quinta-feira, 29 de julho de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo - Trinta e Três - Novos dias de tempos passados


Pilares sólidos, que se fazem caídos nas ruínas do tempo. Ele fixa o olhar no horizonte. Suspira e seus olhos se tornam cristais cintilantes, de um brilho escarlate. De sobrancelhas arqueadas e testa franzida, ele novamente suspira. Sente o ar preencher os pulmões, sente as mãos estremecerem e, em sua concha solitária, com seus braços erguidos em V, ele olha fixo aos céus. As lágrimas que se formam, não cascateiam pela sua face rígida.

Ele cobra de si mesmo uma razão para continuar. E ele sente a própria ira corromper seus pensamentos. Os braços pesam toneladas, e a mente viaja através de pensamentos, memórias, desejos e ilusões.

- O que quer de mim? - Ele grita, aos céus, de voz trovejante, sentindo a ira crescente, sentindo o peso da própria alma.


Sua voz soa como um desabafo, e ele se vê solitário naquele mundo cinzento.

- Quer que eu me ajoelhe? - novamente ecoa sua voz em fúria

Ele sorri com malícia. Seu olhar agora não mais se faz inocente. São olhos demoníacos mostrando ao mundo que ali habita um ser racional, marcado por cicatrizes sangrentas.

Ele se joga ao chão. Ele se curva diante dos céus, e suas sobrancelhas arqueadas, seu olhar malicioso, desafiam divinas profecias.

- Até quando, meu caro? - ele urra, sentindo à boca o gosto de sangue.

O silêncio pairava. No horizonte, não mais se fazia presente a figura daquela bela figura de asas azuis. Apenas o vazio.

Elise não mais fazia parte daquele universo.

Jazia ali, um homem, curvado diante do próprio destino. Diferente do rei de outrora, ele se faz soberbo, e soberano, governa à sua maneira.

Assim o é, ele, Rei Jeremy, o Perverso.

[...]

Dias vem, dias vão. Noites em claro, e o cansaço que o consome. Mesclado na incerteza e nas crises que insistem em despertar do sono profundo, Rei Jeremy novamente se vê diante dos tremores e temores. Uma noite qualquer, ele se joga à cama. Deitado, saboreia os prazeres indescritíveis do último cigarro da noite.

Olhando fixo o teto do aposento, fecha os olhos e desvencilhando dos pensamentos, se joga ao sono iminente, mas este parece relutar. Inexplicavelmente, sente o coração romper abraçado à ansiedade. E lapsos de uma crise de pânico se revelam. Ele se irrita com o acontecimento, e diferente das crises anteriores, apenas preenche a mente com seus pensamentos positivos, e em poucos minutos novamente se vê um homem jogado à cama, com sua irritação habitual, com seu interminável questionário.

- Até quando? - resmunga, em tom de desaprovação.

Derrotado pelo cansaço, ele dorme impaciente. O ritual se consagraria nos dias intermináveis futuros. Noite pós noite, ele estaria jogado à mercê de sua irritação, de seu cansaço costumeiro, de seu desejo que um novo dia quebre a maldição que a noite lhe proporciona.

Assim o é, Jeremy, o Impaciente.

[...]

Outro pôr-do-sol finda o dia. Jeremy se joga exausto à cama. Semana pós semana ele se vê acuado pela rotina surreal. Seu olhar cintilante de outrora não mais se faz presente, dando lugar à um olhar cético, em tom de desaprovação.

Ele não sorri. Ele não chora. Corrompido pelos pensamentos, Jeremy se mostra um homem frio, impassível, triste. Ele sente falta dos velhos tempos, e se vê saudoso pelos crepúsculos que nos meses de outono foram como um refúgio para seus pensamentos.

Seu corpo castigado pelas semanas que sucederam a partida de Elise se mostrava exausto, porém, seus pensamentos voavam, e dentre pensamentos e memórias, ele se via acuado. Tomado pelo cansaço, ele adormecera, mas em questão de poucos minutos, sua mente o despertara.

Apenas um corpo exausto, apenas uma mente que insiste em equalizar experiências fortes.

Assim o é, Ele, Jeremy, O rei exausto.

[...]

Diante do espelho, Jeremy fita sua própria imagem. Um homem envelhecido nas semanas que se passaram. Suas olheiras tatuam a imagem de um rei derrotado, ele suspira descrente. Induzido pelo orgulho, não admite estar em iminente queda. Não aceita estar se entregando à insanidade. Ele reluta, e quando o ódio parece consumir suas energias, desfere um golpe certeiro ao espelho. Estilhaços se projetam ao ar e se chocam com aquela figura decadente.

O sangue rompe de seu punho, e por incrível que pareça, seu rosto se faz ileso. Ciente da realidade que o cerca, ele sente a visão escurecer, e os joelhos se curvam, pesados.

Jeremy se vê caído. Sem forças para se reerguer, sem sua soberania suprema para o proteger.

Pela primeira vez em dias, ele chora, aos soluços, ao desespero. E, tomado pelo irracional, sua mente se projeta nos anos que antecederam tal situação.

As quedas, as feridas, Christie, Elise, crises... pânico.


Apenas um homem caído ele o é.

[...]

Os meses vão se lentamente, e Jeremy se vê solitário, sentado na velha praça, onde outrora costumava jogar conversas foram com seus velhos companheiros. Consumido pelo desespero, pela tristeza, ele apenas fita a velha avenida que corta a pequena cidade interiorana.

Desviando o olhar, ele projeta o olhar ao solo, e ali permanece. Silencioso, temeroso, descrente.

- Dê-me uma razão para seguir - divaga, com voz rouca - Dê-me um motivo para encontrar minha própria felicidade!

E quando o silêncio parecia ensurdecedor demais, uma mão postou-se ao seu ombro. Uma delicada mão feminina, há muito conhecido pelo jovem rei.

Ele fita a figura feminina, e sorri tristemente.

Olá, querido - diz ela, com voz suave, com um tom apaixonante.

Jeremy se levanta, e sem perceber, joga-se aos braços da bela jovem.

- Diga-me que tudo ficará bem- diz ele, com lágrimas nos olhos.

- Cuidarei de ti - respondeu ela, com sinceridade no olhar, com ternura emanando de sua essência.

Ele novamente sorri, dessa vez, tomado por uma forte sensação de paz. Beijou-a apaixonadamente, e pela primeira vez em semanas, sentiu que ainda existia naquele universo cinzento, uma razão para prosseguir.

Estavam juntos havia algum tempo, mas somente naquele momento percebera que aqueles belos olhos esverdeados lhe traziam a paz que tanto buscava.

De mãos dadas, partiram. Ela recostada ao ombro de Jeremy, e ele, ciente de que fizera a escolha certa. Mesmo que suas crises o fizessem duvidar de suas próprias escolhas, o rei estaria ao lado de uma mulher que o amava pelo o que ele era, e ele, pelo o que ela representava em sua vida.

Uma paixão antiga, uma amizade suprema, uma relação que se estabelecera havia anos.

Assim o era, ele, Rei Jeremy.

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