domingo, 27 de junho de 2010

Rei Jeremy, O Perverso - Capítulo Vinte e Nove - Segredos e Revelações

Jeremy, o Rei novamente assumia a postura cautelosa. Seus olhos aflitos varriam o quarto. Era a insônia que o dominava. Deitado à cama, sentia o peso do corpo, os movimentos lentos, porém, o sono não o abraçara.

Sentou-se. Hábito costumeiro, acendeu mais um de seus cigarros. Uma tragada, coração pulsante, fumaça ao ar. Um piscar de olhos, pesado suspiro de reprova, à irritação. Assim o era, ele, Jeremy, o Perverso. Governara à sua maneira.

Era aquele o seu universo. Sua vida diante das frases não mencionadas.

Eram os seus segredos de um outono a mais.

As semanas se arrastavam na linha tênue de um tempo complexo. Jeremy, o Rei há muito via-se absorto pelas responsabilidades burocráticas. O corpo sustentava-se apenas pelo orgulho que o mantinha sóbrio, mesmo que saboreasse doses de delírios de desespero e ansiedade.

Era o caos que criara para si. Era a vida que escolhera.

Debruçado em páginas envelhecidas, seus olhos percorriam a sintonia das palavras que o remetiam à sabedoria.

Olhar fixo, pensamentos focados. Mais um dia que terminara. Mais uma noite jogado à insônia.

[...]

O relógio marcava cinco horas da madrugada. O rei jazia deitado à cama. As pálpebras pesadas travavam duelos intermináveis com o sono. A barba por fazer demonstrava a imagem de um rei em ruínas.

Poucos horas mais e um novo dia romperia a sombria noite de outono. Jeremy era um rapaz simples, gozava de seus vinte e poucos anos. Apesar da idade, fios branco-perolados já se anunciavam no emaranhado castanho escuro de seus cabelos. A própria barba por fazer já demonstravam sinais de uma pseudo-velhice-precoce, pigmentando o queixo redondo com fios brancos.

Jeremy, o Rei Perverso, novamente tentava através de suas memórias, encontrar razões para os imbróglios intermináveis que se estendiam no leque de questões à frente.

Apesar do cansaço, dava vida aos pensamentos.

[...]

Entregue ao cansaço, sentia faltar-lhe algo. Havia semanas, o Rei estava absorto nos afazeres costumeiros, tal fato o afastara dos momentos com Elise. Os tempos haviam mudado. Jeremy fizera escolhas o qual os caminhos o levavam para longe de sua companheira. Elise, por sua vez, também escolhera caminhos o qual contrastavam com a realidade de Jeremy. Poucos dias mais, e estariam distantes.

Eram segredos e revelações que mudariam para sempre a história do rei. Eram segredos jamais mencionados. Escondidos pelo tempo. Apenas vívidos nas lembranças do rei Perverso. Apenas uma lembrança o qual Jeremy vivenciava mentalmente.


"A distant time, a distant space, that's where we're living. A distant time, a distant place. So what you giving?"

"Ecos de um rádio tão distante. Cantarolando solitário, na noite fria de outono, num quarto submerso na escuridão, no brilho quase apagado de um luminária azul. Nos sonhos bons de um Rei. Um rei perverso, para si, para o mundo.

À cama, o Perverso dormia sereno. A brisa gélida adentrava pelas frestas da janela, preenchia o ambiente com o ar renovado da noite que acabara de nascer.

Em algum lugar distante, olhos da noite admiravam a paisagem da estrada. Elise, por alguma razão, se distanciara da cidade o qual se dirigia novamente. Talvez fosse a falta de um colo de mãe. Talvez fosse apenas a vontade de novamente estar distante, de viver a vida o qual sonhara. Passou a mão pelos cabelos dourados, mais alguns minutos e estaria em casa. Pegou o celular, colocou-o rente ao ouvido. Segundos depois, rompia uma voz masculina, sonolenta, ao telefone:

- Alô!
- Oi! Espero não estar atrapalhando. Estou voltando, pode me dar uma carona? - questionava Elise.

- Claro! Sem problemas. Vou me arrumar! - retrucou Jeremy.

Minutos depois, encontraram-se. Um abraço longo, quente, gentil. Entraram no carro. Jeremy olhou para o céu estrelado, admirou pela milésima vez a beleza inquietante de Elise, esta, por sua vez, sorriu sem jeito.

Assim o eram.

[...]

Jeremy sentia a sobriedade diminuir. Pela primeira vez em meses, era proposital. Erguia sorridente aquela taça de vinho. Um gole sedento, saboroso. Sorria prazeroso. Embriagado, fitou Elise, desejou-a como nunca a desejara antes. Após longos meses, era a primeira vez que não se importava com as consequências. Queria-a, e queria-a agora. Tão e somente sua cura.

Os olhares se encontraram. Olhos castanhos. Olhos da noite. Ela mordia delicadamente os lábios, e ele, sem hesitar, investiu sedento. Entrelaçaram-se num beijo caloroso. Era dócil. Como o vinho, como o prazer.

Ele a abraçava intensamente, percorria com seus dedos, a maciez da jovem mulher. Por entre as curvas, deslizava suave, instigando-a. Ela o abraçava, feroz, o trazia para junto de si, cravava suas unhas na carne, e o sufocava no êxtase.

Lá fora, o frio envolvia a cidade interiorana. A madrugada serena, silenciosa estava. Lá dentro, dois amantes se deixavam dominar pelo prazer. Envolviam-se no calor de seus corpos. Ele à envolvia em seus braços, enquanto seus lábios deslizavam pelo corpo de Elise.

Aos poucos, as roupas se esparramavam pelo chão, e revelavam a nudez de seus corpos. Jeremy, investia como um animal, não se importava, era a paixão que falava por ele, era o desejo, o prazer. Abraçava-a, tocava-a, como se naquele momento, apenas ela existisse em seu universo.

Elise revelava um corpo delicado, de um tom de pele claro, de curvas gentilmente convitativas, de seios fartos. Jeremy a beijava intensamente, enquanto percorria seus dedos pela nuca, descendo suavemente pelas costas. Ofegantes, deliravam, transavam como se há muito desejassem por isso.

Ela sorria loucamente, prazerosa. Ele, sorria discreto, no frenesí, sentindo o calor de sua companheira. Eram lobos famintos. Eram animais, que uivavam, que se seduziam e investiam ferozes, sedentos.

A madrugava se entregava ao ápice. Lá fora, a pálida lua, se fazia solitária. Naquela noite fria, naquela noite onde o destino unira seres que há muito se proibiam.

Em algum lugar, não se sabe onde. Ecoavam melodias de um velho rádio.

"Feel the air up above. Oh, pool of blue sky. Fill the air up with love, all black with starlight".

Em algum lugar, não tão distante. Um Rei e uma Rainha, entregavam-se à paixão. Entragavam-se aos mais ínfimos desejos. Naquela noite, não seriam apenas Rei e Rainha. Seriam Rei, Rainha, amigos, amantes.

A alvorada surgira envolvida na densa névoa que cobria a cidade. Aqueles olhos castanhos, ainda ofuscados pelo sono, fitavam o corpo de um jovem mulher. Jeremy acariciava a pele macia de Elise. Sorria, como um tolo. Acordara abraçado com sua Rainha, desejava permanecer o dia todo ali, mas a vida cotidiana o esperava. Tornou a colocar sua roupa.

Despediu-se de sua companheira com um beijo gentil e partiu..."

[...]

Jeremy novamente voltava á realidade. Jamais se esqueceria da noite que passara com Elise. Os tempos, como já fora mencionado, eram diferentes. O cenário permaneceria o mesmo. Os personagens, aos poucos iriam seguir vidas distintas.

Fechou os livros e olhou pela janela do quarto. A manhã nascera calorosa. Dia atípico. O primeiro dia do inverno. Jeremy, o Rei, abraçado à insônia, levantou-se.aposentos.

- Mais um dia se inicia - pensou.

O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.

Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise.

[...]

Um comentário:

  1. e Christie???
    o__O
    Mais um dos capítulos intensos.
    E mostra mais uma vez a inconstância de Jeremy e de seus sentimentos.
    Estou começando a acreditar que entre Jeremy e Elise, o relacionamento tem muito mais carnal do que o próprio sentimental... rsrs
    Mas eu gostei...e realmente deixa um gancho para o próximo capitulo.

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