[...]
A tarde chegava ao fim. O sol rubro aos poucos era engolido pela monótona cidade interiona. Ao horizonte, nuvens enegrecidas envolviam o pôr-do-sol eminente. A estrada se prolongava até a visão se perder nas casas e becos espalhados pela cidade. Da longa estrada, um carro rompia à toda velocidade. No seu interior, músicas ecoavam gritantes:
"Mudaram as estações, nada mudou. Mas eu sei que alguma coisa aconteceu. Está tudo assim tão diferente..." Os olhos castanhos brilhavam. Relutavam as lágrimas para eclodirem. Ele, Jeremy, segurava-se. Prendia a respiração e cantava. Para os céus, para o nada...
"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre, sempre acaba."
O pra sempre, sempre acaba...
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Jeremy adentrou aquelas muralhas. O vento frio soprou por entre seus cabelos. Com as mãos nos bolsos, caminhou lentamente, à passos firmes. Os passos rompiam o silêncio ao chocar-se com as folhas secas ao chão.
O mundo jazia emergido no silêncio da natureza. Tudo se calara diante do rei. O universo estava quieto. Apenas o som do coração emanava a vida. As nuvens agora abraçavam o sol poente. Na penumbra que se estabelecera, Jeremy cessou a caminhada. Diante da foto envelhecida pelo tempo, seus olhos lacrimejaram...
Do horizonte, o sol transcendera as nuvens, e o brilho sangrento pairou sobre a imagem. A brisa gélida varria as folhas ao chão, a natureza entoava novamente o tom da vida.
Jazia o rei sorrindo triste. Sentia o vazio. Era o vazio que o abraçara nesse longos sete anos. Era a saudade. Era a triste realidade de observar a lápide negra que se elevava à sua frente.
O berço final.
Onde jazia a última lembrança de sua mãe.
[...]
Jeremy olhou estático a foto. Permaneceu em silêncio por minutos intermináveis. O sol logo seria engolido pela noite que se anunciava fria. Sentou-se no mármore negro, gélido. Acendeu seu cigarro, olhou para o horizonte.
Era o silêncio que o envolvia. Prestou suas homenagens mentalmente. Falava, em seus pensamentos, como se ela, ali estivesse. Viva, cheia de energia, sorridente. Como outrora fora.
- Sete anos já se foram - dizia Jeremy, enquanto seus olhos castanhos fitavam distantes, o horizonte escarlate - Eu cresci, mãe. Não sou mais aquela criança que chorou aqui, nesse mesmo lugar, desamparado. Tenho lutado...
A brisa tocou suave o rosto do rei, e este, permanecera sério. Mais um trago. Deitou-se.
Diante de sua visão, um enorme ipê, desfolhado pelo outono, se erguia. Os galhos secos, se emaranhavam rente aos céus. Jeremy, o Rei, continuava sua conversa.
- Muitos já se foram - sorria triste, Jeremy, o Saudoso - A vida tem sido complicada. Os dias tem se tornado complicados. E a paz? Ah, a paz...
Fechou os olhos, lágrimas silenciosas rompiam e se debruçavam no mármore.
- Apenas busco paz, mãe. Não é pedir muito, creio eu. É terrível acordar, e sentir o medo consumir tudo. Tremer e temer, o desconhecido...
Respirou fundo. Parecia procurar o colo da mãe. Queria estar naqueles braços tão reconfortantes, ouvir aquelas palavras duras, por vezes, porém, tão materna.
- Queria apenas recuperar a parte de mim que deixou de existir. Não sei ao certo, mãe. Mas não sou mais o mesmo. Envelheci, eu sei. Me falta algo mais. Talvez a coragem de seguir adiante - Jeremy chorou pesadamente - Me falta forças, me faltam...
- Me faltam...
O silêncio reinou na mente de Jeremy. Este, fitava os últimos raios do sol, perdendo-se nas lembranças. Era homem feito, mas a criança dentro de si, novamente pedia os beijos de sua mãe.
Jeremy, o Rei levantou-se. Olhou novamente a foto. Colocou as mãos nos bolsos do casaco. Seus olhos cintilaram, seu sorriso amargo rompeu-se saudoso e disse baixinho:
- Amo você, mãe. Sinto sua falta.
Não olhou para trás. Caminhou silencioso. Não percebeu, mas a noite rompia na lua cheia pálida à leste.
[...]
Caminhou só. Caminhou novamente pela trilha de seus anseios. Havia um mundo o esperando. Um mundo o qual governara sozinho desde então.
A tristeza o consumia e o fazia caminhar. Caminhava para longe daqueles túmulos, para longe do reino dos mortos. Durante os meses descritos nessa história, Jeremy sempre temera a morte.
Talvez fosse apenas o reflexo de sua própria vida. Tantos se foram. E sempre restara as lembranças, a dor, a vida vazia que agora Jeremy tentava preencher com a saudade que lhe apunhalava o peito.
Caminhou só e não olhou para trás.
[...]
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