Arranha-céus que se erguem sob a tediosa paisagem de pedra. Sentado às escadas, um homem, cujo queixo se apoia às mãos, observa a sintonia da natureza mórbida.
Reino sólido, governado à sua maneira. Sob princípios, valores, muralhas e sorrisos. Vozes que ecoam nos becos, e cores que ilustram um cenário diversificado.
Sorri distraidamente, mas rapidamente, vê-se novamente em seu mundo real. Aquele mundo que está sentenciado à governar.
[...]
Os meses seguiram inalterados. Jeremy relutava em preservar o silêncio que se estabelecera. Por vezes, temia quebrá-lo, e punia-se mentalmente por tal conduta. Não queria colocar tudo à perder. Conquistara muito até aquele momento. Um palavra mal colocada, e as edificações de seu universo poderiam ruir.
Assim o era e sempre o fora. Com seus dilemas imponderáveis, que na construção da narrativa de sua própria história, mostrava-se que o bem e o mal eram apenas linhas tênues que dividiam a mesma esfera. Yin & Yang.
Jeremy moldara-se no receio, e repetidamente, o receio estaria estampado na sua jornada. Como um vício de linguagem, as palavras não se alternavam, nem os sentimentos. Inicialmente, apenas um homem só, receoso quanto a própria existência. Viera Christie, e seu mundo já fadado à tragédia, tornou-se puro caos na essência.
Correto afirmar, Christie fora o apenas último golpe, o nocaute. Jeremy apanhara muito na vida. Ascensão e queda. Um trono para governar; o peso de um mundo sobre suas costas.
Conquistara a força, e traído por ela, caíra em desgraça.
[...]
Doente, insano, perverso. Assim o era, Rei Jeremy. Dono de si, e senhor de ninguém. Um desequilíbrio na ordem do universo. Diante do espelho enfrentava seu próprio inimigo. Sua própria doença. Dissipavam-se as noites de sono, erguiam-se as madrugadas de terror.
A maldição recaída sobre seus ombros começara a se transformar com a introdução de Elise em sua vida. Era estranho como uma mulher podia equilibrar e desequilibrar a fiel da balança, e por motivos certos ou errados, Jeremy gravitou pela força arrebatadora de Elise. Como se puxado pela correnteza, Jeremy afogando-se nos desejos e no brilho daqueles olhos noturnos.
Era ela, e tão somente ela, o motivo para que o jovem rei prolongasse seus dilemas. Razão e coração em conflito.
"Arrisque-se, Jeremy!" - Dizia ela em diversos momentos - "Arrisque-se!".
Jeremy assim o faria. Arriscar-se-ia, sem temores, sem discernir o sensato, o perigoso, o correto.
Jeremy assim o faria. Arriscar-se-ia, sem temores, sem discernir o sensato, o perigoso, o correto.
[...]
O silêncio o afastara. Jeremy se arriscara quando deveria pregar a cautela. As feridas expostas de sua vida sangravam demasiado recentes, e para o rei, apenas Elise o motivava a seguir adiante. Ela o fazia ver o mundo sob um olhar diferente. Como um homem que busca na fé o entendimento da vida, o rei buscava em Elise, algo que trouxesse razão para sua própria existência.
Os diálogos ao pôr-do-sol das inúmeras tardes sempre o remetiam para a próxima batalha, mas diversas vezes hesitara por não estar preparado. Nada podia fazer quando seu próprio coração o encorajava a arriscar, mas sua razão o envolvia no escudo invisível do ponderável.
Tardiamente, descobriu-se movido por uma força maior. Um tal irracionalidade e impulso. Eram os desejos que falavam por si. Assim o fez. Arriscou-se. Enfrentou o próprio desejo de conquistá-la, e viu-se por diversas vezes ao chão. Era um bravo guerreiro. Egocêntrico; do não desistir sob hipótese alguma. Levantava a cada queda, e via-se novamente brandindo uma espada invisível, contra um inimigo que tinha sua própria face.
Recuava ante a amizade adquirida. Tão iguais, tão distintos. Mas a desejava.
Aventurava-se no contexto das palavras, e sempre fora claro quanto aos seus sentimentos para com Elise. Não sabia o que esperar. Porém, sempre encontrava o silêncio diante de si.
O medo o faziam se afastar. Mesmo quando os sentimentos pareciam corromper os limites do receio, ambos temiam perder um ao outro. No entanto, Jeremy arriscava-se. Se jogava de peito aberto ao sentimento, e enfrentaria o que diabos se apresentasse à sua frente para tê-la em seus braços.
Desejos e temores recíprocos.
[...]
Aos poucos, desenhava-se o último ato daquela bela história. Jeremy deixou o silêncio preencher o vazio que aos poucos começava a tomar conta de seu íntimo pela escolha de Elise. O tempo falaria por ambos. A paixão avassaladora fora lentamente substituída pelo carinho, pelo respeito, pela amizade.
Nas memórias do contador de realidades, seriam eternamente Rei Jeremy e Rainha Elise.
O sentimento por Elise estaria preservado no fundo de seu coração. Mas no fundo tinha a certeza, de que poderiam ter se arriscado mais, desejado mais, e o mundo estariam aos seus pés.
Durante meses, a bela mulher fora seu motivo de risos, seu porto-seguro, sua salvação. Nela encontrara sua sanidade, nela perdera-se no receio.
Não iria perdê-la, de igual forma, ela não o perderia. Seriam parte um do outro na incógnita de um conto. Estariam lado à lado, amigos; amantes. Destino revelado. Inimigos ao chão. As linhas do tempo seguiriam os caminhos opostos.
Aos poucos, deixava-se guiar pela razão. Aceitara de bom grado a escolha imposta. Afinal, eram desejos há muito conhecidos por Jeremy. Cedo ou tarde, Elise o deixaria, e sua vida novamente seria a liberdade que tanto abraçava.
A felicidade de Elise era a sua própria.
O rei não mais amava a figura feminina de Elise. Mas amava a figura de companheira, e principalmente, a figura de amiga.
[...]
Novamente um futuro incerto se projetava à sua frente. Olhos dilatados na escuridão. Deixou para trás os pensamentos, e velado pelo mercúrio das luminárias, guiou seu carro pela noite.
Sorriu satisfeito.
O coração pulsava vívido, e o frio na barriga crescia e o preenchia.
Não haviam mais dilemas. Pela primeira vez em anos, acreditava ter feito a escolha certa.
Era dado o momento de viver novamente sob o aspecto do incerto, e dessa vez, Jeremy seguiria os conselhos de Elise. O medo não falaria por si, sequer o silêncio.
Era dado o momento de viver novamente sob o aspecto do incerto, e dessa vez, Jeremy seguiria os conselhos de Elise. O medo não falaria por si, sequer o silêncio.
Arrisque-se, Jeremy! - dissera certa vez Elise.
Arriscar-se-ia, ele, rei Jeremy.
[...]
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