terça-feira, 13 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Dois - Au revoir, Elise

[...]

O fim da história anunciou-se ao pôr-do-sol. 

Jeremy olhou profundamente o vazio que se formara a sua frente. Ensaiou uma cara de dor, franziu a testa e se conteve. Respirou fundo e olhou novamente para o vazio.

O vazio da alma. Estabelecido naquela casa vazia, nos cantos empoeirados, na velha cidade. 

Jamais  fora tarefa simples. Da revelação à aceitação, Jeremy relutou até que sua razão prevaleceu. Aquela angustia crescente era apenas momentânea. No fundo, ria e desesperava-se, ainda brigava com o próprio coração. Ansiava por aquelas reviravoltas onde o dia não passasse de um pesadelo, e que no abrir de seus olhos, tudo voltaria ao normal. 

Os dias passaram-se como se um segundo equivalesse a uma década. Consolidava-se o momento de fitar aqueles belos olhos noturnos. Estranho, pois a distância que os envolvera naqueles dias fazia-se pequena comparada à distância que os envolvia no presente. 

Era dado o momento. Jamais tocaram no assunto desde então. A despedida era o ato final para aquela história. Raramente foram vistos juntos naqueles dias. Mas ali, no aposento vazio, juntos estavam. Olhares cintilantes, silenciosos, sentindo o calor dissipar.

Governariam aquele universo pela última vez.

[...]

O tempo moldara Jeremy. De medroso, tornara-se um lunático que entre a tristeza e a loucura, se tornara um perigo para si. No início, apenas estranhos um para o outro. Jeremy em seu cotidiano burocrático fixava o olhar na jovem mulher de olhos noturnos, cabelos dourados. Tão bela, tão diferente. De fala soberba, delicada. 

À época, o declínio de seu relacionamento com Christie era irreversível. Dia pós dia, o futuro deixava-se morrer sufocado pela perda da identidade do jovem rei. As intermináveis discussões, a obsessão de Christie, à ruína de uma mente promissora. Deveria ele encontrar uma nova razão para manter-se vivo. 

Assim o fez.

 Na sua agonia por tempos melhores, se via cercado pelos demônios de sua mente, a paz só se fazia presente na imagem sólida de Elise à sua mente. Era Elise que o pacificava. Encontrara na figura de Elise, não somente uma menina intrigante, mas uma amiga, uma conselheira, uma companheira que o seduzia com seus desejos de liberdade.  

Jeremy, o Perverso jazia na eterna busca pela felicidade que tardava em se tornar real. Com o passar do tempo, Christie saía da vida de Jeremy, pela porta dos fundos, guardando para si o rancor, o ódio. O rei começava a busca por sua identidade perdida, e por diversas vezes, via-se à encarar Elise.

[...]

Numa tarde de segunda-feira, olhara fixamente para os olhos de sua cura, sua doença. Era ela, Elise, Asas azuis.

- Arrisque-se, Jeremy! dizia ela.

Jeremy sorria. Havia algo muito forte que os unia. Era um sentimento que se misturava na amizade, na paixão irracional que agora abraçava o rei.

O silêncio feria Jeremy, o fazia sangrar.

Numa noite de quarta-feira, tentara traduzir em palavras o que sentia, sua voz soou rouca, trêmula, assim como suas mãos que tremiam recostadas às pernas. Respirou fundo, desviou o olhar ao horizonte rubro, e deixou o silêncio ecoar.

A noite chegara e com ela, o desejo de Jeremy o corrompia. Passadas largas pelo quarto, cigarro em punhos, olhava estupefato para as paredes, precisava expurgar de si aquele sentimento, precisava encontrar um modo de traduzir em palavras, o que sentia por Elise.

Sentou-se ao computador, abriu o editor de textos. E naquele momento encontrara no seu dom principal, uma maneira de expressar-se:

 "Ela, e tão somente ela, de essência rara; e por rara, diz-se comum nas Flores dos jardins dos Deuses. Vêm diante à minha presença, ora mórbida, ora relutante; dosando paz e risos que ela, e tão somente ela poderia proporcionar-me. Diante de tal figura, sinto-me reconfortado. E mesmo que Deus, o Onipresente Role os Dados, e Einstein, o Sábio não se importe com as chances, aclamarei por ela, meu profundo desejo de Navegar pelos Mares do Sol. Elizabeth, flor-de-lís; 'Elise', flor-de-lís dos Jardins de meu Éden. Tão somente minha, e inegavelmente de si própria. De plena juventude eterna; Eis que lhe ofereço palavras, e por palavras, digo presságios de destino incerto; Caminhos no qual, trilharemos sob a luz dourada e céu vasto; Diante de ti,Oh, 'Elise', ofereço minha essência ferida, mas de alma purificada".

Essência ferida, mas de alma purificada. Assim o era, ele Jeremy, o Excêntrico. Governara a sua maneira. Era apenas o eco de um coração que pulsava vibrante aclamando um ode à Deusa que revelara-se na figura de Elise.

[...]

"Governariam aquele universo pela última vez".

A real história de Jeremy e Elise começara numa segunda-feira, e quisera o destino findá-la  de igual forma. Sentados à poltrona, Elise mostrava-se inquieta, receosa pela concretização de suas escolhas. A voz agonizava em palavras desencontradas, e medo brilhava expressivamente nos olhos âmbar.

- Afastei-me de ti para não sofrer.  disse ela, por fim. 

Jeremy acenou em concordância.

- Eu sei - respondeu pacientemente, com o olhar fixo nas próprias mãos - descobri dias atrás, mas evitei mudar as coisas. Sacrifícios são necessários. Sua felicidade é a minha própria. Não poderia  tirá-la de ti por egoísmo. Era mais simples que meu silêncio falasse por si.  

As mãos do Rei tremiam, e o nó em sua garganta começava a sufoca-lo. Queria gritar; chorar; romper a razão imposta e alimentar novamente esperanças incertas para tê-la em seus braços.

Apenas queria dizer: Não vá. Há um mundo inteiro de possibilidades. Viva ao meu lado os seus próprios sonhos. 

O desespero internamente falava por si, mas de sua boca, nenhuma palavra fora proferida. Havia decidido que o futuro não mais lhe pertencia.

Palavras sufocadas no berço da fala. Respirou fundo, e sentiu a dor de mil agulhas perfurarem seu coração. Abraçou-a. Um abraço terno, sincero, arrebatador. Sentiu o perfume lhe nocautear. Ela, ao seu turno, recostou-se reconfortada nos ombros do Rei. 

Novamente, o silenciou falou pelos dois.

Os últimos minutos de uma história bela.

Os olhares se cruzaram confusos, marejados, místicos.

[...]

Aqueles olhos castanhos, ora vívidos, ora amedrontados, estaria diante de infinitos pores-do-sol, o qual a cada dia proporcionaria ao jovem rei sabores e dissabores distintos. Os meses se arrastariam sublimes, e à medida que o tempo se fazia longo, Jeremy criaria uma fantasia de si próprio, vivendo ao lado de sua amada, Elise, um futuro incerto.

Sonhos não concretizados.

Diferente de todas paixões irracionais, Elise tinha uma essência incomum. Era mulher livre, era menina delicada, era uma exposição de ideias e idolatrias o qual dominavam Jeremy, e ele se veria frustrado por noites e noites. Pelo silêncio que o envolvia, pelo medo irracional de perder Elise. Romperia em crises intermináveis, olhando pela janela, saboreando cigarros e mais cigarros, fitando mentalmente aqueles olhos noturnos, aquela liberdade o qual ele jamais tivera.

Jeremy nunca fora homem livre. Sua ascensão precoce ainda nos anos anteriores lhe fariam ser um homem forte, que governaria à sua maneira. O mundo se fazia um mero espelho de sua própria ignorância. Estaria ele, por vezes à mercê da própria força. Frio, impassível, racional. Assim fora, ele, rei Jeremy. Um reflexo de suas próprias cicatrizes. Apenas a imagem de um mundo corrompido pelas dores e pela injustiça.

Forte para o mundo, fraco para si. 

Ao lado de Elise, entretanto, se fazia forte para si próprio. Buscava nas próprias dores, uma razão para a própria existência. O sentimento por Elise corrompia a escuridão que o envolvia. Aos poucos, dissipava-se a névoa densa e cintilava ao horizonte, um sol rubro, vívido, acima de um campo verde esmeralda, onde bailavam borboletas azuis, onde o belo era possível.

[...]

Para trás ficara a casa vazia. Naquele momento Jeremy sentiu o peito comprimir numa dor aguda. O que parecia ser apenas um pequeno lapso de insanidade, agora se fazia real. Elise realmente partiria. Para não mais voltar, para longe daquele cantinho, daqueles pores-do-sol, daquela casa, daquela cidade.

Rainha Elizabeth enfim iria viver sua própria liberdade, seus próprios sonhos.

Olhos castanhos e olhos noturnos se fitavam pela última vez. E os braços que envolvera Jeremy por tantas vezes, agora o agarravam forte. O Rei retribuíra o gesto, e envolvendo Elise em seus braços, apertou-os, para nunca tornar a abri-los.

- Sentirei tanto a sua falta - dizia ela, com voz suave, saudosa.

Jeremy sorriu triste. Os olhos marejaram. Formou-se um nó na garganta.

- Também sentirei a sua falta, meu anjo - dizia ele, sem saber exatamente o que dizer - Você não sabe o quanto!

Um sorriso gentil se fez aparecer naquele belo rosto de menina. Um sorriso para jamais se esquecer. Um sorriso que por tantas vezes encantara rei Jeremy.

- Nunca deixe de escrever - disse ela.

Ele assentiu.

Elise se aproximou e os olhos se encontraram, beijou-o docilmente à face, e ele novamente se viu fazendo cara de dor.

- Arrisque-se, Jeremy - ecoava a voz de Elise em sua mente. 

Jeremy, tomado pelo impulso, pelo desejo, abraçou-a ainda mais forte. Convicto, beijo-a calorosamente. Os lábios tocaram-se pela última vez. Agridoce. Tão incrivelmente dócil, e maldosamente amargo. Elise chorou silenciosa. 

Separaram-se, e seus olhos se encontraram pela última vez. O mundo deixara de girar, e a noite mostrou-se ainda mais escura. Caminhando lentamente, jamais olhou para trás, jamais volto para os braços de Jeremy. Para seu universo paralelo, Elise partiu.   

Era o fim.

[...]

As mãos já não mais se faziam trêmulas naquele instante. O brilho de seu olhar confuso se misturava ao luar tímido que rompia severo ao horizonte. Apenas se ouvia o som de seu coração. Era de uma melodia triste. Era um pulsar lento, como se partido em mil pedaços, relutava em sobreviver à realidade que se fazia presente.

No momento em que Elise partira, Jeremy se viu cambaleante, sufocando pensamentos que se misturavam às sensações distintas. A mente sucumbiu à loucura, ao tempo em que a sobriedade o envolvia. As palavras ecoavam gritantes em sua mente, e sua boca não se movia. Os pés caminhavam bêbados, enquanto o corpo se fazia petrificado.

Não dissera uma única palavra. Não fizera nada para mudar o destino. Temia misturar paixão e razão, e por aceitação, preferiu acreditar que nada que pudesse fazer, iria corromper o presente que se apresentava.

Caminhou silencioso. Em sua mente, pensamentos e lembranças vagavam, tão cheias de vida, tão cheias daquele amor que sentia por Elise. Ecoavam palavras o qual não pudera mencionar...


"... Governamos à nossa maneira. Do açúcar ao sal, fizemos os sabores que nem mesmo os beijos puderam decifrar. Era um gosto diferente, de paladar sutil, de aroma forte, que nos embriagava, que nos fazia bailar, ao som que ecoava nas noites frias.
Assim reinamos. Como pessoas tão distintas, no irracional, onde propusemos a viver intensamente algo que nem mesmo as palavras mais belas poderiam descrever. Eram palavras que se perdiam no medo, mas se encontravam na arte de viver. Era dócil, era supremo.
Fomos soberanos. Na dor, no paixão. Sentimento, este, que me fazia acordar sufocado, pensando numa bela mulher de asas azuis, voando livre pelas ruas, sorrindo, e encarando a vida com toda essa essência de eterna jovem.

Não somente admirei essa mulher. Mas a desejei com todas as forças reunidas em meu coração. A vida me fizera abraçar mentiras que me machucaram, e as cicatrizes não foram poucas. Mas Elise me fizera abraçar a realidade, e aceitá-la como tal, fosse amarga ou dócil.

São esses encontros e desencontros que me movem. Uma vida inteira em poucos meses. Palavras não traduzidas. Apenas o silêncio. Deixei de abrir fielmente meu coração, pois desnecessário seria. De alguma forma ela saberia. Palavras poderiam me trair, as nunca um olhar. Um olhar não mente.

Devidamente mencionado, o último olhar dissera o que as palavras não conseguiriam, e naquele ultimo segundo, quando os olhares se cruzaram pela última vez, o olhar castanho de Jeremy apenas dizia: 

- Você é parte de mim, e sempre será.

Era o necessário.

[...]

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