domingo, 29 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Seis - Redenção

Eram olhos esverdeados que se perdiam à mercê de uma cidade quase gigantesca. Cercada pelos arranha-céus e casebres, seu olhar se perdia ao horizonte. Do alto de seu apartamento, recostada à sacada, fumava despretensiosa, respirando lentamente, exalando lentamente a cortina de fumaça.

De pele clara, e olhos incrivelmente belos, sentia a brisa noturna penetrar pelos seus cabelos de um tom castanho claro, mesclado em mechas douradas, estes, que serpenteavam até pouco além dos ombros, escondendo a pequena tatuagem marcada à pele.

Permaneceu ali, submersa à penumbra do aposento, olhando as grandes avenidas, e o movimento quase mórbido de carros que iam e vinham, pelo asfalto negro de uma rotina comum.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha, enquanto um breve sorriso de uma felicidade sóbria, rompia de sua face delicada. Suspirou e gentilmente, entregou-se para os braços que a envolviam calorosamente.

Rodou nos calcanhares e fitou aqueles olhos castanhos, tão intensamente vivos, e incrivelmente apaixonados. Eram olhos de teor sóbrio, que dentre os mais ínfimos pensamentos, naquele instante, transcendia os presságios de uma vida árdua, e após anos, se faziam belos.

Beijaram-se, soberanos à cidade que se erguia à frente. Ela, aconchegada pelos braços do amor de sua vida, ele, absorto nos olhos verdes de seu grande amor, porém, acima disso, distante de seu reino, de sua vida caótica.


Por muitos anos Jeremy fora privado de tal sentimento. Era a paz e a sobriedade. Era o prazer pela vida

[...]

Um sol rubro penetrou timidamente o vitral do quarto. Iluminado pelos vestígios da nova alvorada, Jeremy abriu os olhos, e sorridente, suspirou aliviado. Ao seu lado jazia uma rainha soberana, Sophie, velada por sonhos bons, ainda abraçada ao corpo de seu homem.

A expressão calma de Jeremy tingida em cores de um tom jovem, o rosto envelhecido pelas preocupações cotidianas. Era visível a transformação na expressão do rei. Pelos dias que se seguiram, tais mudanças se faziam ainda mais visíveis. Estar distante de seu reino, era como selar a união da paz em sua vida.

Queria que fosse para sempre. Queria estar ali, vivendo ao lado de sua amada, a vida que nunca tivera. Uma vida simples, longe das barreiras intransponíveis de seus problemas. Desejava ao peso da alma, que aqueles dias se fizessem eternos. Pois assim, seria apenas ele, Jeremy, o homem comum.

Naqueles dias, seu temores, e os princípios de crises, eram apenas meros lembranças vagas, que ainda residiam em sua mente. No entanto, a realidade se mostrava contrária ao abismo de seu reino cotidiano.

Assim o era, ele, Rei Jeremy. Era movido por julgamentos. Nos últimos sete anos, fora apenas instrumento de uma revelação da mente perturbada.

Sóbrio, impassível, racional.

Nos últimos, no entanto,  vivia numa espécie de repetibilidade mórbida. Movia-se quase imperceptível, agindo de acordo com o ritual sagrado das escolhas. A cada ação, múltiplas reações. Para cada reação, uma escolha. Assim o era, assim o fazia.

Uma escolha dependia exclusivamente de seu julgamento antecipado. E dentre o leque de opções disponíveis, sentenciava-se a escolher o que lhe mandava a razão. Em raras ocasiões julgara pelo coração.

No entanto, o momento atual o propiciava a harmonia de alma, mente e coração. Chances reais de se viver intensamente o simples. 

Estava decidido.

[...]

Nos mais severos anos procurara sua metade, o complemente ideal de sua própria alma. Em meio à inocência de uma paixão arrebatadora, encontrara em certo momento, Christie. Dócil, tímida, exigente e passional. O tempo sábio mostrou-se adverso. Os pilares que mostraram-se sólidos, ruíram à medida que as diferenças contrastavam com a realidade apresentada. A cada dia, o que parecia ser um sentimento bom, apenas destoou de todos os outros, e Jeremy viu-se perdendo sua própria identidade. Não mais era Jeremy. Era apenas um homem vivenciando os sonhos de um outro alguém. Preso, acuado,  a iminente queda revelou-se crucial.

Diante de tais circunstâncias, perdeu-se nas linhas temporais do agora, do ontem, do amanhã. Assim viveu intensamente sob o medo que o dominava e o caráter do erro que jamais aceitara. Christie jamais fora sua amiga, e não se dignava a ser seu grande amor. Pois a vida os separava por pensamentos e ações tão distintas, que Jeremy agora entendia a razão de que o futuro, era apenas fruto de uma utopia criada para preencher um vazio deixado pelo tempo.

Uma lacuna a ser preenchida.

Passado o tempo, encontrara numa tal Elise, parte de dilemas indecifráveis. Movido pelo desejo do "desconhecido", viveu por meses, o que chamara de "aprendizado".

Elise lhe mostrara, não intencionalmente, que a vida deveria ser vivida entre o abismo do caos e o céu da redenção. Novamente, Jeremy entregou-se ao desejo irracional. Era o amor pelo impossível. Era o desvendar dos mistérios ocultos em seu próprio ser. 

Dignamente, eram movidos pelo anseio, e entregavam-se às dúvidas, que cruelmente, fiéis aos pensamentos recíprocos, alternavam a distância e o calor dos abraços.

Elise mostrara-se uma mulher liberdade, e Jeremy, acintosamente, tentava derrubar tais paradigmas, mas esbarrava-se sempre no mesmo dilema. O dilema crucial que o fizera escolher à amizade de Elise ao acaso de asas azuis presas por teias egoístas e passionais. 

Fora sua maior lição. Elise nunca fora sua por completo, nem ele à pertencia. Partilhavam de um sentimento que nem mesmo o tempo pôde explicar. Reinavam absolutos, mas a amizade sempre fora predominante, ainda que o desejo recíproco confundisse ambos. Completavam-se nos seus próprios erros, mas eram caminhos opostos. 

Escolhas passadas. O tempo falaria por si. Nos enigmas apresentados, a redenção.

Naquela noite que encontrara Sophie pela primeira vez, em anos, Jeremy tinha a convicção de que o presente se interligava ao passado. Ali, naquele lapso de tempo, de idas e vindas, deveria encontrar uma razão para seguir. No mais remoto e profundo espaço de seu coração, deveria encontrar os vestígios de sentimentos adormecidos. Um complemente para sua alma, na amizade, no amor. 

E assim o fez.

Completavam-se por realeza. Eram sentimentos puros, guardados por anos. Da amizade à paixão. Nos olhos esmeralda que o fitavam com ternura, Jeremy parecia ter encontrado a verdadeira natureza de ser aceito e amado pelo o que era, pelo o que fora. Do primeiro olhar, ainda adolescente, ao primeiro beijo, Sophie guardara para si, a velha foto que Jeremy lhe dera ainda nos primórdios, e por tantos anos, acariciou o presente, como se pudesse tocar a face do jovem rei. 

Estranho, pois, estavam ligados por uma eternidade de anos que moldaram Jeremy. Do menino brincalhão, engraçado, ao homem comedido, impassível e inquieto. Os anos foram apenas um obstáculo para que seus caminhos se cruzassem. Moveram-se por infinitas terras, tão distantes na presença um do outro, e sempre, nas encruzilhadas da vida encontravam-se, e separavam-se instantaneamente.

Dessa vez poderiam viver o que o tempo havia lhes roubado.  E viveriam.

Entrelaçavam as mãos nas noites frias, e o castanho olhar inquieto, com o cintilante olhar esmeralda se beijavam na parcial escuridão. Abraçados, aqueciam-se, deixando os corpos expostos ao calor daquele tempo roubado. Nem mesmo as discussões sem fundamento pareciam querer separar aquelas almas. Destinados à viver intensamente, viveram. 

Se existisse uma explicação racional para o amor, Jeremy finalmente a havia encontrado. 

[...]

O  vento ressoava. Um silvo na noite fria de inverno. O negrume dos céus coroavam o incandescente mercúrio-neon da cidade. Os prédios perdiam aos olhos, a cidade em seu habitual movimento. O ir e vir dos carros, o ir e vir das pessoas. Uma noite comum. 

Jeremy fitou profundamente Sophie. Aqueles olhos esmeralda nunca foram tão belos quanto aquele momento. Iluminados pelo fantasmagórico brilho das velas espalhadas pelo aposento. O dócil amora do incenso, misturado com o perfume de Sophie, fazia Jeremy transcender os limites do próprio universo. 

O Rei sorria.Um sorriso fulminante para si próprio. Ajoelhou-se, e o brilho de seu olhar mesclou-se ao das chamas tímidas, ao próprio brilho de seu interior. Tomou a mão de Sophie para si, e a ofereceu, embrulhado por seu próprio coração, o símbolo de seus sentimentos.

- Aceite-o - disse calmamente, inaudível, porém, forme na voz, e na paz que se instaura em sua mente - Seja minha mulher! 

Sophie sorriu. Seus olhos esverdeados brilhavam mais intensos, e as primeiras lágrimas serpentearam sem pudores por seu rosto delicado, belo.

Apenas um símbolo, simples, sem ornamentos. Mas ali, naquele anel, Jeremy depositara todo o seu sentimento por Sophie. Depositara toda a esperança, toda a paz, e tudo o que o movera até aquele instante. Entregava para ela, não apenas votos para o futuro, não apenas uma aliança, mas seu próprio coração.

- Não poderia desejar o contrário, querido - disse Sophie por fim, com a voz embargada.

Destinos selados. Após o breve ritual, beijaram-se calorosamente, e abraçados permaneceram até que o tempo se perdesse na junção da última peça de uma quebra-cabeças iniciado há tantos anos. 

Seriam parte um do outro, na saúde; na doença; na paz; na guerra, no amor; na amizade.

[...]

Lá fora, um novo dia transcendia ao horizonte. Na sacada, olhos castanhos varriam a vastidão das avenidas, de um brilho intenso há muito oculto. Era o olhar de um homem que há muito buscava a paz.

Naquele momento, nada mais importava, pois diante de suas escolhas, os problemas resumiam-se a meros detalhes informais, que aos poucos, se tornariam apenas vagas lembranças a serem apagadas pelo tempo.

Sentia-se realizado. Sentia-se feliz.

Nada mais importava. Era o suficiente.

[...]

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