segunda-feira, 19 de abril de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Dezessete - Castelos de Areia

Transcenda os limites de um espelho empoeirado. E na mórbida rotina que se apresenta, faça-se soberano. Mesmo que as linhas se dissipem ao horizonte, encontre nos olhos de quem o observa, uma razão para seguir.

Encontre a paz, Jeremy. Encontre-a!

[...]

Eram como enunciados e presságios de maus tempos. Jeremy, o Perverso, não sorrira até o presente momento; Olhava fixo os papéis sobre sua mesa e projetava-se de maneira que pudesse dar andamento ao ritos burocráticos de sua pacata rotina.

Sentindo o corpo expurgar fantasmas, Jeremy olhou ao redor; as paredes desfocavam-se sob seu olhar confuso; o rosto envelhecido palideceu e sentiu o corpo sucumbir à mente. Atordoado levantou-se subitamente; segurando-se à ombros imaginários pôs-se ereto e deixou o ambiente.

Caminhou cambaleante pelos corredores; Respirou fundo e tomado pelo temor, caminhou à passos largos, desfigurados; Apenas um rei aturdido.

Sua visão estreitou-se, e envolto no sol ardente; sucumbiu diante da penúmbra que se anunciara perversa; Rodopiou à mente e hesitante cambaleou; segurou-se à soleira da porta e tomado pelos últimos vestígios de sua sobriedade, ali permaneceu; estático; assustado; trêmulo.

[...]

Um homem caminhava por entre corredores e labirintos. Adentrou a masmorra; Seus passos ecoavam em todas as direções; Lá fora, um vasto jardim de tonalidades vívidas se anunciava infinito ao longo do horizonte. Pigmentado por flores amareladas; alaranjadas; e de um tom rubi que se destacava das demais.

O homem observou o deserto castelo; de estruturas sólidas acinzentadas; de teto abobadado, onde pendiam-se nas colunas, figuras divinas e diabólicos anjos. A umidade se fazia aparente nas estruturas da edificação, mostrando o verde musgo respingar as paredes. A penúmbra se intensificava nos corredores, porém se dissipava à luz proveniente das janelas arqueadas, decoradas com vitrais onde se misturavam o azul etéreo e um púrpura vibrante;

O ser ali presente, de barba negra, olhos castanhos e severa expressão analisava friamente o recinto; esboçou uma reação de descontentamento e gritou triunfante:

- O meu Reino! O meu caos!

Sua voz ecoou além das paredes, quebrando o silêncio que se alastrara pelos jardins. De punho cerrados, elevou os braços em V na altura da cabeça e de olhar determinado, fitou o teto abobadado;

Fechou os olhos; abaixou a cabeça e ali permaneceu;

Impassível; ereto; frio. Tornou a abrir os olhos e de sua face fria surgiu vestígios de um sorriso diabólico;

Tomado pela loucura; gritou entusiasmado:

- Façam-se os demônios, se anjos irei criar!

E desatou à gargalhar loucamente; como se tomado pelo mal; seus olhos agora emanavam um brilho sedento; avermelhado; do diabólico; do prazeroso;

Respirou fundo e novamente gargalhou; um estridente som da loucura;

O tom estridente, ensurdecedor estilhaçou os vitrais, e uma cinzenta fumaça tóxica penetrou o hall; Lá fora, o fogo ardia feroz; O verdejante campo jazia em cinzas, exceto por uma única rosa de tom rubi e uma borboleta azul, o qual repousava serena sobre as pétalas da pequena flor;

Rachaduras se alastraram pelas edificações; Estruturas abaladas; Uma chuva de pó de pedra caiu sobre a cabeça do homem insano; as paredes dissiparam-se e o castelo sucumbiu perante a ruína eminente.


Caos!

[...]

Jeremy, o Perverso jazia estático sob a luz do sol vespertino; Escorria-lhe à face gotículas grossas de suor; trêmulo olhou o hozironte, de boca seca; engoliu um grito cortante que se espreitava por sua garganta; punhos cerrados; de olhar confuso; de face pálida e olheiras profundas;

Jazia ali, o Rei, na eminência de sua insanidade; Ardia em um febril desencontro com a realidade. Respirou e aspirou até recuperar à calma;

Apenas uma labirinto surreal;

[...]

De mente e corpo exaustos, Jeremy arqueou os olhos na direção de Elise, estava se manteve impassível.

Não importava. Jeremy não tinha motivos para sorrir, nem mesmo sua Rainha protetora o faria; Permaneceu impassível ao longo do dia, ele, Jeremy, O silencioso.

De olhar penetrante; silencioso; sem reações mútuas; apenas deixou-se levar pelos pensamentos. Poucas palavras eram proferidas; Nem mesmo Elise o faria;

Apenas saboreou mais um trago de seu cigarro; saboreou outro soco do diabo; Apenas calou-se.

Talvez precisasse de um abraço; Talvez não. Não soubera dizer. Ambos agiam de modo estranho naquele dia. Ela se perdia em seus pensamentos; Ele relutava contra os seus próprios.

Não houveram diálogos; não houveram segredos; Nem mesmo os olhares antes tão cintilantes, conseguiam se encontrar e demonstrar o que sentiam.

Não sentiam nada. - pensou. - Apenas o cansaço.

Observou Elise; Tentou retomar o seu ciclo; mas perdeu-se no cansaço mental. Deixou-se à mercê da noite que não demoraria à se anunciar. Ele, Jeremy, Solitário Rei Insano.

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