Os dilemas dos dias atuais, como sempre fora para ele, Rei Jeremy, contrastavam com acontecimentos passados. Uma manhã de sol, sempre seria precedida por uma noite sombria. Assim eram os pensamentos de Jeremy. Seus atos, seus pensamentos, eram baseados nas escolhas de outrora.
Uma história jamais deveria prosseguir, sem antes, fazer verdadeiras as frases não mencionadas.
[...]
O início do inverno marcava também, o início de uma nova jornada. Dos segredos do outono se faziam as revelações do inverno. Da história com Elise se faziam os pensamentos de um Rei Perverso. Porém, haviam frases não mencionadas. Haviam histórias não contadas.
Havia algo a mais. Algo que mudaria para sempre o destino de Rei Jeremy e Rainha Elise...
... "Ela caminha, dançante, orbitando o próprio corpo. De braços abertos, convidativos, abraçando o infinito. Sorri, incrivelmente feliz. O olhar se perde naquele cenário, e seus olhos brilham, como jamais brilhara outrora.
Esse é o seu paraíso. Esse é o seu universo.
Despencam do teto, como cascatas, cortinas vermelhas. Ao topo, balaústres púrpuras-azuis-dourados. Ecoam canções, e estas, falam do amor, dos bons tempos. Bailam perante seus olhos, poemas e atores. Um mundo mágico, um mundo do belo. Do triste, do vulgar, do mundano.
Ela sente um arrepio percorrer-lhe o corpo. Sorri, em êxtase.
É o palco de sua vida. Naquele o qual iria fazer sua própria história.
Essa é a escolha de uma rainha sonhadora. Uma tal Elise, uma tal Asas azuis".
[...]
Uma tarde qualquer se faz quente lá fora. Dentro de uma sala burocrática, Jeremy olha a pilha de papéis em sua mesa, faz careta. Elise, por sua vez, sentada à poucos metros, quebra o silêncio.
- Estou voltando para minha terra - diz ela, impassível.
Ela a fita. Não sorri. Parece não perturbar-se com as palavras proferidas.
- Está mesmo decidida? - Questiona ele, quebrando o silêncio que se estabelecera.
- Sim! Esse é o meu sonho.
- Se é o seu sonho, fico feliz por ti! - sorriu.
Chegara o momento o qual Jeremy temera por meses. O dia em que a realidade o colocaria cada vez mais distante de Elise.
O rei novamente olhou novamente para os papéis em sua mesa, balançou a cabeça em desaprovação.
Sentia-se sinceramente feliz por ela, porém, algo o incomodava.
- Malditos papéis - sussurrou.
Fez careta.
[...]
Os dias que antecediam e precediam a relevação de Elise, eram incógnitas. Rei e rainha já não mais sustentavam o hábito de seus encontros ao pôr-do-sol. Por alguma razão, afastavam-se cada vez mais. As obrigações consumiam a maior parte do rei, e este, desprovido de meios de desvencilhar-se de tais fardos, jogava-se no abismo do stress.
Jeremy lutara cegamente, e grandes foram os esforços para adquirir a sobriedade, porém, o destino parecia o punir. Novamente o medo o abraçava. Era o medo da morte. Era a solidão que o envolvia, e nas longas noites o qual ficara acordado, apenas os livros o faziam fugir desse universo ameaçador.
[...]
Sofria antecipadamente. Tão perto, tão distante. Os dias se passavam lentos, as vozes se encontravam por meros lapsos do acaso. Eram tempos onde todos aqueles momentos que outrora se findavam ao pôr-do-sol, não mais se faziam presentes.
Caminhos opostos no cotidiano. Caminhos opostos para um futuro não distante.
Saboreava aquele gosto amargo, aquela sensação de que em poucos dias, haveria um vazio imenso no banco de seu carro, no sofá, naquele cantinho costumeiro onde
costumavam fumar.
Assim o era, ele, Rei Jeremy. Evitava falar sobre a partida de Elise. Evitava, pois sentia-se perdido. Sentia uma parte de si estar cada vez mais distante.
Antecipou-se à dor, pois ela viria. E com ela, a falta de uma companheira que não se tornara apenas parte de sua vida, mas principalmente, parte de seu coração.
[...]
Ela baila, sorri. Ela se faz silenciosa, se faz soberana. Essa é a sua canção. É o seu ato. Ela se deita nas pétalas vermelhas, abre os braços, sente o piso gélido tocar-lhe os braços nus. Sente novamente o arrepio do desconhecido serpentar sua espinha.
Suspira de prazer.
O platéia aplaude em pé, extasiada. Urros de celebração. Vivas, glórias. Bravo! Bravíssimo! Em coro.
Fecham-se as cortinas, apagam-se as luzes, cessam a canção.
Esse é o seu universo. O seu paraíso. O seu show.
[...]
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