terça-feira, 13 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Dois - Au revoir, Elise

[...]

O fim da história anunciou-se ao pôr-do-sol. 

Jeremy olhou profundamente o vazio que se formara a sua frente. Ensaiou uma cara de dor, franziu a testa e se conteve. Respirou fundo e olhou novamente para o vazio.

O vazio da alma. Estabelecido naquela casa vazia, nos cantos empoeirados, na velha cidade. 

Jamais  fora tarefa simples. Da revelação à aceitação, Jeremy relutou até que sua razão prevaleceu. Aquela angustia crescente era apenas momentânea. No fundo, ria e desesperava-se, ainda brigava com o próprio coração. Ansiava por aquelas reviravoltas onde o dia não passasse de um pesadelo, e que no abrir de seus olhos, tudo voltaria ao normal. 

Os dias passaram-se como se um segundo equivalesse a uma década. Consolidava-se o momento de fitar aqueles belos olhos noturnos. Estranho, pois a distância que os envolvera naqueles dias fazia-se pequena comparada à distância que os envolvia no presente. 

Era dado o momento. Jamais tocaram no assunto desde então. A despedida era o ato final para aquela história. Raramente foram vistos juntos naqueles dias. Mas ali, no aposento vazio, juntos estavam. Olhares cintilantes, silenciosos, sentindo o calor dissipar.

Governariam aquele universo pela última vez.

[...]

O tempo moldara Jeremy. De medroso, tornara-se um lunático que entre a tristeza e a loucura, se tornara um perigo para si. No início, apenas estranhos um para o outro. Jeremy em seu cotidiano burocrático fixava o olhar na jovem mulher de olhos noturnos, cabelos dourados. Tão bela, tão diferente. De fala soberba, delicada. 

À época, o declínio de seu relacionamento com Christie era irreversível. Dia pós dia, o futuro deixava-se morrer sufocado pela perda da identidade do jovem rei. As intermináveis discussões, a obsessão de Christie, à ruína de uma mente promissora. Deveria ele encontrar uma nova razão para manter-se vivo. 

Assim o fez.

 Na sua agonia por tempos melhores, se via cercado pelos demônios de sua mente, a paz só se fazia presente na imagem sólida de Elise à sua mente. Era Elise que o pacificava. Encontrara na figura de Elise, não somente uma menina intrigante, mas uma amiga, uma conselheira, uma companheira que o seduzia com seus desejos de liberdade.  

Jeremy, o Perverso jazia na eterna busca pela felicidade que tardava em se tornar real. Com o passar do tempo, Christie saía da vida de Jeremy, pela porta dos fundos, guardando para si o rancor, o ódio. O rei começava a busca por sua identidade perdida, e por diversas vezes, via-se à encarar Elise.

[...]

Numa tarde de segunda-feira, olhara fixamente para os olhos de sua cura, sua doença. Era ela, Elise, Asas azuis.

- Arrisque-se, Jeremy! dizia ela.

Jeremy sorria. Havia algo muito forte que os unia. Era um sentimento que se misturava na amizade, na paixão irracional que agora abraçava o rei.

O silêncio feria Jeremy, o fazia sangrar.

Numa noite de quarta-feira, tentara traduzir em palavras o que sentia, sua voz soou rouca, trêmula, assim como suas mãos que tremiam recostadas às pernas. Respirou fundo, desviou o olhar ao horizonte rubro, e deixou o silêncio ecoar.

A noite chegara e com ela, o desejo de Jeremy o corrompia. Passadas largas pelo quarto, cigarro em punhos, olhava estupefato para as paredes, precisava expurgar de si aquele sentimento, precisava encontrar um modo de traduzir em palavras, o que sentia por Elise.

Sentou-se ao computador, abriu o editor de textos. E naquele momento encontrara no seu dom principal, uma maneira de expressar-se:

 "Ela, e tão somente ela, de essência rara; e por rara, diz-se comum nas Flores dos jardins dos Deuses. Vêm diante à minha presença, ora mórbida, ora relutante; dosando paz e risos que ela, e tão somente ela poderia proporcionar-me. Diante de tal figura, sinto-me reconfortado. E mesmo que Deus, o Onipresente Role os Dados, e Einstein, o Sábio não se importe com as chances, aclamarei por ela, meu profundo desejo de Navegar pelos Mares do Sol. Elizabeth, flor-de-lís; 'Elise', flor-de-lís dos Jardins de meu Éden. Tão somente minha, e inegavelmente de si própria. De plena juventude eterna; Eis que lhe ofereço palavras, e por palavras, digo presságios de destino incerto; Caminhos no qual, trilharemos sob a luz dourada e céu vasto; Diante de ti,Oh, 'Elise', ofereço minha essência ferida, mas de alma purificada".

Essência ferida, mas de alma purificada. Assim o era, ele Jeremy, o Excêntrico. Governara a sua maneira. Era apenas o eco de um coração que pulsava vibrante aclamando um ode à Deusa que revelara-se na figura de Elise.

[...]

"Governariam aquele universo pela última vez".

A real história de Jeremy e Elise começara numa segunda-feira, e quisera o destino findá-la  de igual forma. Sentados à poltrona, Elise mostrava-se inquieta, receosa pela concretização de suas escolhas. A voz agonizava em palavras desencontradas, e medo brilhava expressivamente nos olhos âmbar.

- Afastei-me de ti para não sofrer.  disse ela, por fim. 

Jeremy acenou em concordância.

- Eu sei - respondeu pacientemente, com o olhar fixo nas próprias mãos - descobri dias atrás, mas evitei mudar as coisas. Sacrifícios são necessários. Sua felicidade é a minha própria. Não poderia  tirá-la de ti por egoísmo. Era mais simples que meu silêncio falasse por si.  

As mãos do Rei tremiam, e o nó em sua garganta começava a sufoca-lo. Queria gritar; chorar; romper a razão imposta e alimentar novamente esperanças incertas para tê-la em seus braços.

Apenas queria dizer: Não vá. Há um mundo inteiro de possibilidades. Viva ao meu lado os seus próprios sonhos. 

O desespero internamente falava por si, mas de sua boca, nenhuma palavra fora proferida. Havia decidido que o futuro não mais lhe pertencia.

Palavras sufocadas no berço da fala. Respirou fundo, e sentiu a dor de mil agulhas perfurarem seu coração. Abraçou-a. Um abraço terno, sincero, arrebatador. Sentiu o perfume lhe nocautear. Ela, ao seu turno, recostou-se reconfortada nos ombros do Rei. 

Novamente, o silenciou falou pelos dois.

Os últimos minutos de uma história bela.

Os olhares se cruzaram confusos, marejados, místicos.

[...]

Aqueles olhos castanhos, ora vívidos, ora amedrontados, estaria diante de infinitos pores-do-sol, o qual a cada dia proporcionaria ao jovem rei sabores e dissabores distintos. Os meses se arrastariam sublimes, e à medida que o tempo se fazia longo, Jeremy criaria uma fantasia de si próprio, vivendo ao lado de sua amada, Elise, um futuro incerto.

Sonhos não concretizados.

Diferente de todas paixões irracionais, Elise tinha uma essência incomum. Era mulher livre, era menina delicada, era uma exposição de ideias e idolatrias o qual dominavam Jeremy, e ele se veria frustrado por noites e noites. Pelo silêncio que o envolvia, pelo medo irracional de perder Elise. Romperia em crises intermináveis, olhando pela janela, saboreando cigarros e mais cigarros, fitando mentalmente aqueles olhos noturnos, aquela liberdade o qual ele jamais tivera.

Jeremy nunca fora homem livre. Sua ascensão precoce ainda nos anos anteriores lhe fariam ser um homem forte, que governaria à sua maneira. O mundo se fazia um mero espelho de sua própria ignorância. Estaria ele, por vezes à mercê da própria força. Frio, impassível, racional. Assim fora, ele, rei Jeremy. Um reflexo de suas próprias cicatrizes. Apenas a imagem de um mundo corrompido pelas dores e pela injustiça.

Forte para o mundo, fraco para si. 

Ao lado de Elise, entretanto, se fazia forte para si próprio. Buscava nas próprias dores, uma razão para a própria existência. O sentimento por Elise corrompia a escuridão que o envolvia. Aos poucos, dissipava-se a névoa densa e cintilava ao horizonte, um sol rubro, vívido, acima de um campo verde esmeralda, onde bailavam borboletas azuis, onde o belo era possível.

[...]

Para trás ficara a casa vazia. Naquele momento Jeremy sentiu o peito comprimir numa dor aguda. O que parecia ser apenas um pequeno lapso de insanidade, agora se fazia real. Elise realmente partiria. Para não mais voltar, para longe daquele cantinho, daqueles pores-do-sol, daquela casa, daquela cidade.

Rainha Elizabeth enfim iria viver sua própria liberdade, seus próprios sonhos.

Olhos castanhos e olhos noturnos se fitavam pela última vez. E os braços que envolvera Jeremy por tantas vezes, agora o agarravam forte. O Rei retribuíra o gesto, e envolvendo Elise em seus braços, apertou-os, para nunca tornar a abri-los.

- Sentirei tanto a sua falta - dizia ela, com voz suave, saudosa.

Jeremy sorriu triste. Os olhos marejaram. Formou-se um nó na garganta.

- Também sentirei a sua falta, meu anjo - dizia ele, sem saber exatamente o que dizer - Você não sabe o quanto!

Um sorriso gentil se fez aparecer naquele belo rosto de menina. Um sorriso para jamais se esquecer. Um sorriso que por tantas vezes encantara rei Jeremy.

- Nunca deixe de escrever - disse ela.

Ele assentiu.

Elise se aproximou e os olhos se encontraram, beijou-o docilmente à face, e ele novamente se viu fazendo cara de dor.

- Arrisque-se, Jeremy - ecoava a voz de Elise em sua mente. 

Jeremy, tomado pelo impulso, pelo desejo, abraçou-a ainda mais forte. Convicto, beijo-a calorosamente. Os lábios tocaram-se pela última vez. Agridoce. Tão incrivelmente dócil, e maldosamente amargo. Elise chorou silenciosa. 

Separaram-se, e seus olhos se encontraram pela última vez. O mundo deixara de girar, e a noite mostrou-se ainda mais escura. Caminhando lentamente, jamais olhou para trás, jamais volto para os braços de Jeremy. Para seu universo paralelo, Elise partiu.   

Era o fim.

[...]

As mãos já não mais se faziam trêmulas naquele instante. O brilho de seu olhar confuso se misturava ao luar tímido que rompia severo ao horizonte. Apenas se ouvia o som de seu coração. Era de uma melodia triste. Era um pulsar lento, como se partido em mil pedaços, relutava em sobreviver à realidade que se fazia presente.

No momento em que Elise partira, Jeremy se viu cambaleante, sufocando pensamentos que se misturavam às sensações distintas. A mente sucumbiu à loucura, ao tempo em que a sobriedade o envolvia. As palavras ecoavam gritantes em sua mente, e sua boca não se movia. Os pés caminhavam bêbados, enquanto o corpo se fazia petrificado.

Não dissera uma única palavra. Não fizera nada para mudar o destino. Temia misturar paixão e razão, e por aceitação, preferiu acreditar que nada que pudesse fazer, iria corromper o presente que se apresentava.

Caminhou silencioso. Em sua mente, pensamentos e lembranças vagavam, tão cheias de vida, tão cheias daquele amor que sentia por Elise. Ecoavam palavras o qual não pudera mencionar...


"... Governamos à nossa maneira. Do açúcar ao sal, fizemos os sabores que nem mesmo os beijos puderam decifrar. Era um gosto diferente, de paladar sutil, de aroma forte, que nos embriagava, que nos fazia bailar, ao som que ecoava nas noites frias.
Assim reinamos. Como pessoas tão distintas, no irracional, onde propusemos a viver intensamente algo que nem mesmo as palavras mais belas poderiam descrever. Eram palavras que se perdiam no medo, mas se encontravam na arte de viver. Era dócil, era supremo.
Fomos soberanos. Na dor, no paixão. Sentimento, este, que me fazia acordar sufocado, pensando numa bela mulher de asas azuis, voando livre pelas ruas, sorrindo, e encarando a vida com toda essa essência de eterna jovem.

Não somente admirei essa mulher. Mas a desejei com todas as forças reunidas em meu coração. A vida me fizera abraçar mentiras que me machucaram, e as cicatrizes não foram poucas. Mas Elise me fizera abraçar a realidade, e aceitá-la como tal, fosse amarga ou dócil.

São esses encontros e desencontros que me movem. Uma vida inteira em poucos meses. Palavras não traduzidas. Apenas o silêncio. Deixei de abrir fielmente meu coração, pois desnecessário seria. De alguma forma ela saberia. Palavras poderiam me trair, as nunca um olhar. Um olhar não mente.

Devidamente mencionado, o último olhar dissera o que as palavras não conseguiriam, e naquele ultimo segundo, quando os olhares se cruzaram pela última vez, o olhar castanho de Jeremy apenas dizia: 

- Você é parte de mim, e sempre será.

Era o necessário.

[...]

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Um - Yin & Yang

Arranha-céus que se erguem sob a tediosa paisagem de pedra. Sentado às escadas, um homem, cujo queixo se apoia às mãos, observa a sintonia da natureza mórbida.

Reino sólido, governado à sua maneira. Sob princípios, valores, muralhas e sorrisos. Vozes que ecoam nos becos, e cores que ilustram um cenário diversificado.

Sorri distraidamente, mas rapidamente, vê-se novamente em seu mundo real. Aquele mundo que está sentenciado à governar.


[...]

Os meses seguiram inalterados. Jeremy relutava em preservar o silêncio que se estabelecera. Por vezes, temia quebrá-lo, e punia-se mentalmente por tal conduta. Não queria colocar tudo à perder. Conquistara muito até aquele momento. Um palavra mal colocada, e as edificações de seu universo poderiam ruir.

Assim o era e sempre o fora. Com seus dilemas imponderáveis, que na construção da narrativa de sua própria história, mostrava-se que o bem e o mal eram apenas linhas tênues que dividiam a mesma esfera. Yin & Yang.

Jeremy moldara-se no receio, e repetidamente, o receio estaria estampado na sua jornada. Como um vício de linguagem, as palavras não se alternavam, nem os sentimentos. Inicialmente, apenas um homem só, receoso quanto a própria existência. Viera Christie, e seu mundo já fadado à tragédia, tornou-se puro caos na essência. 

Correto afirmar, Christie fora o apenas último golpe, o nocaute. Jeremy apanhara muito na vida. Ascensão e queda. Um trono para governar; o peso de um mundo sobre suas costas.

Conquistara a força, e traído por ela, caíra em desgraça.

[...]

Doente, insano, perverso. Assim o era, Rei Jeremy. Dono de si, e senhor de ninguém. Um desequilíbrio na ordem do universo. Diante do espelho enfrentava seu próprio inimigo. Sua própria doença.  Dissipavam-se as noites de sono, erguiam-se as madrugadas de terror.

A maldição recaída sobre seus ombros começara a se transformar com a introdução de Elise em sua vida. Era estranho como uma mulher podia equilibrar e desequilibrar a fiel da balança, e por motivos certos ou errados, Jeremy gravitou pela força arrebatadora de Elise. Como se puxado pela correnteza, Jeremy afogando-se nos desejos e no brilho daqueles olhos noturnos.  

Era ela, e tão somente ela, o motivo para que o jovem rei prolongasse seus dilemas. Razão e coração em conflito. 
 
"Arrisque-se, Jeremy!" - Dizia ela em diversos momentos - "Arrisque-se!".

Jeremy assim o faria. Arriscar-se-ia, sem temores, sem discernir o sensato, o perigoso, o correto.

[...]

O silêncio o afastara. Jeremy se arriscara quando deveria pregar a cautela. As feridas expostas de sua vida sangravam demasiado recentes, e para o rei, apenas Elise o motivava a seguir adiante. Ela o fazia ver o mundo sob um olhar diferente. Como um homem que busca na fé o entendimento da vida, o rei buscava em Elise, algo que trouxesse razão para sua própria existência.

Os diálogos ao pôr-do-sol das inúmeras tardes sempre o remetiam para a  próxima batalha, mas diversas vezes hesitara por não estar preparado. Nada podia fazer quando seu próprio coração o encorajava a arriscar, mas sua razão o envolvia no escudo invisível do ponderável. 

Tardiamente, descobriu-se movido por uma força maior. Um tal irracionalidade e impulso. Eram os desejos que falavam por si. Assim o fez. Arriscou-se. Enfrentou o próprio desejo de conquistá-la, e viu-se por diversas vezes ao chão. Era um bravo guerreiro. Egocêntrico; do não desistir sob hipótese alguma. Levantava a cada queda, e via-se novamente brandindo uma espada invisível, contra um inimigo que tinha sua própria face.

Recuava ante a amizade adquirida. Tão iguais, tão distintos. Mas a desejava.

Aventurava-se no contexto das palavras, e sempre fora claro quanto aos seus sentimentos para com Elise. Não sabia o que esperar. Porém, sempre encontrava o silêncio diante de si.

O medo o faziam se afastar. Mesmo quando os sentimentos pareciam corromper os limites do receio, ambos temiam perder um ao outro. No entanto, Jeremy arriscava-se. Se jogava de peito aberto ao sentimento, e enfrentaria o que  diabos se apresentasse à sua frente para tê-la em seus braços. 

Desejos e temores recíprocos.  

[...]

Aos poucos, desenhava-se o último ato daquela bela história. Jeremy deixou o silêncio preencher o vazio que aos poucos começava a tomar conta de seu íntimo pela escolha de Elise. O tempo falaria por ambos. A paixão avassaladora fora lentamente substituída pelo carinho, pelo respeito, pela amizade. 

Nas memórias do contador de realidades, seriam eternamente Rei Jeremy e Rainha Elise.

O sentimento por Elise estaria preservado no fundo de seu coração. Mas no fundo tinha a certeza, de que poderiam ter se arriscado mais, desejado mais, e o mundo estariam aos seus pés. 

Durante meses, a bela mulher fora seu motivo de risos, seu porto-seguro, sua salvação. Nela encontrara sua sanidade, nela perdera-se no receio. 

Não iria perdê-la, de igual forma, ela não o perderia. Seriam parte um do outro na incógnita de um conto. Estariam lado à lado, amigos; amantes. Destino revelado. Inimigos ao chão. As linhas do tempo seguiriam os caminhos opostos.

Aos poucos, deixava-se guiar pela razão. Aceitara de bom grado a escolha imposta. Afinal, eram desejos há muito conhecidos por Jeremy. Cedo ou tarde, Elise o deixaria, e sua vida novamente seria a liberdade que tanto abraçava. 

A felicidade de Elise era a sua própria. 

O rei não mais amava a figura feminina de Elise. Mas amava a figura de companheira, e principalmente, a figura de amiga.


[...]

Novamente um futuro incerto se projetava à sua frente. Olhos dilatados na escuridão. Deixou para trás os pensamentos, e velado pelo mercúrio das luminárias, guiou seu carro pela noite. 

Sorriu satisfeito. 

O coração pulsava vívido, e o frio na barriga crescia e o preenchia.

Não haviam mais dilemas. Pela primeira vez em anos, acreditava ter feito a escolha certa.

Era dado o momento de viver novamente sob o aspecto do incerto, e dessa vez, Jeremy seguiria os conselhos de Elise. O medo não falaria por si, sequer o silêncio. 


Arrisque-se, Jeremy! - dissera certa vez Elise.


Arriscar-se-ia, ele, rei Jeremy.

[...]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta - A Escolha de Elise

Os dilemas dos dias atuais, como sempre fora para ele, Rei Jeremy, contrastavam com acontecimentos passados. Uma manhã de sol, sempre seria precedida por uma noite sombria. Assim eram os pensamentos de Jeremy. Seus atos, seus pensamentos, eram baseados nas escolhas de outrora.


Uma história jamais deveria prosseguir, sem antes, fazer verdadeiras as frases não mencionadas.

[...]


O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise...


... "Ela caminha, dançante, orbitando o próprio corpo. De braços abertos, convidativos, abraçando o infinito. Sorri, incrivelmente feliz. O olhar se perde naquele cenário, e seus olhos brilham, como jamais brilhara outrora.

Esse é o seu paraíso. Esse é o seu universo.

Despencam do teto, como cascatas, cortinas vermelhas. Ao topo, balaústres púrpuras-azuis-dourados. Ecoam canções, e estas, falam do amor, dos bons tempos. Bailam perante seus olhos, poemas e atores. Um mundo mágico, um mundo do belo. Do triste, do vulgar, do mundano.

Ela sente um arrepio percorrer-lhe o corpo. Sorri, em êxtase.

É o palco de sua vida. Naquele o qual iria fazer sua própria história.

Essa é a escolha de uma rainha sonhadora. Uma tal Elise, uma tal Asas azuis".

[...]

Uma tarde qualquer se faz quente lá fora. Dentro de uma sala burocrática, Jeremy olha a pilha de papéis em sua mesa, faz careta. Elise, por sua vez, sentada à poucos metros, quebra o silêncio.

- Estou voltando para minha terra - diz ela, impassível.

Ela a fita. Não sorri. Parece não perturbar-se com as palavras proferidas.

- Está mesmo decidida? - Questiona ele, quebrando o silêncio que se estabelecera.

- Sim! Esse é o meu sonho.

- Se é o seu sonho, fico feliz por ti! - sorriu.

Chegara o momento o qual Jeremy temera por meses. O dia em que a realidade o colocaria cada vez mais distante de Elise.

O rei novamente olhou novamente para os papéis em sua mesa, balançou a cabeça em desaprovação.

Sentia-se sinceramente feliz por ela, porém, algo o incomodava.

- Malditos papéis - sussurrou.

Fez careta.

[...]

Os dias que antecediam e precediam a relevação de Elise, eram incógnitas. Rei e rainha já não mais sustentavam o hábito de seus encontros ao pôr-do-sol. Por alguma razão, afastavam-se cada vez mais. As obrigações consumiam a maior parte do rei, e este, desprovido de meios de desvencilhar-se de tais fardos, jogava-se no abismo do stress.

Jeremy lutara cegamente, e grandes foram os esforços para adquirir a sobriedade, porém, o destino parecia o punir. Novamente o medo o abraçava. Era o medo da morte. Era a solidão que o envolvia, e nas longas noites o qual ficara acordado, apenas os livros o faziam fugir desse universo ameaçador.

[...]

Sofria antecipadamente. Tão perto, tão distante. Os dias se passavam lentos, as vozes se encontravam por meros lapsos do acaso. Eram tempos onde todos aqueles momentos que outrora se findavam ao pôr-do-sol, não mais se faziam presentes.

Caminhos opostos no cotidiano. Caminhos opostos para um futuro não distante.

Saboreava aquele gosto amargo, aquela sensação de que em poucos dias, haveria um vazio imenso no banco de seu carro, no sofá, naquele cantinho costumeiro onde
costumavam fumar.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Evitava falar sobre a partida de Elise. Evitava, pois sentia-se perdido. Sentia uma parte de si estar cada vez mais distante.

Antecipou-se à dor, pois ela viria. E com ela, a falta de uma companheira que não se tornara apenas parte de sua vida, mas principalmente, parte de seu coração.

[...]

Ela baila, sorri. Ela se faz silenciosa, se faz soberana. Essa é a sua canção. É o seu ato. Ela se deita nas pétalas vermelhas, abre os braços, sente o piso gélido tocar-lhe os braços nus. Sente novamente o arrepio do desconhecido serpentar sua espinha.

Suspira de prazer.

O platéia aplaude em pé, extasiada. Urros de celebração. Vivas, glórias. Bravo! Bravíssimo! Em coro.

Fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes, cessam a canção.

Esse é o seu universo. O seu paraíso. O seu show.

[...]

domingo, 27 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Nove - Segredos e Revelações

Jeremy, o Rei novamente assumia a postura cautelosa. Seus olhos aflitos varriam o quarto. Era a insônia que o dominava. Deitado à cama, sentia o peso do corpo, os movimentos lentos, porém, o sono não o abraçara.

Sentou-se. Hábito costumeiro, acendeu mais um de seus cigarros. Uma tragada, coração pulsante, fumaça ao ar. Um piscar de olhos, pesado suspiro de reprova, à irritação. Assim o era, ele, Jeremy, o Perverso. Governara à sua maneira.

Era aquele o seu universo. Sua vida diante das frases não mencionadas.

Eram os seus segredos de um outono a mais.

As semanas se arrastavam na linha tênue de um tempo complexo. Jeremy, o Rei há muito via-se absorto pelas responsabilidades burocráticas. O corpo sustentava-se apenas pelo orgulho que o mantinha sóbrio, mesmo que saboreasse doses de delírios de desespero e ansiedade.

Era o caos que criara para si. Era a vida que escolhera.

Debruçado em páginas envelhecidas, seus olhos percorriam a sintonia das palavras que o remetiam à sabedoria.

Olhar fixo, pensamentos focados. Mais um dia que terminara. Mais uma noite jogado à insônia.

[...]

O relógio marcava cinco horas da madrugada. O rei jazia deitado à cama. As pálpebras pesadas travavam duelos intermináveis com o sono. A barba por fazer demonstrava a imagem de um rei em ruínas.

Poucos horas mais e um novo dia romperia a sombria noite de outono. Jeremy era um rapaz simples, gozava de seus vinte e poucos anos. Apesar da idade, fios branco-perolados já se anunciavam no emaranhado castanho escuro de seus cabelos. A própria barba por fazer já demonstravam sinais de uma pseudo-velhice-precoce, pigmentando o queixo redondo com fios brancos.

Jeremy, o Rei Perverso, novamente tentava através de suas memórias, encontrar razões para os imbróglios intermináveis que se estendiam no leque de questões à frente.

Apesar do cansaço, dava vida aos pensamentos.

[...]

Entregue ao cansaço, sentia faltar-lhe algo. Havia semanas, o Rei estava absorto nos afazeres costumeiros, tal fato o afastara dos momentos com Elise. Os tempos haviam mudado. Jeremy fizera escolhas o qual os caminhos o levavam para longe de sua companheira. Elise, por sua vez, também escolhera caminhos o qual contrastavam com a realidade de Jeremy. Poucos dias mais, e estariam distantes.

Eram segredos e revelações que mudariam para sempre a história do rei. Eram segredos jamais mencionados. Escondidos pelo tempo. Apenas vívidos nas lembranças do rei Perverso. Apenas uma lembrança o qual Jeremy vivenciava mentalmente.


"A distant time, a distant space, that's where we're living. A distant time, a distant place. So what you giving?"

"Ecos de um rádio tão distante. Cantarolando solitário, na noite fria de outono, num quarto submerso na escuridão, no brilho quase apagado de um luminária azul. Nos sonhos bons de um Rei. Um rei perverso, para si, para o mundo.

À cama, o Perverso dormia sereno. A brisa gélida adentrava pelas frestas da janela, preenchia o ambiente com o ar renovado da noite que acabara de nascer.

Em algum lugar distante, olhos da noite admiravam a paisagem da estrada. Elise, por alguma razão, se distanciara da cidade o qual se dirigia novamente. Talvez fosse a falta de um colo de mãe. Talvez fosse apenas a vontade de novamente estar distante, de viver a vida o qual sonhara. Passou a mão pelos cabelos dourados, mais alguns minutos e estaria em casa. Pegou o celular, colocou-o rente ao ouvido. Segundos depois, rompia uma voz masculina, sonolenta, ao telefone:

- Alô!
- Oi! Espero não estar atrapalhando. Estou voltando, pode me dar uma carona? - questionava Elise.

- Claro! Sem problemas. Vou me arrumar! - retrucou Jeremy.

Minutos depois, encontraram-se. Um abraço longo, quente, gentil. Entraram no carro. Jeremy olhou para o céu estrelado, admirou pela milésima vez a beleza inquietante de Elise, esta, por sua vez, sorriu sem jeito.

Assim o eram.

[...]

Jeremy sentia a sobriedade diminuir. Pela primeira vez em meses, era proposital. Erguia sorridente aquela taça de vinho. Um gole sedento, saboroso. Sorria prazeroso. Embriagado, fitou Elise, desejou-a como nunca a desejara antes. Após longos meses, era a primeira vez que não se importava com as consequências. Queria-a, e queria-a agora. Tão e somente sua cura.

Os olhares se encontraram. Olhos castanhos. Olhos da noite. Ela mordia delicadamente os lábios, e ele, sem hesitar, investiu sedento. Entrelaçaram-se num beijo caloroso. Era dócil. Como o vinho, como o prazer.

Ele a abraçava intensamente, percorria com seus dedos, a maciez da jovem mulher. Por entre as curvas, deslizava suave, instigando-a. Ela o abraçava, feroz, o trazia para junto de si, cravava suas unhas na carne, e o sufocava no êxtase.

Lá fora, o frio envolvia a cidade interiorana. A madrugada serena, silenciosa estava. Lá dentro, dois amantes se deixavam dominar pelo prazer. Envolviam-se no calor de seus corpos. Ele à envolvia em seus braços, enquanto seus lábios deslizavam pelo corpo de Elise.

Aos poucos, as roupas se esparramavam pelo chão, e revelavam a nudez de seus corpos. Jeremy, investia como um animal, não se importava, era a paixão que falava por ele, era o desejo, o prazer. Abraçava-a, tocava-a, como se naquele momento, apenas ela existisse em seu universo.

Elise revelava um corpo delicado, de um tom de pele claro, de curvas gentilmente convitativas, de seios fartos. Jeremy a beijava intensamente, enquanto percorria seus dedos pela nuca, descendo suavemente pelas costas. Ofegantes, deliravam, transavam como se há muito desejassem por isso.

Ela sorria loucamente, prazerosa. Ele, sorria discreto, no frenesí, sentindo o calor de sua companheira. Eram lobos famintos. Eram animais, que uivavam, que se seduziam e investiam ferozes, sedentos.

A madrugava se entregava ao ápice. Lá fora, a pálida lua, se fazia solitária. Naquela noite fria, naquela noite onde o destino unira seres que há muito se proibiam.

Em algum lugar, não se sabe onde. Ecoavam melodias de um velho rádio.

"Feel the air up above. Oh, pool of blue sky. Fill the air up with love, all black with starlight".

Em algum lugar, não tão distante. Um Rei e uma Rainha, entregavam-se à paixão. Entragavam-se aos mais ínfimos desejos. Naquela noite, não seriam apenas Rei e Rainha. Seriam Rei, Rainha, amigos, amantes.

A alvorada surgira envolvida na densa névoa que cobria a cidade. Aqueles olhos castanhos, ainda ofuscados pelo sono, fitavam o corpo de um jovem mulher. Jeremy acariciava a pele macia de Elise. Sorria, como um tolo. Acordara abraçado com sua Rainha, desejava permanecer o dia todo ali, mas a vida cotidiana o esperava. Tornou a colocar sua roupa.

Despediu-se de sua companheira com um beijo gentil e partiu..."

[...]

Jeremy novamente voltava á realidade. Jamais se esqueceria da noite que passara com Elise. Os tempos, como já fora mencionado, eram diferentes. O cenário permaneceria o mesmo. Os personagens, aos poucos iriam seguir vidas distintas.

Fechou os livros e olhou pela janela do quarto. A manhã nascera calorosa. Dia atípico. O primeiro dia do inverno. Jeremy, o Rei, abraçado à insônia, levantou-se.aposentos.

- Mais um dia se inicia - pensou.

O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise.

[...]

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Oito - Diálogo com os Mortos

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A tarde chegava ao fim. O sol rubro aos poucos era engolido pela monótona cidade interiona. Ao horizonte, nuvens enegrecidas envolviam o pôr-do-sol eminente. A estrada se prolongava até a visão se perder nas casas e becos espalhados pela cidade. Da longa estrada, um carro rompia à toda velocidade. No seu interior, músicas ecoavam gritantes:

"Mudaram as estações, nada mudou. Mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Está tudo assim tão diferente..." Os olhos castanhos brilhavam. Relutavam as lágrimas para eclodirem. Ele, Jeremy, segurava-se. Prendia a respiração e cantava. Para os céus, para o nada...

"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre, sempre acaba."

O pra sempre, sempre acaba...

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Jeremy adentrou aquelas muralhas. O vento frio soprou por entre seus cabelos. Com as mãos nos bolsos, caminhou lentamente, à passos firmes. Os passos rompiam o silêncio ao chocar-se com as folhas secas ao chão.

O mundo jazia emergido no silêncio da natureza. Tudo se calara diante do rei. O universo estava quieto. Apenas o som do coração emanava a vida. As nuvens agora abraçavam o sol poente. Na penumbra que se estabelecera, Jeremy cessou a caminhada. Diante da foto envelhecida pelo tempo, seus olhos lacrimejaram...


Do horizonte, o sol transcendera as nuvens, e o brilho sangrento pairou sobre a imagem. A brisa gélida varria as folhas ao chão, a natureza entoava novamente o tom da vida.

Jazia o rei sorrindo triste. Sentia o vazio. Era o vazio que o abraçara nesse longos sete anos. Era a saudade. Era a triste realidade de observar a lápide negra que se elevava à sua frente.

O berço final.


Onde jazia a última lembrança de sua mãe.

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Jeremy olhou estático a foto. Permaneceu em silêncio por minutos intermináveis. O sol logo seria engolido pela noite que se anunciava fria. Sentou-se no mármore negro, gélido. Acendeu seu cigarro, olhou para o horizonte.

Era o silêncio que o envolvia. Prestou suas homenagens mentalmente. Falava, em seus pensamentos, como se ela, ali estivesse. Viva, cheia de energia, sorridente. Como outrora fora.

- Sete anos já se foram - dizia Jeremy, enquanto seus olhos castanhos fitavam distantes, o horizonte escarlate - Eu cresci, mãe. Não sou mais aquela criança que chorou aqui, nesse mesmo lugar, desamparado. Tenho lutado...

A brisa tocou suave o rosto do rei, e este, permanecera sério. Mais um trago. Deitou-se.


Diante de sua visão, um enorme ipê, desfolhado pelo outono, se erguia. Os galhos secos, se emaranhavam rente aos céus. Jeremy, o Rei, continuava sua conversa.

- Muitos já se foram - sorria triste, Jeremy, o Saudoso - A vida tem sido complicada. Os dias tem se tornado complicados. E a paz? Ah, a paz...

Fechou os olhos, lágrimas silenciosas rompiam e se debruçavam no mármore.

- Apenas busco paz, mãe. Não é pedir muito, creio eu. É terrível acordar, e sentir o medo consumir tudo. Tremer e temer, o desconhecido...

Respirou fundo. Parecia procurar o colo da mãe. Queria estar naqueles braços tão reconfortantes, ouvir aquelas palavras duras, por vezes, porém, tão materna.

- Queria apenas recuperar a parte de mim que deixou de existir. Não sei ao certo, mãe. Mas não sou mais o mesmo. Envelheci, eu sei. Me falta algo mais. Talvez a coragem de seguir adiante - Jeremy chorou pesadamente - Me falta forças, me faltam...


- Me faltam...

O silêncio reinou na mente de Jeremy. Este, fitava os últimos raios do sol, perdendo-se nas lembranças. Era homem feito, mas a criança dentro de si, novamente pedia os beijos de sua mãe.


Jeremy, o Rei levantou-se. Olhou novamente a foto. Colocou as mãos nos bolsos do casaco. Seus olhos cintilaram, seu sorriso amargo rompeu-se saudoso e disse baixinho:

- Amo você, mãe. Sinto sua falta.


Não olhou para trás. Caminhou silencioso. Não percebeu, mas a noite rompia na lua cheia pálida à leste.

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Caminhou só. Caminhou novamente pela trilha de seus anseios. Havia um mundo o esperando. Um mundo o qual governara sozinho desde então.

A tristeza o consumia e o fazia caminhar. Caminhava para longe daqueles túmulos, para longe do reino dos mortos. Durante os meses descritos nessa história, Jeremy sempre temera a morte.

Talvez fosse apenas o reflexo de sua própria vida. Tantos se foram. E sempre restara as lembranças, a dor, a vida vazia que agora Jeremy tentava preencher com a saudade que lhe apunhalava o peito.


Caminhou só e não olhou para trás.

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domingo, 6 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Chapter Vinte e Sete - Ego

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O outono chegara ao seu ápice. O frio constante, o céu límpido marcavam a transição das estações. Poucos dias mais e o inverno rasgaria o véu do tempo, se fazendo intenso. Lá fora, os raios do sol cintilavam preguiçosos. A natureza em seu caráter mórbido, silenciosa estava. O gramado jazia pigmentado em mosaicos brancos, o qual notava-se claramente os vestígios da geada que recobria a cidade.

Deitado à cama, o Rei se irritava com a insônia que o envolvera na madrugada gélida. Os dias atuais se monstravam confusos. Rompiam-se pseudo-crises, o qual Jeremy preocupava-se. Sentia-se exausto. Os pensamentos amenos eram drasticamente substituídos por temores há muito conhecidos pelo jovem rei. O coração pulsava agressivo.

Era o medo.

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A noite anterior...

O frio intenso se fazia cortante. Velado por um vasto céu negro, Jeremy fitava aqueles belos olhos esverdeados. Sorria. Dividia-se entre as mãos que o acariciavam e os pensamentos que o inquietavam. Sua voz soava insegura. Algo o perturbava. Sentia o gosto adocicado dos beijos de sua amada, e ela, sorria gentil. A bela mulher depositava sobre o Rei, olhos cintilantes, do desejo, da paixão. Se completavam. Sob a claridade suja das luzes da cidade, abraçavam-se, beijavam-se.

Eram parte um do outro.

Dentre palavras e risos, Jeremy novamente se via cercado pelas dúvidas que outrora extirpara de si.

Fizera a escolha certa? - Pela enésima vez usava tais palavras para questionar-se.


Era o medo.

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Na madrugada...


Deitado à cama, olhou para os aposentos. Sentia o estômago revirar. O coração pulsava feroz, uma fera tentando libertar-se do peito. O Perverso olhou para o teto, como se quisesse encontrar os céus. Tornou a fechar os olhos e tentou novamente expurgar os presságios. Em vão.

O silêncio ecoava agressivo.


Perturbado, Jeremy tremia. Agarrava com firmeza os joelhos na altura do peito, e este pulsava forte. Era o medo que o controlava. Era essa maldita angústia que o seduzia. Sua sobriedade parecia diminuir à altura que seus pensamentos giravam em torno de questões sem respostas.

Onde errara?


Era o medo. Sentia o peito comprimir no agudo anseio. Se apegava aos últimos vestígios do auto-controle, quando este não mais existia, abraçou a sobriedade. E quando o pouco de racionalidade se extingiu, Jeremy jazia na insanidade.

Os minutos se faziam horas. As horas se perdiam no decorrer da noite fria que se prolongava. Jeremy agonizava. Era o medo que o confundia. Não respirava. Sentia o corpo tenso, pesado.

Quando nada mais poderia salvá-lo de sua eminente crise. Olhou aos céus, gritou desesperado:

- DEUS! SALVE-ME!

As lágrimas marejavam os olhos castanhos. O coração deixou de bater, cessou a respiração.

O silêncio pairou. O mundo deixou de girar.

[...]

O Presente...

Não fora o tempo, não fora o céu. Era o orgulho. O ego. Durante toda sua existência, Jeremy, o Rei Perverso fora ousado, destemido. Aprendera nas quedas, que a vida deve continuar. Mesmo que sangrasse até a beira da morte, deveria levantar-se. Deveria erguer-se soberano sobre o caos que o mundo espelhava diante de seus olhos castanhos.

Os dias poderiam se tornar eternos pesadelos, e mesmo que os céus se derramasem em lágrimas de sangue, sua alma lutaria para manter-se unida ao corpo. Mesmo que suas forças se extinguissem, se arrastaria, erguer-se-ia de joelhos, e com suas mãos trêmulas iria agarrar-se às ruínas. O medo seria parte de si, e este, derrotado seria.

Jeremy, o Rei, levado pelos temores, quase entregara-se. Porém, trilhara um caminho árduo. Desistir ali, seria renegar o que ele próprio construíra. A vida nunca fora fácil. Suas escolhas se tornavam tempestades no horizonte. Mas deveria seguir. Seu desejo de vencer, de viver era maior que o medo que o envolvia.

Pensou em todos os momentos o qual se vira caído. Relembrou as quedas. Relembrou as conquistas.

Era o orgulho que o reerguia. Era o esse tal amor pelo viver.

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terça-feira, 1 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Seis - Dos Caminhos Opostos

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O Sol nascera frio naquela manhã de outono. Os primeiros vestígios da alvorada eram de um branco-pérola frio, intenso. A cidade interiorana permanecia refém da neblina que teimava em não dissipar-se.

As semanas voavam. Passavam-se os dias e, para Jeremy, o Rei, restara os pensamentos confusos, meticulosos, que agora digeria sem açúcar, sem sal.

O voz do Rei silenciara perante um emaranhado de acontecimentos.

Vão-se os dias, ficam os teoremas sem solução

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Jeremy, olhava para o presente deixado à mesa. De olhos marejados, respirava intenso, ignorando os pensamentos que surgiam complexos. Eram sentimentos de outrora, fixados à ferro e fogo na mente do jovem rei. Surgiam como tormentas que rompem do silêncio. Para o Rei, eram apenas lembranças que insistiam em permanecer intocadas.

Repousado à frente do Rei, um origami se fazia frágil.

- Christie! - murmurou ele, sorrindo gentil, triste.

O rei levantou os olhos, fitou sua antiga companheira. Sentiu a culpa corromper de seu coração. Sentiu o gosto de sangue lhe subir à boca e degustou amargo, aquela dúvida que sempre se fizera soberana.

Realmente fizera a escolha certa?

Ela ignorara o rei por todo esse tempo. Agora, jazia sobre o Rei, um olhar há muito conhecido. O olhar de uma esperança frágil.

[...]


Jeremy, o Rei, parecia se entregar ao súbito saudosismo. Fitava Christie como se naquele momento, nada mais importasse. Rompiam-se beijos que outrora foram silenciados por destinos desiguais. Entregavam-se ao desejo da mente confusa, ao delírio de corpos ardentes, às dúvidas que projetaram-se ao rompimento.

Ao fim daquela noite. Christie revelara o desejo de reatar. Ecoaram de seus lábios palavras de amor, palavras de perdão, palavras de um futuro promissor.

Aturdido, Jeremy se viu receoso. Novamente, rompiam os tremores. Os medos surgiam como fantasmas que bailavam ao luar. Pego de surpresa.

Vício da alma. Cicatrizes ainda sangrentas.

Em tantos anos, Jeremy se via sentenciado à viver sua dor, enquanto extirpava a dor alheia. Sempre guardara para si toda a angústia que jamais desejara proporcionar para outrem. Vivia submerso em seu próprio caos.

Sangraria sozinho.

De tanto sangrar, caiu em desgraça. Criou para si um monstro com sua face. Um monstro com a face de seus medos, de suas dores, de seus amores.

Naquela noite, não sangraria sozinho. Christie iria machucar-se. Iria chorar sozinha, corrompida pela realidade. Iria soluçar até dormir absorta pelo cansaço. Acordaria na manhã seguinte, e jamais olharia para Jeremy novamente.

O rei, por sua vez, enfrentaria a árdua tarefa de silenciar as vozes de sua mente. Enfrentaria novamente as dúvidas, o caos, os sentimentos adormecidos. Por fim, entregue ao delírio, seria atormentado pela única voz o qual deveria evitar.

A voz do próprio coração.

[...]

Uma nova alvorada surgia ao horizonte. Cambaleante, Rei Jeremy jazia sentado à cama. Acariciava o pequeno origami. Relembrava os bons momentos. Parecia sentir o gosto dócil daqueles beijos. Enxugou as lágrimas. Guardou a pequena moldura de papel, e por fim, andou solene pelo quarto.

Olhou a si no espelho. Os seus olhos emanavam um brilho diferente. Era a razão que o envolvia. Mesmo que Christie o odiasse a partir daquele momento, Jeremy precisava encontrar nos seus erros, um novo caminho. Soava egoísta. Porém, para si, fizera o correto.

Os erros do passado não poderiam ser reescritos. Deveriam permanecer intocados. As feridas iriam sumir. Ficariam as cicatrizes, e nem mesmo um recomeço iriam apagá-las.

Os caminhos seriam trilhados opostos. Como sempre foram, eles, Christie e Jeremy.

[...]