quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo - Trinta e Três - Novos dias de tempos passados


Pilares sólidos, que se fazem caídos nas ruínas do tempo. Ele fixa o olhar no horizonte. Suspira e seus olhos se tornam cristais cintilantes, de um brilho escarlate. De sobrancelhas arqueadas e testa franzida, ele novamente suspira. Sente o ar preencher os pulmões, sente as mãos estremecerem e, em sua concha solitária, com seus braços erguidos em V, ele olha fixo aos céus. As lágrimas que se formam, não cascateiam pela sua face rígida.

Ele cobra de si mesmo uma razão para continuar. E ele sente a própria ira corromper seus pensamentos. Os braços pesam toneladas, e a mente viaja através de pensamentos, memórias, desejos e ilusões.

- O que quer de mim? - Ele grita, aos céus, de voz trovejante, sentindo a ira crescente, sentindo o peso da própria alma.


Sua voz soa como um desabafo, e ele se vê solitário naquele mundo cinzento.

- Quer que eu me ajoelhe? - novamente ecoa sua voz em fúria

Ele sorri com malícia. Seu olhar agora não mais se faz inocente. São olhos demoníacos mostrando ao mundo que ali habita um ser racional, marcado por cicatrizes sangrentas.

Ele se joga ao chão. Ele se curva diante dos céus, e suas sobrancelhas arqueadas, seu olhar malicioso, desafiam divinas profecias.

- Até quando, meu caro? - ele urra, sentindo à boca o gosto de sangue.

O silêncio pairava. No horizonte, não mais se fazia presente a figura daquela bela figura de asas azuis. Apenas o vazio.

Elise não mais fazia parte daquele universo.

Jazia ali, um homem, curvado diante do próprio destino. Diferente do rei de outrora, ele se faz soberbo, e soberano, governa à sua maneira.

Assim o é, ele, Rei Jeremy, o Perverso.

[...]

Dias vem, dias vão. Noites em claro, e o cansaço que o consome. Mesclado na incerteza e nas crises que insistem em despertar do sono profundo, Rei Jeremy novamente se vê diante dos tremores e temores. Uma noite qualquer, ele se joga à cama. Deitado, saboreia os prazeres indescritíveis do último cigarro da noite.

Olhando fixo o teto do aposento, fecha os olhos e desvencilhando dos pensamentos, se joga ao sono iminente, mas este parece relutar. Inexplicavelmente, sente o coração romper abraçado à ansiedade. E lapsos de uma crise de pânico se revelam. Ele se irrita com o acontecimento, e diferente das crises anteriores, apenas preenche a mente com seus pensamentos positivos, e em poucos minutos novamente se vê um homem jogado à cama, com sua irritação habitual, com seu interminável questionário.

- Até quando? - resmunga, em tom de desaprovação.

Derrotado pelo cansaço, ele dorme impaciente. O ritual se consagraria nos dias intermináveis futuros. Noite pós noite, ele estaria jogado à mercê de sua irritação, de seu cansaço costumeiro, de seu desejo que um novo dia quebre a maldição que a noite lhe proporciona.

Assim o é, Jeremy, o Impaciente.

[...]

Outro pôr-do-sol finda o dia. Jeremy se joga exausto à cama. Semana pós semana ele se vê acuado pela rotina surreal. Seu olhar cintilante de outrora não mais se faz presente, dando lugar à um olhar cético, em tom de desaprovação.

Ele não sorri. Ele não chora. Corrompido pelos pensamentos, Jeremy se mostra um homem frio, impassível, triste. Ele sente falta dos velhos tempos, e se vê saudoso pelos crepúsculos que nos meses de outono foram como um refúgio para seus pensamentos.

Seu corpo castigado pelas semanas que sucederam a partida de Elise se mostrava exausto, porém, seus pensamentos voavam, e dentre pensamentos e memórias, ele se via acuado. Tomado pelo cansaço, ele adormecera, mas em questão de poucos minutos, sua mente o despertara.

Apenas um corpo exausto, apenas uma mente que insiste em equalizar experiências fortes.

Assim o é, Ele, Jeremy, O rei exausto.

[...]

Diante do espelho, Jeremy fita sua própria imagem. Um homem envelhecido nas semanas que se passaram. Suas olheiras tatuam a imagem de um rei derrotado, ele suspira descrente. Induzido pelo orgulho, não admite estar em iminente queda. Não aceita estar se entregando à insanidade. Ele reluta, e quando o ódio parece consumir suas energias, desfere um golpe certeiro ao espelho. Estilhaços se projetam ao ar e se chocam com aquela figura decadente.

O sangue rompe de seu punho, e por incrível que pareça, seu rosto se faz ileso. Ciente da realidade que o cerca, ele sente a visão escurecer, e os joelhos se curvam, pesados.

Jeremy se vê caído. Sem forças para se reerguer, sem sua soberania suprema para o proteger.

Pela primeira vez em dias, ele chora, aos soluços, ao desespero. E, tomado pelo irracional, sua mente se projeta nos anos que antecederam tal situação.

As quedas, as feridas, Christie, Elise, crises... pânico.


Apenas um homem caído ele o é.

[...]

Os meses vão se lentamente, e Jeremy se vê solitário, sentado na velha praça, onde outrora costumava jogar conversas foram com seus velhos companheiros. Consumido pelo desespero, pela tristeza, ele apenas fita a velha avenida que corta a pequena cidade interiorana.

Desviando o olhar, ele projeta o olhar ao solo, e ali permanece. Silencioso, temeroso, descrente.

- Dê-me uma razão para seguir - divaga, com voz rouca - Dê-me um motivo para encontrar minha própria felicidade!

E quando o silêncio parecia ensurdecedor demais, uma mão postou-se ao seu ombro. Uma delicada mão feminina, há muito conhecido pelo jovem rei.

Ele fita a figura feminina, e sorri tristemente.

Olá, querido - diz ela, com voz suave, com um tom apaixonante.

Jeremy se levanta, e sem perceber, joga-se aos braços da bela jovem.

- Diga-me que tudo ficará bem- diz ele, com lágrimas nos olhos.

- Cuidarei de ti - respondeu ela, com sinceridade no olhar, com ternura emanando de sua essência.

Ele novamente sorri, dessa vez, tomado por uma forte sensação de paz. Beijou-a apaixonadamente, e pela primeira vez em semanas, sentiu que ainda existia naquele universo cinzento, uma razão para prosseguir.

Estavam juntos havia algum tempo, mas somente naquele momento percebera que aqueles belos olhos esverdeados lhe traziam a paz que tanto buscava.

De mãos dadas, partiram. Ela recostada ao ombro de Jeremy, e ele, ciente de que fizera a escolha certa. Mesmo que suas crises o fizessem duvidar de suas próprias escolhas, o rei estaria ao lado de uma mulher que o amava pelo o que ele era, e ele, pelo o que ela representava em sua vida.

Uma paixão antiga, uma amizade suprema, uma relação que se estabelecera havia anos.

Assim o era, ele, Rei Jeremy.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Dois - Au revoir, Elise

[...]

O fim da história anunciou-se ao pôr-do-sol. 

Jeremy olhou profundamente o vazio que se formara a sua frente. Ensaiou uma cara de dor, franziu a testa e se conteve. Respirou fundo e olhou novamente para o vazio.

O vazio da alma. Estabelecido naquela casa vazia, nos cantos empoeirados, na velha cidade. 

Jamais  fora tarefa simples. Da revelação à aceitação, Jeremy relutou até que sua razão prevaleceu. Aquela angustia crescente era apenas momentânea. No fundo, ria e desesperava-se, ainda brigava com o próprio coração. Ansiava por aquelas reviravoltas onde o dia não passasse de um pesadelo, e que no abrir de seus olhos, tudo voltaria ao normal. 

Os dias passaram-se como se um segundo equivalesse a uma década. Consolidava-se o momento de fitar aqueles belos olhos noturnos. Estranho, pois a distância que os envolvera naqueles dias fazia-se pequena comparada à distância que os envolvia no presente. 

Era dado o momento. Jamais tocaram no assunto desde então. A despedida era o ato final para aquela história. Raramente foram vistos juntos naqueles dias. Mas ali, no aposento vazio, juntos estavam. Olhares cintilantes, silenciosos, sentindo o calor dissipar.

Governariam aquele universo pela última vez.

[...]

O tempo moldara Jeremy. De medroso, tornara-se um lunático que entre a tristeza e a loucura, se tornara um perigo para si. No início, apenas estranhos um para o outro. Jeremy em seu cotidiano burocrático fixava o olhar na jovem mulher de olhos noturnos, cabelos dourados. Tão bela, tão diferente. De fala soberba, delicada. 

À época, o declínio de seu relacionamento com Christie era irreversível. Dia pós dia, o futuro deixava-se morrer sufocado pela perda da identidade do jovem rei. As intermináveis discussões, a obsessão de Christie, à ruína de uma mente promissora. Deveria ele encontrar uma nova razão para manter-se vivo. 

Assim o fez.

 Na sua agonia por tempos melhores, se via cercado pelos demônios de sua mente, a paz só se fazia presente na imagem sólida de Elise à sua mente. Era Elise que o pacificava. Encontrara na figura de Elise, não somente uma menina intrigante, mas uma amiga, uma conselheira, uma companheira que o seduzia com seus desejos de liberdade.  

Jeremy, o Perverso jazia na eterna busca pela felicidade que tardava em se tornar real. Com o passar do tempo, Christie saía da vida de Jeremy, pela porta dos fundos, guardando para si o rancor, o ódio. O rei começava a busca por sua identidade perdida, e por diversas vezes, via-se à encarar Elise.

[...]

Numa tarde de segunda-feira, olhara fixamente para os olhos de sua cura, sua doença. Era ela, Elise, Asas azuis.

- Arrisque-se, Jeremy! dizia ela.

Jeremy sorria. Havia algo muito forte que os unia. Era um sentimento que se misturava na amizade, na paixão irracional que agora abraçava o rei.

O silêncio feria Jeremy, o fazia sangrar.

Numa noite de quarta-feira, tentara traduzir em palavras o que sentia, sua voz soou rouca, trêmula, assim como suas mãos que tremiam recostadas às pernas. Respirou fundo, desviou o olhar ao horizonte rubro, e deixou o silêncio ecoar.

A noite chegara e com ela, o desejo de Jeremy o corrompia. Passadas largas pelo quarto, cigarro em punhos, olhava estupefato para as paredes, precisava expurgar de si aquele sentimento, precisava encontrar um modo de traduzir em palavras, o que sentia por Elise.

Sentou-se ao computador, abriu o editor de textos. E naquele momento encontrara no seu dom principal, uma maneira de expressar-se:

 "Ela, e tão somente ela, de essência rara; e por rara, diz-se comum nas Flores dos jardins dos Deuses. Vêm diante à minha presença, ora mórbida, ora relutante; dosando paz e risos que ela, e tão somente ela poderia proporcionar-me. Diante de tal figura, sinto-me reconfortado. E mesmo que Deus, o Onipresente Role os Dados, e Einstein, o Sábio não se importe com as chances, aclamarei por ela, meu profundo desejo de Navegar pelos Mares do Sol. Elizabeth, flor-de-lís; 'Elise', flor-de-lís dos Jardins de meu Éden. Tão somente minha, e inegavelmente de si própria. De plena juventude eterna; Eis que lhe ofereço palavras, e por palavras, digo presságios de destino incerto; Caminhos no qual, trilharemos sob a luz dourada e céu vasto; Diante de ti,Oh, 'Elise', ofereço minha essência ferida, mas de alma purificada".

Essência ferida, mas de alma purificada. Assim o era, ele Jeremy, o Excêntrico. Governara a sua maneira. Era apenas o eco de um coração que pulsava vibrante aclamando um ode à Deusa que revelara-se na figura de Elise.

[...]

"Governariam aquele universo pela última vez".

A real história de Jeremy e Elise começara numa segunda-feira, e quisera o destino findá-la  de igual forma. Sentados à poltrona, Elise mostrava-se inquieta, receosa pela concretização de suas escolhas. A voz agonizava em palavras desencontradas, e medo brilhava expressivamente nos olhos âmbar.

- Afastei-me de ti para não sofrer.  disse ela, por fim. 

Jeremy acenou em concordância.

- Eu sei - respondeu pacientemente, com o olhar fixo nas próprias mãos - descobri dias atrás, mas evitei mudar as coisas. Sacrifícios são necessários. Sua felicidade é a minha própria. Não poderia  tirá-la de ti por egoísmo. Era mais simples que meu silêncio falasse por si.  

As mãos do Rei tremiam, e o nó em sua garganta começava a sufoca-lo. Queria gritar; chorar; romper a razão imposta e alimentar novamente esperanças incertas para tê-la em seus braços.

Apenas queria dizer: Não vá. Há um mundo inteiro de possibilidades. Viva ao meu lado os seus próprios sonhos. 

O desespero internamente falava por si, mas de sua boca, nenhuma palavra fora proferida. Havia decidido que o futuro não mais lhe pertencia.

Palavras sufocadas no berço da fala. Respirou fundo, e sentiu a dor de mil agulhas perfurarem seu coração. Abraçou-a. Um abraço terno, sincero, arrebatador. Sentiu o perfume lhe nocautear. Ela, ao seu turno, recostou-se reconfortada nos ombros do Rei. 

Novamente, o silenciou falou pelos dois.

Os últimos minutos de uma história bela.

Os olhares se cruzaram confusos, marejados, místicos.

[...]

Aqueles olhos castanhos, ora vívidos, ora amedrontados, estaria diante de infinitos pores-do-sol, o qual a cada dia proporcionaria ao jovem rei sabores e dissabores distintos. Os meses se arrastariam sublimes, e à medida que o tempo se fazia longo, Jeremy criaria uma fantasia de si próprio, vivendo ao lado de sua amada, Elise, um futuro incerto.

Sonhos não concretizados.

Diferente de todas paixões irracionais, Elise tinha uma essência incomum. Era mulher livre, era menina delicada, era uma exposição de ideias e idolatrias o qual dominavam Jeremy, e ele se veria frustrado por noites e noites. Pelo silêncio que o envolvia, pelo medo irracional de perder Elise. Romperia em crises intermináveis, olhando pela janela, saboreando cigarros e mais cigarros, fitando mentalmente aqueles olhos noturnos, aquela liberdade o qual ele jamais tivera.

Jeremy nunca fora homem livre. Sua ascensão precoce ainda nos anos anteriores lhe fariam ser um homem forte, que governaria à sua maneira. O mundo se fazia um mero espelho de sua própria ignorância. Estaria ele, por vezes à mercê da própria força. Frio, impassível, racional. Assim fora, ele, rei Jeremy. Um reflexo de suas próprias cicatrizes. Apenas a imagem de um mundo corrompido pelas dores e pela injustiça.

Forte para o mundo, fraco para si. 

Ao lado de Elise, entretanto, se fazia forte para si próprio. Buscava nas próprias dores, uma razão para a própria existência. O sentimento por Elise corrompia a escuridão que o envolvia. Aos poucos, dissipava-se a névoa densa e cintilava ao horizonte, um sol rubro, vívido, acima de um campo verde esmeralda, onde bailavam borboletas azuis, onde o belo era possível.

[...]

Para trás ficara a casa vazia. Naquele momento Jeremy sentiu o peito comprimir numa dor aguda. O que parecia ser apenas um pequeno lapso de insanidade, agora se fazia real. Elise realmente partiria. Para não mais voltar, para longe daquele cantinho, daqueles pores-do-sol, daquela casa, daquela cidade.

Rainha Elizabeth enfim iria viver sua própria liberdade, seus próprios sonhos.

Olhos castanhos e olhos noturnos se fitavam pela última vez. E os braços que envolvera Jeremy por tantas vezes, agora o agarravam forte. O Rei retribuíra o gesto, e envolvendo Elise em seus braços, apertou-os, para nunca tornar a abri-los.

- Sentirei tanto a sua falta - dizia ela, com voz suave, saudosa.

Jeremy sorriu triste. Os olhos marejaram. Formou-se um nó na garganta.

- Também sentirei a sua falta, meu anjo - dizia ele, sem saber exatamente o que dizer - Você não sabe o quanto!

Um sorriso gentil se fez aparecer naquele belo rosto de menina. Um sorriso para jamais se esquecer. Um sorriso que por tantas vezes encantara rei Jeremy.

- Nunca deixe de escrever - disse ela.

Ele assentiu.

Elise se aproximou e os olhos se encontraram, beijou-o docilmente à face, e ele novamente se viu fazendo cara de dor.

- Arrisque-se, Jeremy - ecoava a voz de Elise em sua mente. 

Jeremy, tomado pelo impulso, pelo desejo, abraçou-a ainda mais forte. Convicto, beijo-a calorosamente. Os lábios tocaram-se pela última vez. Agridoce. Tão incrivelmente dócil, e maldosamente amargo. Elise chorou silenciosa. 

Separaram-se, e seus olhos se encontraram pela última vez. O mundo deixara de girar, e a noite mostrou-se ainda mais escura. Caminhando lentamente, jamais olhou para trás, jamais volto para os braços de Jeremy. Para seu universo paralelo, Elise partiu.   

Era o fim.

[...]

As mãos já não mais se faziam trêmulas naquele instante. O brilho de seu olhar confuso se misturava ao luar tímido que rompia severo ao horizonte. Apenas se ouvia o som de seu coração. Era de uma melodia triste. Era um pulsar lento, como se partido em mil pedaços, relutava em sobreviver à realidade que se fazia presente.

No momento em que Elise partira, Jeremy se viu cambaleante, sufocando pensamentos que se misturavam às sensações distintas. A mente sucumbiu à loucura, ao tempo em que a sobriedade o envolvia. As palavras ecoavam gritantes em sua mente, e sua boca não se movia. Os pés caminhavam bêbados, enquanto o corpo se fazia petrificado.

Não dissera uma única palavra. Não fizera nada para mudar o destino. Temia misturar paixão e razão, e por aceitação, preferiu acreditar que nada que pudesse fazer, iria corromper o presente que se apresentava.

Caminhou silencioso. Em sua mente, pensamentos e lembranças vagavam, tão cheias de vida, tão cheias daquele amor que sentia por Elise. Ecoavam palavras o qual não pudera mencionar...


"... Governamos à nossa maneira. Do açúcar ao sal, fizemos os sabores que nem mesmo os beijos puderam decifrar. Era um gosto diferente, de paladar sutil, de aroma forte, que nos embriagava, que nos fazia bailar, ao som que ecoava nas noites frias.
Assim reinamos. Como pessoas tão distintas, no irracional, onde propusemos a viver intensamente algo que nem mesmo as palavras mais belas poderiam descrever. Eram palavras que se perdiam no medo, mas se encontravam na arte de viver. Era dócil, era supremo.
Fomos soberanos. Na dor, no paixão. Sentimento, este, que me fazia acordar sufocado, pensando numa bela mulher de asas azuis, voando livre pelas ruas, sorrindo, e encarando a vida com toda essa essência de eterna jovem.

Não somente admirei essa mulher. Mas a desejei com todas as forças reunidas em meu coração. A vida me fizera abraçar mentiras que me machucaram, e as cicatrizes não foram poucas. Mas Elise me fizera abraçar a realidade, e aceitá-la como tal, fosse amarga ou dócil.

São esses encontros e desencontros que me movem. Uma vida inteira em poucos meses. Palavras não traduzidas. Apenas o silêncio. Deixei de abrir fielmente meu coração, pois desnecessário seria. De alguma forma ela saberia. Palavras poderiam me trair, as nunca um olhar. Um olhar não mente.

Devidamente mencionado, o último olhar dissera o que as palavras não conseguiriam, e naquele ultimo segundo, quando os olhares se cruzaram pela última vez, o olhar castanho de Jeremy apenas dizia: 

- Você é parte de mim, e sempre será.

Era o necessário.

[...]

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Um - Yin & Yang

Arranha-céus que se erguem sob a tediosa paisagem de pedra. Sentado às escadas, um homem, cujo queixo se apoia às mãos, observa a sintonia da natureza mórbida.

Reino sólido, governado à sua maneira. Sob princípios, valores, muralhas e sorrisos. Vozes que ecoam nos becos, e cores que ilustram um cenário diversificado.

Sorri distraidamente, mas rapidamente, vê-se novamente em seu mundo real. Aquele mundo que está sentenciado à governar.


[...]

Os meses seguiram inalterados. Jeremy relutava em preservar o silêncio que se estabelecera. Por vezes, temia quebrá-lo, e punia-se mentalmente por tal conduta. Não queria colocar tudo à perder. Conquistara muito até aquele momento. Um palavra mal colocada, e as edificações de seu universo poderiam ruir.

Assim o era e sempre o fora. Com seus dilemas imponderáveis, que na construção da narrativa de sua própria história, mostrava-se que o bem e o mal eram apenas linhas tênues que dividiam a mesma esfera. Yin & Yang.

Jeremy moldara-se no receio, e repetidamente, o receio estaria estampado na sua jornada. Como um vício de linguagem, as palavras não se alternavam, nem os sentimentos. Inicialmente, apenas um homem só, receoso quanto a própria existência. Viera Christie, e seu mundo já fadado à tragédia, tornou-se puro caos na essência. 

Correto afirmar, Christie fora o apenas último golpe, o nocaute. Jeremy apanhara muito na vida. Ascensão e queda. Um trono para governar; o peso de um mundo sobre suas costas.

Conquistara a força, e traído por ela, caíra em desgraça.

[...]

Doente, insano, perverso. Assim o era, Rei Jeremy. Dono de si, e senhor de ninguém. Um desequilíbrio na ordem do universo. Diante do espelho enfrentava seu próprio inimigo. Sua própria doença.  Dissipavam-se as noites de sono, erguiam-se as madrugadas de terror.

A maldição recaída sobre seus ombros começara a se transformar com a introdução de Elise em sua vida. Era estranho como uma mulher podia equilibrar e desequilibrar a fiel da balança, e por motivos certos ou errados, Jeremy gravitou pela força arrebatadora de Elise. Como se puxado pela correnteza, Jeremy afogando-se nos desejos e no brilho daqueles olhos noturnos.  

Era ela, e tão somente ela, o motivo para que o jovem rei prolongasse seus dilemas. Razão e coração em conflito. 
 
"Arrisque-se, Jeremy!" - Dizia ela em diversos momentos - "Arrisque-se!".

Jeremy assim o faria. Arriscar-se-ia, sem temores, sem discernir o sensato, o perigoso, o correto.

[...]

O silêncio o afastara. Jeremy se arriscara quando deveria pregar a cautela. As feridas expostas de sua vida sangravam demasiado recentes, e para o rei, apenas Elise o motivava a seguir adiante. Ela o fazia ver o mundo sob um olhar diferente. Como um homem que busca na fé o entendimento da vida, o rei buscava em Elise, algo que trouxesse razão para sua própria existência.

Os diálogos ao pôr-do-sol das inúmeras tardes sempre o remetiam para a  próxima batalha, mas diversas vezes hesitara por não estar preparado. Nada podia fazer quando seu próprio coração o encorajava a arriscar, mas sua razão o envolvia no escudo invisível do ponderável. 

Tardiamente, descobriu-se movido por uma força maior. Um tal irracionalidade e impulso. Eram os desejos que falavam por si. Assim o fez. Arriscou-se. Enfrentou o próprio desejo de conquistá-la, e viu-se por diversas vezes ao chão. Era um bravo guerreiro. Egocêntrico; do não desistir sob hipótese alguma. Levantava a cada queda, e via-se novamente brandindo uma espada invisível, contra um inimigo que tinha sua própria face.

Recuava ante a amizade adquirida. Tão iguais, tão distintos. Mas a desejava.

Aventurava-se no contexto das palavras, e sempre fora claro quanto aos seus sentimentos para com Elise. Não sabia o que esperar. Porém, sempre encontrava o silêncio diante de si.

O medo o faziam se afastar. Mesmo quando os sentimentos pareciam corromper os limites do receio, ambos temiam perder um ao outro. No entanto, Jeremy arriscava-se. Se jogava de peito aberto ao sentimento, e enfrentaria o que  diabos se apresentasse à sua frente para tê-la em seus braços. 

Desejos e temores recíprocos.  

[...]

Aos poucos, desenhava-se o último ato daquela bela história. Jeremy deixou o silêncio preencher o vazio que aos poucos começava a tomar conta de seu íntimo pela escolha de Elise. O tempo falaria por ambos. A paixão avassaladora fora lentamente substituída pelo carinho, pelo respeito, pela amizade. 

Nas memórias do contador de realidades, seriam eternamente Rei Jeremy e Rainha Elise.

O sentimento por Elise estaria preservado no fundo de seu coração. Mas no fundo tinha a certeza, de que poderiam ter se arriscado mais, desejado mais, e o mundo estariam aos seus pés. 

Durante meses, a bela mulher fora seu motivo de risos, seu porto-seguro, sua salvação. Nela encontrara sua sanidade, nela perdera-se no receio. 

Não iria perdê-la, de igual forma, ela não o perderia. Seriam parte um do outro na incógnita de um conto. Estariam lado à lado, amigos; amantes. Destino revelado. Inimigos ao chão. As linhas do tempo seguiriam os caminhos opostos.

Aos poucos, deixava-se guiar pela razão. Aceitara de bom grado a escolha imposta. Afinal, eram desejos há muito conhecidos por Jeremy. Cedo ou tarde, Elise o deixaria, e sua vida novamente seria a liberdade que tanto abraçava. 

A felicidade de Elise era a sua própria. 

O rei não mais amava a figura feminina de Elise. Mas amava a figura de companheira, e principalmente, a figura de amiga.


[...]

Novamente um futuro incerto se projetava à sua frente. Olhos dilatados na escuridão. Deixou para trás os pensamentos, e velado pelo mercúrio das luminárias, guiou seu carro pela noite. 

Sorriu satisfeito. 

O coração pulsava vívido, e o frio na barriga crescia e o preenchia.

Não haviam mais dilemas. Pela primeira vez em anos, acreditava ter feito a escolha certa.

Era dado o momento de viver novamente sob o aspecto do incerto, e dessa vez, Jeremy seguiria os conselhos de Elise. O medo não falaria por si, sequer o silêncio. 


Arrisque-se, Jeremy! - dissera certa vez Elise.


Arriscar-se-ia, ele, rei Jeremy.

[...]