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Cabelos longos ao vento; barba por fazer; olheiras que acentuavam o rosto pálido, envelhecido; assim o era naquela época. Trajava-se como um lunático prestes a se render pela loucura; Como praxe, fitava com seus olhos castanhos o horizonte. O mesmo olhar costumeiro, sonhador, distante, sentimental; Assim o era naqueles tempos difíceis.
Mãos conhecidas e outras nem tanto, lhe ofereciam seus votos de dias melhores; Ladeado pelos fiéis presentes, caminhou lentamente, inseguro. Diante de seu olhos, o mármore negro se elevava, revelando o último leito da carne.
Não postava-se com soberba; era simples. Apenas seu gênio forte o corrompia, o transformando-o no Perverso. Mas não o era para si. Era ele, Príncipe Jeremy, o jovem. Apenas uma criança.
Diante de sua primeira queda, prestava sua última homenagem. Jamais a veria novamente. Carregava a rosa vermelha que jamais lhe entregara em vida; Carregava dentro de si, o sentimento que jamais pudera demonstrar; um amor tão intenso que por lapsos de realidade o revelara; Era o amor do filho; do protegido; do saudosista príncipe Jeremy.
A gélida tarde de inverno chegara ao ápice, quando o sol rubro lhe assentiu, entregou-se ao silêncio, sentindo o gosto metálico respirou fundo;
Jazia ali, não apenas sua mãe; mas sua amiga, seu primeiro grande amor; a primeira mulher de sua vida;
Um beijo quente naquelas têmporas já frias; Um ultimo beijo; Um ultimo olhar...
Virou-se e caminhou lentamente; distante; de mãos dadas com sua própria dor; caminhou para o futuro incerto que se anunciava nos últimos raios do sol poente.
[...]
Séculos, talvez milênios se passaram, não saberia dizer. A maturidade corrompera a inocência; Um olhar ancião brilhava em seu rosto; O cabelo agora curto, e o rosto desprovido de barba, lhe eram um paradoxo entre a juventude e a velhice. Trajava-se como um verdadeiro soldado. Postura ereta, expressões impassíveis, exceto pelas lágrimas que serpenteavam em seu rosto rígido.
A segunda queda.
Beirava à insanidade. Fora um relacionamento conturbado. Não havia inimizades, porém, o respeito e a autoridade sempre foram cruciais para ambos. Eram iguais, na aparência, no pensar, no agir.
Os últimos três anos se tornaram a chave para uma amizade que nunca existira então. Se tornaram próximos, revelavam segredos um ao outro, riam e embriagavam-se nas noites comuns. Eram bêbados, eram amigos, eram pai e filho.
Porém o destino, sábio talvez, rompera o ciclo; estilhaçara o espelho da vida. Diante dos olhos castanhos, jazia o pai, caído; sem vida.
Mal súbito! Precoce quebra de uma ligação breve;
Jeremy novamente fitava o horizonte; Estava leadado de fiéis; de inimigos. Não houveram aplausos; Dos fiés lágrimas sinceras; Dos inimigos, teatro da mentira; sentimento falso.
Jeremy chorou, sincero, pesadamente. Entendia agora o valor da vida; Entendia o peso esmagador da perda, e sua dor apenas somava-se à dor que outrora sentira.
Como um ritual sagrado; caminhou cambaleante; levou novamente seu beijo vívido à pele fria;
Um sorriso breve pareceu brotar de seus lábios, porém não o eram de felicidade; era a tristeza; que por dentro sorria fria; solitária;
Um ultimo olhar, para nunca mais voltar a acariciar a barba negra do pai; Seu primeiro rival; Seu primeiro amigo;
Um último suspiro de inocência, para esta morrer e coroar a maturidade precoce.
O sol infiltrou-se pelas nuvens no horizonte e a escuridão pairou sobre o olhar de Jeremy, agora o Rei.
Ascendia assim ao trono Rei Jeremy, O perverso. Não mais para os outros, mas apenas para si.
[...]
O presente se mostrava tão confuso; E assim o era, ele, Rei Jeremy, o Confuso. Se emaranhava diante de problemas comuns, transformando-os em dilemas infinitos. Beirava ao caos por vezes, mas postava-se com dignidade; Sua força era sua fraqueza; Seu olhos castanhos, brilhavam intensamente novamente. Tornara-se um sonhador; Um verdadeiro lunático.
O frio acolhedor do outono lhe trazia a paz; pois dentre tantas quedas, aprendera o valor da vida. E a morte temia; Buscava o sentimento real nos caminhos tortuosos da vida. A lealdade, a amizade, o amor.
Jeremy, Governou á sua maneira; impassível; sozinho.
O coração partiu-se em mil pedaços, sobraram-lhe apenas o vazio;
Quando não lhe restava mais esperanças, fitou de relance pela primeira vez um olhar instigante; E este o dominara desde o primeiro instante. Eram olhos determinados, Olhos noturnos.
Um sorriso adormecido havia tempos brotou nos lábios de Jeremy. E após tantos anos, Jeremy sentira a ferida aberta cicatrizar; Sentiu o peito pulsar tão intenso; tão real.
Era ela, Elise; O primeiro sorriso sincero de Jeremy após tantas quedas. Era ela, sua ascensão.
De lábios dóceis, ardente abraço envolvente; Uma Rainha que governa à sua maneira, ao lado de Jeremy.
Rei e rainha! Destinos cruzados; Destinos incertos;
No amor de amigos; na amizade de amantes.
Eram eles; Rei e rainha, Perversos para si e para todos.
[...]
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