sábado, 7 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Quatro - Deus Abençoe o Rei

[...]
Diziam as histórias, distorcidas ou nem tanto. Eram um casal ainda no berço do enlace, à espera do primeiro filho. Ela, uma bela dama de olhar cintilante, olhos da cor do mel, cabelos encaracolados, baixa estatúra. Ele, um rapaz com pouco mais de vinte e cinco anos, de olhar severo, sombrancelhas espessas, cabelo escuro e barba grossa. Governavam e se deixavam governar.

A vida árdua, e os dias difíceis os envolvia à mercê daquele universo pequeno.
Naquela manhã, uma manhã fria talvez, não se sabe. Ela urrava envolvida nas primeiras contrações, ele, agitado, andava de um lado para o outro, preocupado com o futuro de sua esposa, preocupado com a chegada de seu herdeiro. Horas e horas intermináveis, se passavam, se faziam infinitas. Um dia inteiro, um dia diferente, o sexto dia do mês, o oitavo mês daquele ano.

Um parto que deveria se fazer simples, aos poucos se complicava. A mãe, envolvida em dores, sentia o peso de carregar a dom da vida dentro de si, e sua própria jazia em risco. O pai, recostado ao carro, fumava seu cigarro, com mãos trêmulas, olhando o relógio, o horizonte, queria estar lá, ao lado de sua amada, porém, impedido pelos médicos, agitava-se ao som da cidade grande.
Um mundo inteiro o esperava, um universo para se governar.

Naquela noite, pouco minutos antes das vinte horas, um choro agudo quebrara o silêncio. Uma voz forte, para uma criança tão frágil. Obscuros os fatos, eram gêmeos, mas apenas um deles com vida.
Jazia ali, nas mãos do médico, frágil, longe de seu reino, longe dos anos o qual estaria diante do próprio trono, ele, à época, Príncipe Jeremy.

Apenas uma criança, no berço de sua jornada. No berço de sua ascenção.


[...]

Jeremy, o Rei, olhava para o asfalto que se projetava à frente. Ao volante de seu carro, guiava, absorto pela música alta, e com seus óculos escuros, protegia-se do sol cintilante que ascendia ao horizonte. E nos labirintos que se formavam às ruas, se via forçado à encarar outro dia de sua rotina burocrática. Mas por lapsos, via-se submerso nas lembranças de sua própria existência...

"... era aquele o seu pequeno universo. Lugar o qual crescera, e distinto de tantos outros seres que ali residiam, governava à sua maneira. Nunca fora uma criança comum. Ainda aos oito anos de idade, Príncipe Jeremy se jogava à calçada de sua antiga casa, olhava as estrelas no céu, e fascinado pela vida daquele universo intocável, questionava a existência de vidas além daquele pequeno mundo o qual vivia.

Sua inteligencia, e sua curiosidade o faziam ser um menino sonhador, ousado. E diferente das crianças de sua idade, misturava-se com crianças mais velhas. Sua opinião, por mais árdua que se apresentava, era como um tapa na cara das crianças mais velhas, o que para Jeremy, o Príncipe, era motivo, por vezes, de voltar para casa com o nariz sangrando.

De gênio forte, opinião formada, não abaixava a cabeça em discussões, porém, para uma criança da sua idade, eram temas que lhe fugiam à realidade.

Dentro de seu lar, alternava entre bons e péssimos momentos. Havia um pai ausente, e uma mãe dócil. Seu pai, um alcoolatra, porém, atencioso, quando assim queria, vivera uma vida inteira dedicada ao trabalho, o que fizera dele um homem ausente.

Era um homem silencioso. Com traços fortes, porém, em seus lapsos de figura paterna, era dócil, carinhoso. Um homem cujo objetivo de vida fora dar as melhores condições de vida para a família, mesmo que isso significasse morrer trabalhando.

A mãe, por outro lado, figura dócil, afetiva. Alternava entre a vida doméstica e os cuidados para com os filhos. Era exemplo como mãe e esposa. Vivera sua vida para satisfazer a felicidade de seus filhos, do marido. Disposta, alegre, por vezes, esbravejava com Jeremy e sua irmã, Kathy.

Era uma família comum, dentre bons e péssimos momentos, viviam unidos, viviam suas próprias utopias."

[...]

Era aquele o seu dia. Completava-se mais um ciclo em sua jornada. Do nascimento aos dias atuais, passaram-se pouco menos de vinte e cinco anos. E agora, Rei Jeremy, o Perverso, entre o estado caótico de sua mente e a as realizações pessoas, a vida girava em torno de recuperar nos pilares do tempo, a paz, a sobriedade, a cura para suas cicatrizes. Mais um aniversário, e eles, pai, mãe, e tantos outro entes queridos ali não estariam presentes.

De seus vinte e poucos anos, agora restavam lacunas em todos os cantos. Aquela cidade, aquele reino, vazio se tornara. Desde a morte da mãe, em todos aniversários, chorava sozinho, sentindo o peso em seus ombros. Com a morte do pai, a dor se intensificara, e naquele dia não seria diferente.

Sentou-se à cama, calado, e sozinho, e chorou. Era o vazio que há muito se estabelecera na vida cotidiana. Sentia falta de todos os momentos, bons, péssimos. Mas sentia a falta daquele colo de mãe, e daquele abraço paterno.

Aquela criança ousada, sonhadora, com sua incrível mania de defender sua própria ideologia ainda residia naquela mente sufocada. Mas o tempo roubara sua inocência. Era um homem feito, com fios brancos de cabelo espalhados pelo topo da cabeça, e que nos ultimos tempos, se faziam presentes à barba também.

Sua expressão se tornara mais dura, impassível. Mas ainda existia ali, um coração puro.

[...]

Aquela oitava noite de agosto se fazia congelante. E dentre risos, dentre conversas altas, Jeremy se via cercado pelos famíliares, pelos amigos, por sua amada.

Todos reunidos, sentados em vários pontos da casa. Brindavam mais um ciclo do jovem Rei. E ele, sorridente, agradecia aos céus por mais um ano. Agradecia por estar novamente ao lado de tantas pessoas queridas. Por vezes, olhava para alguns assentos vazios. E se consumia em tristeza. Eram as lacunas herdadas de sua própria existencia. Mas, recuperando as energias, se via sorridente novamente.

Aquela cidade, aquele reino, aquele pequeno universo nunca fora tão vazio, mas de todos que ali se ausentavam, Jeremy sentia-se honrado por estar ao lado daqueles que ali permaneceram.

Ali estavam aqueles cujas histórias se reuniam à de Jeremy, e naquela noite fria, celebraram. Gargalhavam com as lembranças, e se aqueciam conforme a temperatura da noite caía bruscamente.

Existiam lacunas deixadas, e essas não se fariam preenchidas. Mas sempre existiriam amigos ao lado do jovem rei. E para Jeremy, isso era necessário.

[...]

As festividades haviam terminado fazia pouco mais de uma hora. Jeremy, olhava o ambiente vazio. Ao seu lado, restava recostada ao seu ombro, sua amada, Sophie. O Rei ainda mantinha o sorriso. Beijo-a com ternura. Sentia-se feliz por não estar só naquela noite. Sentia-se feliz, por não estar sozinho naquele universo o qual governava à sua maneira.

Deitaram-se, e abraçados, dormiram pacificamente. Sonhara com seus pais, com seus amigos, com sua amada. Se a vida lhe mostrava lacunas, em seus sonhos, em seus pensamentos, a vida se completava.

Acordou na manha seguinte, beijou Sophie, e sorriu.

- O que tiver que ser, será - falou baixinho para si.

Olhou pela janela do quarto, e um novo dia se fazia belo lá fora. Era o início de um novo ciclo. Era o início de mais um ano em sua jornada.

Ao lado de seus amigos, seus familiares, sua amada, Rei Jeremy iria caminhar, mesmo que caísse pelo caminho, mesmo que se fizessem lacunas, iria continuar, até que ele próprio se tornasse uma lacuna naquele universo

Mas no fundo, desejava viver por mais cem anos. Pois dentre bons e péssimos momentos, sentia-se feliz por ter conquistado um mundo para si.

[...]

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