domingo, 15 de agosto de 2010

Rei Jeremy, o Perverso - Capítulo Trinta e Cinco - Aqueles Olhos Esmeralda

[...]

Sob um nublado céu de agosto, ainda no auge do negrume da madrugada, e a ameaça iminente de uma tempestade, aqueles olhos castanhos olhavam confusos o horizonte. De cenho franzido, pelo mau humor que se instaurara naquela mente, o jovem Rei, inspirando e respirando com tamanha intensidade, que por instantes, sentia o peito arfar, dolorido, doentio, mesclados na irritação, na saudade, no cansaço que aquela discussão árdua provocara.

Momentos antes, desencadeara uma série de perguntas e respostas ao telefone, e gesticulando fervorosamente, a discussão assumira um tom ameaçador. E ele, Jeremy, parecia se abraçar ao orgulho, à mania de governar à sua maneira.

No outro lado da linha, Sophie, incrédula pelas perguntas perturbadoras, tentava arduamente fazer valer o próprio orgulho, e com repostas secas, tentava virar o jogo, elevando o tom da discussão, quebrando o silêncio sereno que em algum momento, ali existira.

Lá fora, o vento uivava como uma fera faminta, e se jogava em fúria contra as árvores. Dentro do quarto, a milhas de distancia de sua amada, Jeremy andava pelos quatro cantos do aposente, e de cigarro em punho, gesticulava ainda feroz, até se jogar exausto em sua poltrona, de olhar atônito, inspirando profundamente, e tentando reorganizar as ideias, conforme Sophie contestava os argumentos do Rei.

Por fim, ambos exaustos pelas investidas de seus próprios egos, encerraram a ligação. E novamente se instaurou o silêncio no quarto, exceto pela natureza em constante caos que se formara lá fora.

Ainda sentado à poltrona, Jeremy olhou para teto, buscou no desconhecidos, um abrigo, um sinal de que a paz o abraçaria. Mas nada encontrou, exceto mais uma frustração crescente. Pôs-se em pé, e a passos largos, determinados, abriu a porta do aposento, e enfrentando a ira da madrugada, recostou-se à porta, apagou as luzes, e ainda de cenho franzido, de mau humor instaurado, de olhos marejados, beirando o caos de sua própria mente, sentindo metálico, o gosto de seu próprio ego.

Um ego ferido. Um ego que não se deixava iludir. Era o orgulho, a saudade, a irritação.

Olhou novamente para o horizonte, e não tão distante, o relâmpago  cortou os céus, revelando não somente a ira da natureza em constante modificação, mas também um rei pensativo, de olhos castanhos vagos, apegado ao passado, abraçando os primórdios de sua relação com Sophie.

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Era um época conturbada. Já não bastasse a adolescência um tanto conturbada, Jeremy se via cercado ainda pelas consequências da morte de sua mãe. À época, o então Príncipe Jeremy, em seus habituais vestimentas negras, do qual, não se sabe ao certo se era pelo luto, ou pela rebeldia crescente que o dominava.

Ser diferente era o modo de expressar para com o mundo. Era um jovem de cabelos compridos, trajado por suas roupas surradas, negras. Ainda criança já tivera o prazer e a sorte de interessar pelo Rock n' roll, mas a adolescência se mostrava à imagem de sua preferência musical. Era na música que se fazia valer seus mais ínfimos sentimentos. Da inconsequência, da rebeldia, do amor, do ódio, da arte de se viver intensamente. Assim o era, à época, ele, Príncipe Jeremy, o Inconsequente.

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Dedilhava severamente ao contrabaixo, seu instrumento preferido, e em acordes gritantes, urrava raivoso, sua música, com sua voz grave e cheia de melancolia. "Come as you are" - cantava descontrolado, seduzido pela melodia estridente, pela raiva que emanava.

Naquela pequena garagem fétida de cigarros e vinho barato, reuniam-se seus companheiros. Fora quando, no fim da tarde, jogado à poltrona, ele, Príncipe Jeremy, de cigarro em punhos, e olhar severo, elevou seus olhos castanhos para o brilho esmeralda daqueles olhos tão infinitamente apaixonantes.

Sentiu o coração acelerar, e não soubera, mas de pupilas dilatadas, encarou severamente aquela menina. Encarou-a com seu próprio coração, e o que se seguiu, mudaria para sempre a sua própria história.

Uma bela menina, de olhos verde esmeralda, de sorriso encantador, encarava-o, fitando aqueles olhos castanhos cheios de raiva, mas não mais o era, eram olhos castanhos que brilhavam, embriagados na beleza, e era de um olhar curioso, cheio de energia. Ela sorriu tímida, encarando-o com admiração, e ele por sua vez, de canto de boca, sorriu prazeroso.

Pela primeira vez, Jeremy sentiu o peito pulsar descontrolado, e seus olhos não conseguiam fixar-se em mais nada. Era apenas a bela figura feminina que ali estava.
Era o sabor dócil e perigoso da paixão que o dominava. Paixão à primeira vista. Uma menina que chamada Sophie.

Uma menina que deveria ser sua, e tempo assim o faria.
[...]

Lá fora, o vento cessara. E agora, os céus se derramavam na tempestade que se abatera pela cidade interiorana. Raios rasgavam o véu da noite, e ecoavam por todos os cantos trovões enfurecidos. Era a ira de uma natureza em modificação.

Jeremy novamente se via calado. A ira inicial deixara de existir, e aquela face mais severa, agora era apenas um reflexo de pensamentos que viajavam pelas esquinas do tempo. Seus olhos castanhos, distintos da rebeldia adolescente, cintilavam à imagem de sua responsabilidade. Eram olhos experientes, carregados de marcas, vívidos.

Respirou fundo, e de olhos fechados, deslizou a mão pelos cabelos já pigmentados em branco pelo tempo. Tornou a olhar o horizonte e frustrado, fechou a porta de seu aposento. Mergulhou na cama, e fitando o teto, pôs-se a viajar pelas dimensões de suas memórias.

[...]
Haviam se passado pouco mais de dois anos desde o primeiro encontro. A tentativa frustrada de uma relação, ainda no início, agora se fazia esquecida. Jeremy, ascendera ao trono, e agora intitulado "Rei", encarava novamente aqueles belos olhos esverdeados.

Havia algum tempo que não se encontravam, e naquela noite, obra do destino, obra do acaso, não se sabe, se encaravam.
O coração do jovem rei novamente titubeava acelerado, e seus passos que ecoavam silenciosos, eram os mesmos que um dia lhe fariam correr tantas e tantas vezes para os braços de sua amada. Sophie sorria.

O tempo havia lhe acentuado às curvas, e sua beleza juvenil, agora se espelhava nos primeiros vestígios de mulher.
Face à face, encararam-se. Conversaram por horas. Relembraram o primeiro beijo nunca dado, relembraram a primeira discussão e a separação precoce.

Jamais tiveram a oportunidade de viver naquele mundo, o que escondiam em seus pensamentos.
Ambos se apaixonaram à primeira vista, porém, por pensamentos distintos, jamais fizeram de tais sentimentos, o que a realidade lhes proporcionaria naquela noite. Caminharam velados pelo luar, e frente àquela velha escola, que muitas vezes se encontraram, beijaram-se pela primeira vez. Era o gosto sutil de uma paixão adormecida. Era o sabor indecifrável de um beijo há muito esperado, e os lábios delicados de Sophie se faziam viciantes naquela noite, e assim se fariam por todos os anos seguintes.

Encontraram-se nas noites seguintes, e Jeremy se via fascinado pela beleza de Sophie, enquanto esta, se fazia apaixonar ainda mais pelo jovem Rei. Porém, o destino, mero instrumento brincalhão, separaram os amantes que se fizeram apaixonar naquele fim de tarde, naquela garagem velha, naquele lugar onde olhos esmeralda fitaram os olhos castanhos.
Sophie partiu, para um lugar distante, iniciando a vida acadêmica, o qual, o próprio Rei, consumido pela ascensão recente, pelos estudos, nada pudera fazer, a não ser aceitar o destino.

Aquela menina ainda seria sua, não por alguns dias, mas pela eternidade. O tempo se encarregaria de assim o fazer.

[...]

Jeremy fitou o teto por alguns minutos, e tomado pelo cansaço, respirou pesadamente. Pegou o porta-retratos da mesinha de cabeceira, e olhou fixamente para aqueles belos olhos esverdeados. Era de um brilho diferente de tantos outros que encontrara em sua vida. Era um brilho intenso, sonhador, apaixonado.

Suspirou. Depositou o objeto novamente em seu devido lugar, e tomado pelo saudosismo, mergulhou novamente em sua própria mente.

[...]

Anos haviam se passado desde o último encontro. Havia pouco tempo, Jeremy, o Rei degustara meses e meses de crises intermináveis. Sua sanidade se fazia precária, e durante tantas semanas que se seguiram desde seu rompimento com Christie, e sua primeira crise, sua mente margeava a loucura, quando na verdade, buscava novamente encontrar a sobriedade.

Naqueles dias, o Rei se via perdido nos imbróglios de sua vida cotidiana. Semanas atrás, sua então parceira e amiga, Elise, decidira deixar a cidade. E naquelas circunstâncias, Jeremy se via absorto na perda iminente de sua cura.

Elise havia se tornado mais que uma amiga, era seu porto-seguro, era sua salvação. Mas sua decisão final se tornara a própria decisão de Jeremy.

A vida deveria seguir.

Naquela noite, Jeremy caminhou pela velha praça. Sozinho, observava o grande número de indivíduos desconhecidos. Uma grande multidão se fazia barulhenta. Aproveitavam a final de semana que havia chegado, e longe da rotina cotidiana, conversavam a todo vapor, riam e faziam algazarra.

- Malditos bêbados - pensou o rei.

O cansaço, os problemas e os pensamentos ágeis sufocavam o Rei. Sentia-se exausto pela constante turbulência de sua vida. O relacionamento frustrado com Elise, as crises, as intermináveis papeladas burocráticas, o faziam um homem solitário, frustrado, submerso no mau humor, no desgosto pela vida.

O tempo havia mudado o jovem Jeremy. De menino sonhador, tornara-se um rebelde, e agora, jazia um homem feito, porém, refém de sua própria amargura. Parecia destinado à romper-se em crises intermináveis. Passara os últimos anos envolvido em quedas e ascensões. E não eram poucas as cicatrizes.

Apenas sentia falta dos tempos pacíficos. Sentia falta dos tempos onde eram os problemas apenas vagões de um trem que não tardaria em partir.

A noite se fazia aconchegante. O outono, pouco se fizera frio, exceto por alguns dias onde as noites gélidas se abateram pela cidade interiorana. A brisa fresca da noite, mesclada nas luzes mercúrio e no luar pálido, davam à cidade, um aspecto tranquilo. Mas a mente do jovem Rei assim não se fazia. Tomado pela súbita irritação, decidira retornar para seu lar. Lançou um último olhar para a multidão, e tomado pela surpresa, se conteve, incrédulo.

Os anos haviam lhe acentuado ainda mais a beleza. Deslizava com elegância, à passos firmes, e sorria, como se a vida lhe fosse um sonho bom. Fitava Jeremy com aquele belo olhar esverdeado, sonhador, tão cheios de ternura e paixão.

Durante todos aqueles anos, Jeremy sempre soubera que aqueles olhos lhe observavam de uma forma diferente, nunca presenciada pelo jovem rei, e naquele momento, se via embriagado no sentimento há muito adormecido. Era ela, tão e somente, Sophie, a antiga paixão de rei Jeremy, a menina de olhos esverdeados, a mulher que o tempo se encarregara de trazer para o jovem Rei.

O silencio reinou absoluto. Não se fizeram palavras dispersas, não se fizeram questionamentos, apenas um abraço apertado, absoluto, cheio de vigor, emanando sonhos, desejos. Os olhos se encontraram gentis, e cintilantes à luz de um luar pálido, fecharam-se lentamente, dando lugar aos lábios que se encontraram apaixonados.

- Fique comigo - disse ele, com voz rouca, embargada na emoção, sentindo os olhos lacrimejarem

- Nunca te abandonei - responde Sophie, serena, em tom apaixonado, abraçando-o calorosamente.

Um abraço que se fizera eterno. Seria este o abraço mais reconfortante de suas vidas.

[...]

A chuva cessara havia poucos minutos. Jeremy novamente se via deitado à cama, pensativo. Da irritação, fizera a melancolia, e agora, jazia um rei absorto na saudade. Sophie, distante estava, e a discussão que a pouco se estabelecera, apenas mostrava o quanto Jeremy sentia a falta de sua amada.

De celular em punho, Jeremy ouviu aquela voz dócil, porém, triste.

- Apenas me desculpe, meu anjo - dizia o rei, em tom arrependido - Entenda - continuou o rei, tomado pelo sentimento crescente - existem momentos, onde iremos nos fazer tão próximos, tão distantes...

Fez-se um breve silêncio, como se ele procurasse palavras.

- Estar contigo, não é apenas estar ao lado de uma mulher qualquer. É estar diante de minha melhor amiga, minha companheira, a mulher de meus sonhos - fez se outra pausa, e então Jeremy concluiu - É estar ao lado do meu grande amor.

Milhas dali, Sophie chorou silenciosa, e se fez aparecer um sorriso em sua face. Apenas uma discussão, pensou.

- Sinto sua falta, meu bem - disse ela, quebrando silencio que ecoava por milhas e milhas.

- Sinto o mesmo - concluiu Jeremy.

Lá fora, a lua transcendia as nuvens negras. E as primeiras estrelas emergiam sob um céu carregado. Um novo universo se revelava sobre a cidade. Mais algumas horas, e um novo dia romperia ao horizonte.

O silencio novamente se estabelecera no telefone. Com olhos marejados, e coração apertado, Jeremy sentiu uma enorme onda de tristeza e alegria se abater sobre o seu ser. Era a tristeza de estar tão distante daquela jovem mulher, e a alegria de poder dizer o que há muito gostaria.

- Sophie, meu amor... - hesitou por segundos, mas na verdade, não mais queria hesitar, queria gritar ao mundo, queria sentir esse sentimento pela eternidade.

E então concluiu.

- Eu te amo!

Em um reino distante, uma mulher de olhos verdes, sorriu, como nunca sorrira antes. Sentiu-se reconfortada por palavras tão distantes, sentiu um abraço apertado a envolver, invisível, a milhas dali, tão incrivelmente cheio de amor, tão incrivelmente protetor.

- Também, amo você, Jeremy!

Era apenas o início de uma história que se fizera adormecida por tantos anos. Era apenas o desejo de seres que há muito se faziam amar, e serem amados.

[...]

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