Rei Jeremy, o Perverso, governou seu mundo à sua maneira. Perverso, pois assim o era para si.
Datava pouco mais de vinte anos à época. De cenho franzido, e olhar duro, desejou um pouco mais daquele olhar que tanto o acalmava. Queria beber um pouco mais, apenas mais pequeno e sedento gole daquele olhar, nem uma gota a mais. Apenas o necessário.
Mentalmente, era um homem que se deixava levar por seus próprios terrores. Um homem que vivera tempo demais sob o aspecto do medo, sob o aspecto da morte. E cerceado por tais diretrizes, idealizou suas próximas palavras.
Respirou fundo, ele, Jeremy, o Rei, e as despejou sem sequer tutibear. Eram palavras incertas, de difícil ingestão.
Apenas um golpe do destino.
Respirou um pouco mais, e deixou seus olhos castanhos falarem por si. Estes, tomados pelo silêncio que se pronunciou, apenas brilharam um pouco menos.
O silêncio ecoou, forte; impassível, vagol.
Excêntrico, assim o era, o Rei Jeremy. De palavras incertas, porém, determinadas, apenas um tolo sentimental. Um pobre rapaz sonhador; apenas um garoto normal.
[...]
Naquela tarde lutou para viver intensamente. Deixara de lado o medo, e arriscou. Como um homem condenado. Envolto na loucura, no bom e velho risco desnecessário.
Naquela segunda-feira, com o pôr-do-sol rubro às costas; com a brisa serena contra o rosto; lançou os dados, e por instantes, sentiu o peso de suas próprias palavras.
Eram palavras vazias, de um coração nobre, cheio de esperanças. Estas, meras expectativas de um pobre diabo, que, por diversas vezes, se vira à beira do caos.
Um homem que governara seu mundo, à sua maneira, sozinho. Um rei de sorriso tímido, sentindo o coração pulsando, relutante, vago, ansioso.
Por fim, restou-lhe o silêncio, o gosto metálico, o fim de uma tarde de segunda-feira.
Em sua concha solitária, tentou esquecer, e reescrever no quadro negro. Suas mãos trêmulas, não moveram-se. Jeremy, olhou calou-se. Atentamente, queria prolongar o dia, o diálogo. Queria expulsar de si, aquelas palavras. No entanto, destinado a viver em sua conduta tão cautelosa, Jeremy preencheu o vazio, com sua habitual maneira de auto-criticar-se.
Como um homem era um perigo para si. Medroso e triste, pendia entre a sanidade e a insanidade, mas de toda forma estava bem. Porém, temia corromper as pessoas com seus gestos, sua maturidade tão infantil. Temia afastar aqueles a quem ele tanto queria estar em companhia.
Não se importava com o ritmo das palavras alheias, mas se importava com a opinião de seus próximos. E naquela tarde de segunda-feira, Jeremy, o Perverso; O Lunático; O Excêntrico, pôs-se a divagar sobre as consequências de seus atos. Por mais ponderadas que suas palavras se estendiam, temia que a força das mesmas pudessem devastar com os sonhos daqueles, que para si, eram tão queridos.
Jeremy, o Ponderado Perverso. Trancou-se em sua concha solitária, fixou o olhar no espelho, e não pôde perceber o valor de suas palavras, nem ao menos o peso que elas implicavam. Pois Jeremy, o Perverso, governava o seu mundo, à sua maneira; perdido dentro de si com suas desilusões casuais; apenas um maníaco momentâneo
Pensativo, observou calado, enquanto se distanciava das páginas em branco. Olhos nos olhos, e um sorriso espontâneo o fez sorrir timidamente.
"O Amanhã estaria por vir".
Cauteloso, Jeremy, o tímido, afastou-se. Lamentou ser, O perverso, quando poderia ser, Jeremy, o Ideal.
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Baseado nas músicas: Solitary Shell (Dream Theater) e Jeremy (Pearl Jam).
[...]
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