[...]
Era lugar algum. Um carro estacionado nos canteiros da velha vasta estrada. O asfalto negro estendido, lá para aqueles lados de onde os carros rompiam da penumbra. De onde os faróis quebravam a escuridão e refletiam no retrovisor interno, cegando momentaneamente o jovem observador.
Lugar algum, de onde a lua rompia de um brilho amarelo fosco ainda no berço de sua jornada pela madrugada estrelada. O céu, vasto véu negro de milhões de outras galáxias. Estrelas brilhantes corrompidas pelas luzes da cidade. Brilho sujo, do envelhecido, do mercúrio das lâmpadas em fila.
Apenas lugar comum. De onde um homem, sentado ao banco do carro observava, varrendo com seu olhar castanho os ipês roxos, os postes, o céu, a lua, o nada. Braço direito recostado à porta, de cigarro em punho, queimando pesadamente, exalando o degustante odor da nicotina e do alcatrão. Um trago. Fumaça ao vento.
Dopamina liberada. Ao prazer de um bom cigarro.
[...]
Pela longa estrada dirigia. Olhava pelo retrovisor, olhava à frente, e por vezes desviava o olhar, olhos aos céus, nas estrelas difusas. Cantarolava como quem não se importava, berrava desafinado, voz rouca. Dueto com o rádio.
"Did I say that I need you? Did I say that I want you? Oh, if I didn't I'm a fool, you see. No one knows this more than me"
Em algum lugar. Uma mulher o esperava. Queria lhe dizer algo. Em outro lugar, uma outra mulher o procurava. Em lugar desconhecido, uma mulher, não atendia o telefone celular.
- Droga! - Esbravejava ele. Guardando o celular, enquanto girava o botão do rádio aumentando o volume da canção.
"Even flow, thoughts arrive like butterflies. Oh, he don't know, so he chases them away."
Ele acendia outro cigarro, saboreando o gosto. Aquele maldito soco do diabo nos pulmões. Aquele maldito gosto de seu vício comum.
Uma das mulheres iria ouvir o que ele tinha a dizer, daria de ombros, porém, sentiria o golpe. A segunda, desataria a falar, mas se magoaria com aquela frieza que ele iria lhe proporcionar. A outra, porém, não atenderia o celular e ele não saberia dizer.
[...]
Era lugar algum. O relógio marcava seis horas da manha. Mais alguns minutos e o sol romperia a fria noite. À cama, um homem se enrolaria nos cobertores, aquecendo-se. Rezava mentalmente. Após as orações, olhou cegamente pela penumbra do ambiente. Ao computador rompiam-se calmas canções. Livros se espalhavam na estante, na mesinha, no armário.
Apenas lugar algum. Um homem entregava-se ao sono. Sonhara com uma bela dama de cabelos dourados...
... Felizes, abraçavam-se. Beijavam-se. Sorriam. Eram belos, ele, ela, juntos. Caminhavam por um cenário o qual ele não se lembraria ao acordar, caminhavam de mãos dadas, dedos enlaçados.
Cenário em modificação.
Estavam à mesa, partilhando um momento único ao lado de familiares e amigos. Alguns dos quais, vivos não mais estavam. Todos tagarelavam sem parar. O homem fitava sua amada. Sentia aquele ternura lhe preencher. Não havia lacunas. Ela, por sua vez, o fitava com sorriso gentil, amável. Compartilhavam dessa felicidade tão plena...
[...]
Algum momento do tempo. Um homem acordava. Ainda sentia toda aquela felicidade irreal lhe preencher. Olhou o teto, as teias daquelas aranhas esquisitas, pernudas, magrelas. Respirou fundo. Continuou submerso na preguiça. Sorriu.
Acordado, continuava a ver e rever mentalmente aquele sonho bom. Aquele sonho o qual deveria ser real.
[...]
Um lugar qualquer, um homem continua a sonhar. Era ele, ninguém. Um tal Jeremy.
Sonhara com aqueles belos olhos, aquele sorriso. Uma tal Elise.
Continuou a sonhar acordado por longos momentos. De olhar distante, perdia-se nos próprios pensamentos, enquanto segurava em suas mãos a pequena flor de lótus que outrora fizera.
A perfeição que renasce do caos!
Um sonho. Um sentimento. Uma frágil dobradura de papel.
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