domingo, 29 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Seis - Redenção

Eram olhos esverdeados que se perdiam à mercê de uma cidade quase gigantesca. Cercada pelos arranha-céus e casebres, seu olhar se perdia ao horizonte. Do alto de seu apartamento, recostada à sacada, fumava despretensiosa, respirando lentamente, exalando lentamente a cortina de fumaça.

De pele clara, e olhos incrivelmente belos, sentia a brisa noturna penetrar pelos seus cabelos de um tom castanho claro, mesclado em mechas douradas, estes, que serpenteavam até pouco além dos ombros, escondendo a pequena tatuagem marcada à pele.

Permaneceu ali, submersa à penumbra do aposento, olhando as grandes avenidas, e o movimento quase mórbido de carros que iam e vinham, pelo asfalto negro de uma rotina comum.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha, enquanto um breve sorriso de uma felicidade sóbria, rompia de sua face delicada. Suspirou e gentilmente, entregou-se para os braços que a envolviam calorosamente.

Rodou nos calcanhares e fitou aqueles olhos castanhos, tão intensamente vivos, e incrivelmente apaixonados. Eram olhos de teor sóbrio, que dentre os mais ínfimos pensamentos, naquele instante, transcendia os presságios de uma vida árdua, e após anos, se faziam belos.

Beijaram-se, soberanos à cidade que se erguia à frente. Ela, aconchegada pelos braços do amor de sua vida, ele, absorto nos olhos verdes de seu grande amor, porém, acima disso, distante de seu reino, de sua vida caótica.


Por muitos anos Jeremy fora privado de tal sentimento. Era a paz e a sobriedade. Era o prazer pela vida

[...]

Um sol rubro penetrou timidamente o vitral do quarto. Iluminado pelos vestígios da nova alvorada, Jeremy abriu os olhos, e sorridente, suspirou aliviado. Ao seu lado jazia uma rainha soberana, Sophie, velada por sonhos bons, ainda abraçada ao corpo de seu homem.

A expressão calma de Jeremy tingida em cores de um tom jovem, o rosto envelhecido pelas preocupações cotidianas. Era visível a transformação na expressão do rei. Pelos dias que se seguiram, tais mudanças se faziam ainda mais visíveis. Estar distante de seu reino, era como selar a união da paz em sua vida.

Queria que fosse para sempre. Queria estar ali, vivendo ao lado de sua amada, a vida que nunca tivera. Uma vida simples, longe das barreiras intransponíveis de seus problemas. Desejava ao peso da alma, que aqueles dias se fizessem eternos. Pois assim, seria apenas ele, Jeremy, o homem comum.

Naqueles dias, seu temores, e os princípios de crises, eram apenas meros lembranças vagas, que ainda residiam em sua mente. No entanto, a realidade se mostrava contrária ao abismo de seu reino cotidiano.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Era movido por julgamentos. Nos últimos sete anos, fora apenas instrumento de uma revelação da mente perturbada.

Sóbrio, impassível, racional.

Nos últimos, no entanto,  vivia numa espécie de repetibilidade mórbida. Movia-se quase imperceptível, agindo de acordo com o ritual sagrado das escolhas. A cada ação, múltiplas reações. Para cada reação, uma escolha. Assim o era, assim o fazia.

Uma escolha dependia exclusivamente de seu julgamento antecipado. E dentre o leque de opções disponíveis, sentenciava-se a escolher o que lhe mandava a razão. Em raras ocasiões julgara pelo coração.

No entanto, o momento atual o propiciava a harmonia de alma, mente e coração. Chances reais de se viver intensamente o simples. 

Estava decidido.

[...]

Nos mais severos anos procurara sua metade, o complemente ideal de sua própria alma. Em meio à inocência de uma paixão arrebatadora, encontrara em certo momento, Christie. Dócil, tímida, exigente e passional. O tempo sábio mostrou-se adverso. Os pilares que mostraram-se sólidos, ruíram à medida que as diferenças contrastavam com a realidade apresentada. A cada dia, o que parecia ser um sentimento bom, apenas destoou de todos os outros, e Jeremy viu-se perdendo sua própria identidade. Não mais era Jeremy. Era apenas um homem vivenciando os sonhos de um outro alguém. Preso, acuado,  a iminente queda revelou-se crucial.

Diante de tais circunstâncias, perdeu-se nas linhas temporais do agora, do ontem, do amanhã. Assim viveu intensamente sob o medo que o dominava e o caráter do erro que jamais aceitara. Christie jamais fora sua amiga, e não se dignava a ser seu grande amor. Pois a vida os separava por pensamentos e ações tão distintas, que Jeremy agora entendia a razão de que o futuro, era apenas fruto de uma utopia criada para preencher um vazio deixado pelo tempo.

Uma lacuna a ser preenchida.

Passado o tempo, encontrara numa tal Elise, parte de dilemas indecifráveis. Movido pelo desejo do "desconhecido", viveu por meses, o que chamara de "aprendizado".

Elise lhe mostrara, não intencionalmente, que a vida deveria ser vivida entre o abismo do caos e o céu da redenção. Novamente, Jeremy entregou-se ao desejo irracional. Era o amor pelo impossível. Era o desvendar dos mistérios ocultos em seu próprio ser. 

Dignamente, eram movidos pelo anseio, e entregavam-se às dúvidas, que cruelmente, fiéis aos pensamentos recíprocos, alternavam a distância e o calor dos abraços.

Elise mostrara-se uma mulher liberdade, e Jeremy, acintosamente, tentava derrubar tais paradigmas, mas esbarrava-se sempre no mesmo dilema. O dilema crucial que o fizera escolher à amizade de Elise ao acaso de asas azuis presas por teias egoístas e passionais. 

Fora sua maior lição. Elise nunca fora sua por completo, nem ele à pertencia. Partilhavam de um sentimento que nem mesmo o tempo pôde explicar. Reinavam absolutos, mas a amizade sempre fora predominante, ainda que o desejo recíproco confundisse ambos. Completavam-se nos seus próprios erros, mas eram caminhos opostos. 

Escolhas passadas. O tempo falaria por si. Nos enigmas apresentados, a redenção.

Naquela noite que encontrara Sophie pela primeira vez, em anos, Jeremy tinha a convicção de que o presente se interligava ao passado. Ali, naquele lapso de tempo, de idas e vindas, deveria encontrar uma razão para seguir. No mais remoto e profundo espaço de seu coração, deveria encontrar os vestígios de sentimentos adormecidos. Um complemente para sua alma, na amizade, no amor. 

E assim o fez.

Completavam-se por realeza. Eram sentimentos puros, guardados por anos. Da amizade à paixão. Nos olhos esmeralda que o fitavam com ternura, Jeremy parecia ter encontrado a verdadeira natureza de ser aceito e amado pelo o que era, pelo o que fora. Do primeiro olhar, ainda adolescente, ao primeiro beijo, Sophie guardara para si, a velha foto que Jeremy lhe dera ainda nos primórdios, e por tantos anos, acariciou o presente, como se pudesse tocar a face do jovem rei. 

Estranho, pois, estavam ligados por uma eternidade de anos que moldaram Jeremy. Do menino brincalhão, engraçado, ao homem comedido, impassível e inquieto. Os anos foram apenas um obstáculo para que seus caminhos se cruzassem. Moveram-se por infinitas terras, tão distantes na presença um do outro, e sempre, nas encruzilhadas da vida encontravam-se, e separavam-se instantaneamente.

Dessa vez poderiam viver o que o tempo havia lhes roubado.  E viveriam.

Entrelaçavam as mãos nas noites frias, e o castanho olhar inquieto, com o cintilante olhar esmeralda se beijavam na parcial escuridão. Abraçados, aqueciam-se, deixando os corpos expostos ao calor daquele tempo roubado. Nem mesmo as discussões sem fundamento pareciam querer separar aquelas almas. Destinados à viver intensamente, viveram. 

Se existisse uma explicação racional para o amor, Jeremy finalmente a havia encontrado. 

[...]

O  vento ressoava. Um silvo na noite fria de inverno. O negrume dos céus coroavam o incandescente mercúrio-neon da cidade. Os prédios perdiam aos olhos, a cidade em seu habitual movimento. O ir e vir dos carros, o ir e vir das pessoas. Uma noite comum. 

Jeremy fitou profundamente Sophie. Aqueles olhos esmeralda nunca foram tão belos quanto aquele momento. Iluminados pelo fantasmagórico brilho das velas espalhadas pelo aposento. O dócil amora do incenso, misturado com o perfume de Sophie, fazia Jeremy transcender os limites do próprio universo. 

O Rei sorria.Um sorriso fulminante para si próprio. Ajoelhou-se, e o brilho de seu olhar mesclou-se ao das chamas tímidas, ao próprio brilho de seu interior. Tomou a mão de Sophie para si, e a ofereceu, embrulhado por seu próprio coração, o símbolo de seus sentimentos.

- Aceite-o - disse calmamente, inaudível, porém, forme na voz, e na paz que se instaura em sua mente - Seja minha mulher! 

Sophie sorriu. Seus olhos esverdeados brilhavam mais intensos, e as primeiras lágrimas serpentearam sem pudores por seu rosto delicado, belo.

Apenas um símbolo, simples, sem ornamentos. Mas ali, naquele anel, Jeremy depositara todo o seu sentimento por Sophie. Depositara toda a esperança, toda a paz, e tudo o que o movera até aquele instante. Entregava para ela, não apenas votos para o futuro, não apenas uma aliança, mas seu próprio coração.

- Não poderia desejar o contrário, querido - disse Sophie por fim, com a voz embargada.

Destinos selados. Após o breve ritual, beijaram-se calorosamente, e abraçados permaneceram até que o tempo se perdesse na junção da última peça de uma quebra-cabeças iniciado há tantos anos. 

Seriam parte um do outro, na saúde; na doença; na paz; na guerra, no amor; na amizade.

[...]

Lá fora, um novo dia transcendia ao horizonte. Na sacada, olhos castanhos varriam a vastidão das avenidas, de um brilho intenso há muito oculto. Era o olhar de um homem que há muito buscava a paz.

Naquele momento, nada mais importava, pois diante de suas escolhas, os problemas resumiam-se a meros detalhes informais, que aos poucos, se tornariam apenas vagas lembranças a serem apagadas pelo tempo.

Sentia-se realizado. Sentia-se feliz.

Nada mais importava. Era o suficiente.

[...]

domingo, 15 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Cinco - Aqueles Olhos Esmeralda

[...]

Sob um nublado céu de agosto, ainda no auge do negrume da madrugada, e a ameaça iminente de uma tempestade, aqueles olhos castanhos olhavam confusos o horizonte. De cenho franzido, pelo mau humor que se instaurara naquela mente, o jovem Rei, inspirando e respirando com tamanha intensidade, que por instantes, sentia o peito arfar, dolorido, doentio, mesclados na irritação, na saudade, no cansaço que aquela discussão árdua provocara.

Momentos antes, desencadeara uma série de perguntas e respostas ao telefone, e gesticulando fervorosamente, a discussão assumira um tom ameaçador. E ele, Jeremy, parecia se abraçar ao orgulho, à mania de governar à sua maneira.

No outro lado da linha, Sophie, incrédula pelas perguntas perturbadoras, tentava arduamente fazer valer o próprio orgulho, e com repostas secas, tentava virar o jogo, elevando o tom da discussão, quebrando o silêncio sereno que em algum momento, ali existira.

Lá fora, o vento uivava como uma fera faminta, e se jogava em fúria contra as árvores. Dentro do quarto, a milhas de distancia de sua amada, Jeremy andava pelos quatro cantos do aposente, e de cigarro em punho, gesticulava ainda feroz, até se jogar exausto em sua poltrona, de olhar atônito, inspirando profundamente, e tentando reorganizar as ideias, conforme Sophie contestava os argumentos do Rei.

Por fim, ambos exaustos pelas investidas de seus próprios egos, encerraram a ligação. E novamente se instaurou o silêncio no quarto, exceto pela natureza em constante caos que se formara lá fora.

Ainda sentado à poltrona, Jeremy olhou para teto, buscou no desconhecidos, um abrigo, um sinal de que a paz o abraçaria. Mas nada encontrou, exceto mais uma frustração crescente. Pôs-se em pé, e a passos largos, determinados, abriu a porta do aposento, e enfrentando a ira da madrugada, recostou-se à porta, apagou as luzes, e ainda de cenho franzido, de mau humor instaurado, de olhos marejados, beirando o caos de sua própria mente, sentindo metálico, o gosto de seu próprio ego.

Um ego ferido. Um ego que não se deixava iludir. Era o orgulho, a saudade, a irritação.

Olhou novamente para o horizonte, e não tão distante, o relâmpago  cortou os céus, revelando não somente a ira da natureza em constante modificação, mas também um rei pensativo, de olhos castanhos vagos, apegado ao passado, abraçando os primórdios de sua relação com Sophie.

[...]

Era um época conturbada. Já não bastasse a adolescência um tanto conturbada, Jeremy se via cercado ainda pelas consequências da morte de sua mãe. À época, o então Príncipe Jeremy, em seus habituais vestimentas negras, do qual, não se sabe ao certo se era pelo luto, ou pela rebeldia crescente que o dominava.

Ser diferente era o modo de expressar para com o mundo. Era um jovem de cabelos compridos, trajado por suas roupas surradas, negras. Ainda criança já tivera o prazer e a sorte de interessar pelo Rock n' roll, mas a adolescência se mostrava à imagem de sua preferência musical. Era na música que se fazia valer seus mais ínfimos sentimentos. Da inconsequência, da rebeldia, do amor, do ódio, da arte de se viver intensamente. Assim o era, à época, ele, Príncipe Jeremy, o Inconsequente.

[...]

Dedilhava severamente ao contrabaixo, seu instrumento preferido, e em acordes gritantes, urrava raivoso, sua música, com sua voz grave e cheia de melancolia. "Come as you are" - cantava descontrolado, seduzido pela melodia estridente, pela raiva que emanava.

Naquela pequena garagem fétida de cigarros e vinho barato, reuniam-se seus companheiros. Fora quando, no fim da tarde, jogado à poltrona, ele, Príncipe Jeremy, de cigarro em punhos, e olhar severo, elevou seus olhos castanhos para o brilho esmeralda daqueles olhos tão infinitamente apaixonantes.

Sentiu o coração acelerar, e não soubera, mas de pupilas dilatadas, encarou severamente aquela menina. Encarou-a com seu próprio coração, e o que se seguiu, mudaria para sempre a sua própria história.

Uma bela menina, de olhos verde esmeralda, de sorriso encantador, encarava-o, fitando aqueles olhos castanhos cheios de raiva, mas não mais o era, eram olhos castanhos que brilhavam, embriagados na beleza, e era de um olhar curioso, cheio de energia. Ela sorriu tímida, encarando-o com admiração, e ele por sua vez, de canto de boca, sorriu prazeroso.

Pela primeira vez, Jeremy sentiu o peito pulsar descontrolado, e seus olhos não conseguiam fixar-se em mais nada. Era apenas a bela figura feminina que ali estava.
Era o sabor dócil e perigoso da paixão que o dominava. Paixão à primeira vista. Uma menina que chamada Sophie.

Uma menina que deveria ser sua, e tempo assim o faria.
[...]

Lá fora, o vento cessara. E agora, os céus se derramavam na tempestade que se abatera pela cidade interiorana. Raios rasgavam o véu da noite, e ecoavam por todos os cantos trovões enfurecidos. Era a ira de uma natureza em modificação.

Jeremy novamente se via calado. A ira inicial deixara de existir, e aquela face mais severa, agora era apenas um reflexo de pensamentos que viajavam pelas esquinas do tempo. Seus olhos castanhos, distintos da rebeldia adolescente, cintilavam à imagem de sua responsabilidade. Eram olhos experientes, carregados de marcas, vívidos.

Respirou fundo, e de olhos fechados, deslizou a mão pelos cabelos já pigmentados em branco pelo tempo. Tornou a olhar o horizonte e frustrado, fechou a porta de seu aposento. Mergulhou na cama, e fitando o teto, pôs-se a viajar pelas dimensões de suas memórias.

[...]
Haviam se passado pouco mais de dois anos desde o primeiro encontro. A tentativa frustrada de uma relação, ainda no início, agora se fazia esquecida. Jeremy, ascendera ao trono, e agora intitulado "Rei", encarava novamente aqueles belos olhos esverdeados.

Havia algum tempo que não se encontravam, e naquela noite, obra do destino, obra do acaso, não se sabe, se encaravam.
O coração do jovem rei novamente titubeava acelerado, e seus passos que ecoavam silenciosos, eram os mesmos que um dia lhe fariam correr tantas e tantas vezes para os braços de sua amada. Sophie sorria.

O tempo havia lhe acentuado às curvas, e sua beleza juvenil, agora se espelhava nos primeiros vestígios de mulher.
Face à face, encararam-se. Conversaram por horas. Relembraram o primeiro beijo nunca dado, relembraram a primeira discussão e a separação precoce.

Jamais tiveram a oportunidade de viver naquele mundo, o que escondiam em seus pensamentos.
Ambos se apaixonaram à primeira vista, porém, por pensamentos distintos, jamais fizeram de tais sentimentos, o que a realidade lhes proporcionaria naquela noite. Caminharam velados pelo luar, e frente àquela velha escola, que muitas vezes se encontraram, beijaram-se pela primeira vez. Era o gosto sutil de uma paixão adormecida. Era o sabor indecifrável de um beijo há muito esperado, e os lábios delicados de Sophie se faziam viciantes naquela noite, e assim se fariam por todos os anos seguintes.

Encontraram-se nas noites seguintes, e Jeremy se via fascinado pela beleza de Sophie, enquanto esta, se fazia apaixonar ainda mais pelo jovem Rei. Porém, o destino, mero instrumento brincalhão, separaram os amantes que se fizeram apaixonar naquele fim de tarde, naquela garagem velha, naquele lugar onde olhos esmeralda fitaram os olhos castanhos.
Sophie partiu, para um lugar distante, iniciando a vida acadêmica, o qual, o próprio Rei, consumido pela ascensão recente, pelos estudos, nada pudera fazer, a não ser aceitar o destino.

Aquela menina ainda seria sua, não por alguns dias, mas pela eternidade. O tempo se encarregaria de assim o fazer.

[...]

Jeremy fitou o teto por alguns minutos, e tomado pelo cansaço, respirou pesadamente. Pegou o porta-retratos da mesinha de cabeceira, e olhou fixamente para aqueles belos olhos esverdeados. Era de um brilho diferente de tantos outros que encontrara em sua vida. Era um brilho intenso, sonhador, apaixonado.

Suspirou. Depositou o objeto novamente em seu devido lugar, e tomado pelo saudosismo, mergulhou novamente em sua própria mente.

[...]

Anos haviam se passado desde o último encontro. Havia pouco tempo, Jeremy, o Rei degustara meses e meses de crises intermináveis. Sua sanidade se fazia precária, e durante tantas semanas que se seguiram desde seu rompimento com Christie, e sua primeira crise, sua mente margeava a loucura, quando na verdade, buscava novamente encontrar a sobriedade.

Naqueles dias, o Rei se via perdido nos imbróglios de sua vida cotidiana. Semanas atrás, sua então parceira e amiga, Elise, decidira deixar a cidade. E naquelas circunstâncias, Jeremy se via absorto na perda iminente de sua cura.

Elise havia se tornado mais que uma amiga, era seu porto-seguro, era sua salvação. Mas sua decisão final se tornara a própria decisão de Jeremy.

A vida deveria seguir.

Naquela noite, Jeremy caminhou pela velha praça. Sozinho, observava o grande número de indivíduos desconhecidos. Uma grande multidão se fazia barulhenta. Aproveitavam a final de semana que havia chegado, e longe da rotina cotidiana, conversavam a todo vapor, riam e faziam algazarra.

- Malditos bêbados - pensou o rei.

O cansaço, os problemas e os pensamentos ágeis sufocavam o Rei. Sentia-se exausto pela constante turbulência de sua vida. O relacionamento frustrado com Elise, as crises, as intermináveis papeladas burocráticas, o faziam um homem solitário, frustrado, submerso no mau humor, no desgosto pela vida.

O tempo havia mudado o jovem Jeremy. De menino sonhador, tornara-se um rebelde, e agora, jazia um homem feito, porém, refém de sua própria amargura. Parecia destinado à romper-se em crises intermináveis. Passara os últimos anos envolvido em quedas e ascensões. E não eram poucas as cicatrizes.

Apenas sentia falta dos tempos pacíficos. Sentia falta dos tempos onde eram os problemas apenas vagões de um trem que não tardaria em partir.

A noite se fazia aconchegante. O outono, pouco se fizera frio, exceto por alguns dias onde as noites gélidas se abateram pela cidade interiorana. A brisa fresca da noite, mesclada nas luzes mercúrio e no luar pálido, davam à cidade, um aspecto tranquilo. Mas a mente do jovem Rei assim não se fazia. Tomado pela súbita irritação, decidira retornar para seu lar. Lançou um último olhar para a multidão, e tomado pela surpresa, se conteve, incrédulo.

Os anos haviam lhe acentuado ainda mais a beleza. Deslizava com elegância, à passos firmes, e sorria, como se a vida lhe fosse um sonho bom. Fitava Jeremy com aquele belo olhar esverdeado, sonhador, tão cheios de ternura e paixão.

Durante todos aqueles anos, Jeremy sempre soubera que aqueles olhos lhe observavam de uma forma diferente, nunca presenciada pelo jovem rei, e naquele momento, se via embriagado no sentimento há muito adormecido. Era ela, tão e somente, Sophie, a antiga paixão de rei Jeremy, a menina de olhos esverdeados, a mulher que o tempo se encarregara de trazer para o jovem Rei.

O silencio reinou absoluto. Não se fizeram palavras dispersas, não se fizeram questionamentos, apenas um abraço apertado, absoluto, cheio de vigor, emanando sonhos, desejos. Os olhos se encontraram gentis, e cintilantes à luz de um luar pálido, fecharam-se lentamente, dando lugar aos lábios que se encontraram apaixonados.

- Fique comigo - disse ele, com voz rouca, embargada na emoção, sentindo os olhos lacrimejarem

- Nunca te abandonei - responde Sophie, serena, em tom apaixonado, abraçando-o calorosamente.

Um abraço que se fizera eterno. Seria este o abraço mais reconfortante de suas vidas.

[...]

A chuva cessara havia poucos minutos. Jeremy novamente se via deitado à cama, pensativo. Da irritação, fizera a melancolia, e agora, jazia um rei absorto na saudade. Sophie, distante estava, e a discussão que a pouco se estabelecera, apenas mostrava o quanto Jeremy sentia a falta de sua amada.

De celular em punho, Jeremy ouviu aquela voz dócil, porém, triste.

- Apenas me desculpe, meu anjo - dizia o rei, em tom arrependido - Entenda - continuou o rei, tomado pelo sentimento crescente - existem momentos, onde iremos nos fazer tão próximos, tão distantes...

Fez-se um breve silêncio, como se ele procurasse palavras.

- Estar contigo, não é apenas estar ao lado de uma mulher qualquer. É estar diante de minha melhor amiga, minha companheira, a mulher de meus sonhos - fez se outra pausa, e então Jeremy concluiu - É estar ao lado do meu grande amor.

Milhas dali, Sophie chorou silenciosa, e se fez aparecer um sorriso em sua face. Apenas uma discussão, pensou.

- Sinto sua falta, meu bem - disse ela, quebrando silencio que ecoava por milhas e milhas.

- Sinto o mesmo - concluiu Jeremy.

Lá fora, a lua transcendia as nuvens negras. E as primeiras estrelas emergiam sob um céu carregado. Um novo universo se revelava sobre a cidade. Mais algumas horas, e um novo dia romperia ao horizonte.

O silencio novamente se estabelecera no telefone. Com olhos marejados, e coração apertado, Jeremy sentiu uma enorme onda de tristeza e alegria se abater sobre o seu ser. Era a tristeza de estar tão distante daquela jovem mulher, e a alegria de poder dizer o que há muito gostaria.

- Sophie, meu amor... - hesitou por segundos, mas na verdade, não mais queria hesitar, queria gritar ao mundo, queria sentir esse sentimento pela eternidade.

E então concluiu.

- Eu te amo!

Em um reino distante, uma mulher de olhos verdes, sorriu, como nunca sorrira antes. Sentiu-se reconfortada por palavras tão distantes, sentiu um abraço apertado a envolver, invisível, a milhas dali, tão incrivelmente cheio de amor, tão incrivelmente protetor.

- Também, amo você, Jeremy!

Era apenas o início de uma história que se fizera adormecida por tantos anos. Era apenas o desejo de seres que há muito se faziam amar, e serem amados.

[...]

sábado, 7 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Quatro - Deus Abençoe o Rei

[...]
Diziam as histórias, distorcidas ou nem tanto. Eram um casal ainda no berço do enlace, à espera do primeiro filho. Ela, uma bela dama de olhar cintilante, olhos da cor do mel, cabelos encaracolados, baixa estatúra. Ele, um rapaz com pouco mais de vinte e cinco anos, de olhar severo, sombrancelhas espessas, cabelo escuro e barba grossa. Governavam e se deixavam governar.

A vida árdua, e os dias difíceis os envolvia à mercê daquele universo pequeno.
Naquela manhã, uma manhã fria talvez, não se sabe. Ela urrava envolvida nas primeiras contrações, ele, agitado, andava de um lado para o outro, preocupado com o futuro de sua esposa, preocupado com a chegada de seu herdeiro. Horas e horas intermináveis, se passavam, se faziam infinitas. Um dia inteiro, um dia diferente, o sexto dia do mês, o oitavo mês daquele ano.

Um parto que deveria se fazer simples, aos poucos se complicava. A mãe, envolvida em dores, sentia o peso de carregar a dom da vida dentro de si, e sua própria jazia em risco. O pai, recostado ao carro, fumava seu cigarro, com mãos trêmulas, olhando o relógio, o horizonte, queria estar lá, ao lado de sua amada, porém, impedido pelos médicos, agitava-se ao som da cidade grande.
Um mundo inteiro o esperava, um universo para se governar.

Naquela noite, pouco minutos antes das vinte horas, um choro agudo quebrara o silêncio. Uma voz forte, para uma criança tão frágil. Obscuros os fatos, eram gêmeos, mas apenas um deles com vida.
Jazia ali, nas mãos do médico, frágil, longe de seu reino, longe dos anos o qual estaria diante do próprio trono, ele, à época, Príncipe Jeremy.

Apenas uma criança, no berço de sua jornada. No berço de sua ascenção.


[...]

Jeremy, o Rei, olhava para o asfalto que se projetava à frente. Ao volante de seu carro, guiava, absorto pela música alta, e com seus óculos escuros, protegia-se do sol cintilante que ascendia ao horizonte. E nos labirintos que se formavam às ruas, se via forçado à encarar outro dia de sua rotina burocrática. Mas por lapsos, via-se submerso nas lembranças de sua própria existência...

"... era aquele o seu pequeno universo. Lugar o qual crescera, e distinto de tantos outros seres que ali residiam, governava à sua maneira. Nunca fora uma criança comum. Ainda aos oito anos de idade, Príncipe Jeremy se jogava à calçada de sua antiga casa, olhava as estrelas no céu, e fascinado pela vida daquele universo intocável, questionava a existência de vidas além daquele pequeno mundo o qual vivia.

Sua inteligencia, e sua curiosidade o faziam ser um menino sonhador, ousado. E diferente das crianças de sua idade, misturava-se com crianças mais velhas. Sua opinião, por mais árdua que se apresentava, era como um tapa na cara das crianças mais velhas, o que para Jeremy, o Príncipe, era motivo, por vezes, de voltar para casa com o nariz sangrando.

De gênio forte, opinião formada, não abaixava a cabeça em discussões, porém, para uma criança da sua idade, eram temas que lhe fugiam à realidade.

Dentro de seu lar, alternava entre bons e péssimos momentos. Havia um pai ausente, e uma mãe dócil. Seu pai, um alcoolatra, porém, atencioso, quando assim queria, vivera uma vida inteira dedicada ao trabalho, o que fizera dele um homem ausente.

Era um homem silencioso. Com traços fortes, porém, em seus lapsos de figura paterna, era dócil, carinhoso. Um homem cujo objetivo de vida fora dar as melhores condições de vida para a família, mesmo que isso significasse morrer trabalhando.

A mãe, por outro lado, figura dócil, afetiva. Alternava entre a vida doméstica e os cuidados para com os filhos. Era exemplo como mãe e esposa. Vivera sua vida para satisfazer a felicidade de seus filhos, do marido. Disposta, alegre, por vezes, esbravejava com Jeremy e sua irmã, Kathy.

Era uma família comum, dentre bons e péssimos momentos, viviam unidos, viviam suas próprias utopias."

[...]

Era aquele o seu dia. Completava-se mais um ciclo em sua jornada. Do nascimento aos dias atuais, passaram-se pouco menos de vinte e cinco anos. E agora, Rei Jeremy, o Perverso, entre o estado caótico de sua mente e a as realizações pessoas, a vida girava em torno de recuperar nos pilares do tempo, a paz, a sobriedade, a cura para suas cicatrizes. Mais um aniversário, e eles, pai, mãe, e tantos outro entes queridos ali não estariam presentes.

De seus vinte e poucos anos, agora restavam lacunas em todos os cantos. Aquela cidade, aquele reino, vazio se tornara. Desde a morte da mãe, em todos aniversários, chorava sozinho, sentindo o peso em seus ombros. Com a morte do pai, a dor se intensificara, e naquele dia não seria diferente.

Sentou-se à cama, calado, e sozinho, e chorou. Era o vazio que há muito se estabelecera na vida cotidiana. Sentia falta de todos os momentos, bons, péssimos. Mas sentia a falta daquele colo de mãe, e daquele abraço paterno.

Aquela criança ousada, sonhadora, com sua incrível mania de defender sua própria ideologia ainda residia naquela mente sufocada. Mas o tempo roubara sua inocência. Era um homem feito, com fios brancos de cabelo espalhados pelo topo da cabeça, e que nos ultimos tempos, se faziam presentes à barba também.

Sua expressão se tornara mais dura, impassível. Mas ainda existia ali, um coração puro.

[...]

Aquela oitava noite de agosto se fazia congelante. E dentre risos, dentre conversas altas, Jeremy se via cercado pelos famíliares, pelos amigos, por sua amada.

Todos reunidos, sentados em vários pontos da casa. Brindavam mais um ciclo do jovem Rei. E ele, sorridente, agradecia aos céus por mais um ano. Agradecia por estar novamente ao lado de tantas pessoas queridas. Por vezes, olhava para alguns assentos vazios. E se consumia em tristeza. Eram as lacunas herdadas de sua própria existencia. Mas, recuperando as energias, se via sorridente novamente.

Aquela cidade, aquele reino, aquele pequeno universo nunca fora tão vazio, mas de todos que ali se ausentavam, Jeremy sentia-se honrado por estar ao lado daqueles que ali permaneceram.

Ali estavam aqueles cujas histórias se reuniam à de Jeremy, e naquela noite fria, celebraram. Gargalhavam com as lembranças, e se aqueciam conforme a temperatura da noite caía bruscamente.

Existiam lacunas deixadas, e essas não se fariam preenchidas. Mas sempre existiriam amigos ao lado do jovem rei. E para Jeremy, isso era necessário.

[...]

As festividades haviam terminado fazia pouco mais de uma hora. Jeremy, olhava o ambiente vazio. Ao seu lado, restava recostada ao seu ombro, sua amada, Sophie. O Rei ainda mantinha o sorriso. Beijo-a com ternura. Sentia-se feliz por não estar só naquela noite. Sentia-se feliz, por não estar sozinho naquele universo o qual governava à sua maneira.

Deitaram-se, e abraçados, dormiram pacificamente. Sonhara com seus pais, com seus amigos, com sua amada. Se a vida lhe mostrava lacunas, em seus sonhos, em seus pensamentos, a vida se completava.

Acordou na manha seguinte, beijou Sophie, e sorriu.

- O que tiver que ser, será - falou baixinho para si.

Olhou pela janela do quarto, e um novo dia se fazia belo lá fora. Era o início de um novo ciclo. Era o início de mais um ano em sua jornada.

Ao lado de seus amigos, seus familiares, sua amada, Rei Jeremy iria caminhar, mesmo que caísse pelo caminho, mesmo que se fizessem lacunas, iria continuar, até que ele próprio se tornasse uma lacuna naquele universo

Mas no fundo, desejava viver por mais cem anos. Pois dentre bons e péssimos momentos, sentia-se feliz por ter conquistado um mundo para si.

[...]