sorriu, triste. Não queria que partisse. Novamente o abraçou, o beijou.Era dado o momento de retornar ao lar. Fitou-a por uma eternidade, e sentindo a sensação de um adeus não tão breve, partiu.

Se lembraria daquele olhar esverdeado, e choraria só, momentos antes de ser engolido pela escuridão que o dominaria em poucas horas.Acima de sua cabeça, um tapete negro se forrava em nuvens negras. As árvores começavam a bailar, frenéticas, intensas. E as primeiras lágrimas derramadas pelos Deuses enfim, beijavam o asfalto.

Olhou os céus, e que os Deuses o guiassem no seu retorno, pensou.

 [...]

 Uma grande tempestade assolou toda a natureza à sua volta. Rei Jeremy guiava seu carro, e atento à estrada, mantinha o olhar fixo no asfalto. A chuva castigava a visão. As curvas traiçoeiras pareciam puxar-lhe para a catastrofe iminente. Havia horas dirigia sem descanso, mas mantivera o sorriso.Ele, o rei, estava bem. 

Os anos arduos pareciam um mosaico de eventos há muito deixados para trás. Irracional, imcompreendido, louco, alucinado. Jeremy no decorrer dos anos se tornara um ícone de adjetivos pesados, e ciente de sua imagem, jogara-se ao infortúnio de aceitar-se como o tal. 

Os momentos com Sophie chocavam-se com a realidade passada do rei. Muito se dizia de suas escolhas, pois, era impassível, cético, analítico. Não se entregava a sentimentos irracionais. Mas sua amada o fazia sentir a irracionalidade do amor, e viver sonhos futuros.Ao contrário de Elise, Sophie fazia Jeremy não se limitar ao racional. Ele vivia do hoje, do amanhã, do eterno.

E estava bem.

Fitou novamente o asfalto negro à sua frente, e cantarolou junto ao rádio:"Cyrus Jones, 1810 a 1913. Ele fez seus bisnetos acreditarem que se poderia viver até 103 anos. Cento e três é pra sempre quando você é somente uma criança. Então, Cyrus Jones viveu pra sempre." 
Cyrus Jones - pensou Jeremy - Um homem eterno. 
Cyrus Jones, um homem, que na utopia de seus bisnetos, morrera mesmo no ápice de sua eternidade. Talvez morrera após seus filhos, seus netos, seus bisnetos.

Um homem eterno. Tão eterno quanto a felicidade que emanava de Jeremy naqueles dias.

 [...]

O carro se movia a toda velocidade. Naquele momento, a chuva dera uma pequena trégua. Jeremy continuava absorto na canção, e pensava em Sophie. O tempo havia os unido, e naquele momento, era evidente que não seriam separados. 
Os olhos castanhos se faziam distantes. Olhavam para um futuro incerto, mas prazeroso. Desejava viver 103 anos. Queria ser Cyrus Jones, queria poder viver eternamente os sonhos que lhe foram roubados. E ao lado de Sophie, iria fazer eterno aquele sentimento, aquele sorriso destemido. 
Não mais temia a vida. Não mais temia a morte. Era um homem livre de seus próprios pesadelos.

Naquele momento então, igualmente repentina, a trégua dos céus dissipou-se, e rajadas de vento romperam o silêncio daquele universo. A chuva se intensificou, chocando-se violentamente contra o carro em movimento. 

Ao fundo o rádio, melodia soava triste,, pesarosa, contrastando com os pensamentos de Jeremy:
"Pequeno Mikey Carson, 67 a 75. Ele andou na sua bicicleta como um diabo até o dia em que morreu. Quando crescer ele quer ser Mister Vertigo no trapézio voador.Oh, 1940 a 1992".

Mykey Carson. Um menino endiabrado, em sua bicicleta, sonhava ser Mister Vertigo, nos trapézios voadores.

Um menino sonhador - pensou Jeremy - Mykey Carson, Mister Vertigo.

[...]

Lá fora, nuvens negras envolviam a atmosfera. Nas planíveis que envolviam o asfalto negro, a chuva insistia em perfurar a terra, e a lama escorria pela ingrime saliencia do terreno. Passaros fugiam, e voavam procurando abrigo, enquanto raios cortavam os céus, e seu estrondo se fazia ouvir à milhas e milhas.

Ao sul, num casebre de madeira, uma mãe abraçava seu filho. O envolvia em seus braços, o protegia dos trovões. Ao norte, um homem dormia despreocupado com o diluvio que tomava conta daquela região.

Um homem beijou sua esposa, um adolescente se concentrou na leitura, um ancião sucumbiu á velhice. Morreu só, em seu quarto de asilo, pensando nos filhos, pensando naqueles que há muito o abandonaram. Não os culpou. Apenas abençoou seus filhos, os perdoou, os amou até o último vestígio de vida fugir-lhe à visão.

[...]

Numa estrada distante, envolta na tempestade, abraçava a escuridão, um homem embriagado guiou seu carro, a toda velocidade. Não haveria consequencias, fazia disso uma arte, pensava. Era o melhor em tudo. Guiou até os olhos se fecharem, até perder a consciência, e atravessar a pista vizinha.

Na direção oposta, um homem, de olhos castanhos, apesar do cansaço, mantinha-se firme ao volante, envolto em sua paixão irracional por sua amada, realizado com os caminhos de sua vida.

Absorto nos pensamentos, sentiu a visão se perder na luz que se fez aparecer diante de seus olhos. Não haveria tempo, pensou. No entanto, por instinto,jogou o carro à direita...

... e então um relâmpago cruzou os céus, e seu estrondo se misturou ao som da colisão.
Tão distante, uma mulher de olhos verdes, no alto de seu apartamento, fumava, olhando para o céu negro, para os casebres, para os prédios, para as avenidas. Um mau presságio a assolou, e a dor aguda a fez chorar silenciosa. Traduzia em suas lágrimas silenciosas, partes de um destino desconhecido.

Fechou os olhous, suspirou e pensou novamente em Jeremy. Havia algo errado.

Os carros se chocaram, frontal, ainda que por reflexo, Jeremy desviara o suficiente para ainda acertar a esquerda do outro carro. Impulsionado, o carro subiu aos céus. Deslocou-se a esquerda, e capotou, uma, duas, quatro, não se sabe. O mundo girou cruelmente, enquanto o carro dançava numa aspiral bizarra.

Os vidros se estilhaçaram e cobriram o asfalto com seus minusculos cristais. O carro de Jeremy rolou pelo acostamento, arrastou-se por alguns metros, e na sargeta, deu sua ultma cambalhota mortal, até deslizar pela pequena encosta da rodovia.

As rodas voltadas para cima, de um objeto metálico, retorcido. Lá dentro, o radio ecoou sua pequena melodia triste:

"Coveiro, quando cavar minha cova, você poderia deixá-la rasa. Para que eu possa sentir a chuva?"

A chuva agora caía serena, e os céus novamente adotavam o tom branco, ao horizonte as nuvens começavam a dissipar-se.

Jeremy, o rei, ensanguentado, ferido. Por vários minutos liutou, até livrar-se do cinto de segurança, se arrastou para fora, com as mãos fracas, agarrando-se no gramado enlameado.

Sentia-se cansado. Ambas as pernas quebradas, um pedaço de metal retorcido atravessado no peito, e a cabeça envolta no sangue, envolta na dor, e o rosto desconfigurado. Um corte cruzava do topo de sua cabeça, até perto dos olhos.

Respirava ofegante, sentia sono.

Com seus últimos vestígios de força, rolou o corpo e voltou-se para cima, olhou para os céus. A chuva fina lavava seu corpo ensanguentado, mesclado na lama.

Piscou, e novamente sentiu o sono o abraçar. Relutou, e por fim, como um relâmpago que corta os céus, e se desfaz na escuridão... veio a dor.

Não se sabe quantos minutos, horas, ou dias Jeremy esteve jogado ao chão. Seu corpo agonizava na dor. Respirava com dificuldades, e seus olhos fechavam-se, mas orgulhoso, mantinha-os abertos.

O silencio tomou conta da natureza. Jeremy nada mais ouvia. Nem sua respiração, nem a chuva, ou o vento. Não havia nada, exceto silêncio.

Tornou a fechar os olhos, e viu uma mão se estender diante de seus olhos. Com dificuldades, levantou a sua própria, e então fitou aquela bela mulher, de olhos esverdeados, e ela sorriu para ele, que retribuiu um sorriso mais contido.

- Te amo mais que tudo - disse ele, com a voz fraca, quase um sussurro - Me desculpe...

E então, ela desapareceu.

O rei olhou novamente aos céus, e chorando, entregou-se ao seu destino. Sem forças, e assolado por uma dor indescritível, apenas entregou-se à escuridão.

Nada mais se ouvia lá fora, nada mais se via, sentiu as últimas batidas fracas de seu coração, e por instantes pôde ouvi-las.

- Ninguém pode ser Cyrus Jones - pensou. - Ninguém pode ser eterno.

Fechou os olhos lentamente e os abriu novamente. Tudo acontecia rápido demais. Primeiro, um grupo o cercava, e suas vozes não se faziam ouvir. Os olhos tornaram-se a fechar.

Sentiu o corpo ser impulsionado. Tornou a abrir os olhos; teto branco. Fechou-os. E por fim, sentiu uma dor terrível tomar conta de seu ser, um desfibrilador lhe fazia contorcer, e pessoas parecia gritar, e conversar com ele, mas nada se ouvia, exceto o som fraco de seu coração, ouviu a melodia triste por alguns segundos, e então veio a escuridão.

Era esse o seu fim? - pensou.

Não sabia dizer. Apenas sucumbiu a escuridão e a dor sumiu.

[...]